Protestos são reflexo de nova classe média, diz economista

Na avaliação de Angel Ubide, brasileiros estão insatisfeitos com a alta dos preços, a administração pública e a corrupção

Altamiro Silva Júnior, correspondente da Agência Estado,

20 Junho 2013 | 17h32

O Brasil tirou muitos cidadãos da pobreza nos últimos anos e foi bem-sucedido em criar uma nova classe média mais consciente e exigente. Os protestos que acontecem agora no País são um reflexo deste movimento, de brasileiros crescentemente insatisfeitos com a alta de preços, alocação dos recursos públicos e corrupção na política, avalia o economista Angel Ubide, do Peterson Institute for International Economics, um centro de estudos econômicos e políticos de Washington.

Ubide ressalta que o estopim dos protestos, a alta do preço das passagens de ônibus em algumas capitais, aconteceu num contexto de inflação em alta no Brasil. Os preços subiram sobretudo em segmentos mais diretamente ligados à população, como alimentação e serviços. Ao mesmo tempo, o governo teve dificuldades para controlar o aumento dos preços. "A percepção que a população teve é que a inflação está muito alta e ao mesmo tempo estavam subindo os preços do transporte público", disse, num áudio posto nesta quinta-feira na página do Peterson Institute em que avalia os protestos brasileiros.

Esta percepção de que a inflação está alta, afirma, deve-se muito ao fato de o Brasil ter experimentado preços galopantes nos anos 1980 e a hiperinflação no começo dos anos 1990. Os brasileiros ficaram mais sensíveis à alta de preços que outros colegas de países que não passaram pelo mesmo fenômeno. De acordo com ele, estabilizar a inflação nos anos 1990 e manter os preços controlados na década seguinte foi uma conquista do governo e também uma forma de trazer mais integrantes para a classe média.

Além da alta de preços, Ubide cita a crescente insatisfação dos brasileiros com a corrupção, sobretudo na política, e a "alocação ruim" dos recursos públicos, como fatores para explicar as causas das manifestações brasileiras. "A população incorporada à classe média cresceu muito nas últimas décadas e esta classe média começou a sentir que não estava recebendo do governo o que merecia", afirma. "Um senso de injustiça sobre como os recursos públicos são alocados e distribuídos no Brasil ajudou a causar estas manifestações", em meio à construção ou reforma dos caros estádios para a Copa do Mundo.

Conforme o Peterson Institute, a presidente Dilma Rousseff não terá uma tarefa fácil pela frente. "Além das manifestações e insatisfação dos cidadãos, a economia cresce pouco e até agora toda a carga para controlar a inflação foi posta no Banco Central (BC)", avalia. "Esse mix de políticas precisa mudar", diz.

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