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Protestos e vandalismo

Por conta do momento, não há dúvida de que haverá uma forte demanda pelas coberturas de seguros para os riscos de tumultos

O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2013 | 02h03

Depois de duas décadas adormecido, de repente o Brasil foi para as ruas. Sem muita coordenação, sem liderança e sem reivindicações claras, os brasileiros, aos milhares, tomaram as ruas das grandes cidades para protestar. O estopim foi o aumento do preço das tarifas dos ônibus. Um movimento até agora sem maior expressão, que luta pelo transporte público integralmente subsidiado pelo Estado, deu o primeiro grito, convocando seus integrantes para protestarem nas ruas de São Paulo. A eles se juntaram integrantes de partidos radicais, punks, desempregados e, principalmente, gente indignada com o que acontece no Brasil, disposta a mostrar sua insatisfação.

As primeiras passeatas foram severamente reprimidas pela polícia, que entrou em confronto com os manifestantes, gerando arruaças e quebra-quebras, que aumentaram de intensidade na medida em que os dois lados se ressentiam de um comando unificado e coeso, capaz de dar o rumo para as manifestações e para sua repressão.

Se, de um lado, baderneiros profissionais aproveitaram o caos instalado para praticarem atos do mais absoluto vandalismo, de outro, a polícia também não se entendia, resultando em ações e reações cada vez mais violentas, que atingiram o patrimônio público e o privado, com danos a estações de metrô, shopping centers, carros e ônibus.

Depois o movimento se espalhou e quando São Paulo parecia que havia encontrado um meio termo, no qual as manifestações deveriam correr em paz, no resto do Brasil a violência fazia parte das passeatas em Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre e Salvador. Mas o destaque da selvageria vai para o Rio de Janeiro, onde tentaram atear fogo no prédio da Assembleia Legislativa. E agora Brasília, onde tentaram atear fogo no Palácio do Itamaraty.

Entre secos e molhados, comparando o que acontece aqui com o que vai pelo mundo, os nossos danos ainda são pequenos. Mas não quer dizer que não custem caro e representem prejuízos de monta para gente que não tem como fazer frente às perdas sofridas.

Curiosamente, os seguros brasileiros têm garantia para este tipo de dano. Mas, mais curiosamente ainda, as seguradoras pagarão muito pouco do total dos prejuízos. A razão para isso é que há duas décadas não aconteciam movimentos mais expressivos nas ruas do país. O brasileiro havia perdido a noção do que movimentos como estes podem causar de danos.

Em verdade, desde o final do governo militar e, com ele, o fim das greves que chacoalharam o Brasil, não aconteceu nada mais assustador. Nem mesmo as passeatas exigindo o impeachment do presidente Collor foram uma ameaça à ordem e ao patrimônio nacional. É verdade, aconteceram cenas de pavor levadas a efeito pelo crime organizado, mas elas aconteceram mais nas periferias, o que diminuiu a visibilidade da real devastação.

A consequência deste longo período de paz interna foi o brasileiro se esquecer que as faíscas acontecem de supetão. Quando vimos, o bloco estava na rua e as cenas de vandalismo corriam paralelas aos protestos pacíficos da maioria dos manifestantes.

Por conta do momento, não tenho dúvida de que haverá uma forte demanda pelas coberturas de seguros para os riscos de tumultos. Também não tenho dúvida de que as seguradoras serão bastante criteriosas na sua contratação. Nada mais natural do que um quadro como este criar a vontade de ter a proteção do seguro e a contrapartida de não dar a cobertura. Afinal, cada um puxa a brasa para sua sardinha. Se, de um lado, é lógico o empresário buscar proteger seu patrimônio, de outro, é razoável as seguradoras não aceitarem riscos capazes de se transformarem em perdas quase certas.

Ninguém sabe o que vai acontecer, nem por quanto tempo os protestos continuarão tomando as ruas. A única certeza é que, por enquanto, o movimento não tem uma bandeira definida, nem um grito único. Também não tem lideranças confiáveis, capazes de acertar seja lá o que for, com quem quer que seja. Este é o pior cenário possível para uma companhia de seguros.

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