Daniel Teixeira/Estadão
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'Provavelmente, voltaremos ao ritmo pré-crise só na segunda metade da década', diz Mario Mesquita

Para economista-chefe do Itaú, desemprego será subestimado neste ano, pois pessoas não conseguirão sair para procurar vagas por causa do distanciamento social

Entrevista com

Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 13h59

Apesar de o primeiro trimestre ter sentido pouco a crise econômica decorrente da pandemia, dado que a quarentena começou a se impor apenas nas últimas semanas de março, o período concentrou alguns dos piores dias de atividade econômica que o País deverá registrar no ano.

“Em termos de PIB, o pior momento será o segundo trimestre. Em termos de medida de atividade de alta frequência, o fundo do poço foi no fim de março e início de abril”, diz o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita.

Segundo ele, é preciso aguardar o resultado do segundo trimestre para se confirmar a magnitude da recessão de 2020 - o Itaú projeta -4,5%. Para se recuperar desse recuo histórico, serão necessários anos, acrescenta. “Para atingir o nível que chegaria sem a pandemia, mantendo a trajetória de crescimento que tínhamos, provavelmente só na segunda metade da década”, afirma Mesquita. A seguir, trechos da entrevista.

Com exceção da última quinzena de março, a economia funcionou normalmente no primeiro trimestre. Essa queda de 1,5% no período significa que a atividade já estava em desaceleração ou ela é relativa a esses últimos 15 dias de março mesmo?

É difícil dizer. A gente começou a calcular o indicador de atividade diário no início da quarentena. Os indicadores que tínhamos até março apontavam para crescimento. Um crescimento modesto, em torno de zero, um pouquinho positivo. A economia não estava acelerando muito, mas, de fato, teve um baque forte a partir da segunda quinzena de março. O resultado veio em linha com o esperado. Acho que terá muito mais debate sobre o segundo trimestre, que aí vai ser decisivo para o PIB do ano.

Não dá então para dizer que essa queda de 1,5% está em linha com a retração esperada para 2020? Precisamos esperar o segundo trimestre?

Com certeza. Para o segundo trimestre, a gente espera queda do PIB de 10,6% e, com isso, fechamos o ano com 4,5% de queda. Mas tem outras instituições que estão projetando queda de 15%. Aí, a queda no ano fica mais na faixa de 6% ou 7%. Claro que todos os trimestres contam, mas a informação do segundo trimestre vai ser muito importante, dado que a gente espera que, no terceiro trimestre, já estejamos saindo do distanciamento social.

Vemos alguns países da Europa, como Espanha, que entraram um pouco antes da quarentena que nós, começando a reabrir as atividades. A ausência de uma quarentena mais robusta fará com que a atividade patine por mais tempo?

Para se ter uma normalização da atividade, é preciso entrar na fase de reversão da pandemia. Na medida em que uma quarentena mais restritiva acelera esse processo, você poderia ter uma retomada mais rápida caso tivesse adotado uma quarentena mais severa. Por outro lado, o impacto sobre a atividade econômica nesse período de quarentena severa também teria sido mais intenso. É difícil dizer qual estratégia é melhor do ponto de vista da economia. O que todos concordam é que a prioridade deve ser saúde pública. Diferentes países foram com diferentes estratégias. Países onde as famílias têm uma poupança maior têm capacidade de impor um distanciamento social mais intenso.

Qual o impacto da crise política na economia?

Tudo que traz incerteza é ruim para a atividade econômica. Instabilidade política, na medida em que torna o futuro da agenda de reformas e da condução das políticas econômicas mais incerto, também atrapalha a retomada.

Os Estados Unidos e a Europa estão com pacotes fiscais para impulsionar a recuperação econômica. Esse caminho é viável para o Brasil?

A gente já vai ter um déficit primário neste ano superior a 10% do PIB. Acho que o espaço fiscal está sendo usado. Na verdade, a gente nem tinha espaço. Mas me parece que, no Brasil, o peso da retomada ainda recai sobre a política monetária. A política monetária e o crédito serão os instrumentos para a recuperação. Segundo nosso indicador de atividade diária, o fundo do poço foi na virada de março para abril. Desde aí, a atividade veio se recuperando com idas e vindas. O indicador era 100 antes da crise. No pior momento, caiu para 55 e, agora, tem oscilado entre 65 e 75. Então, já houve uma recuperação. Para ter uma recuperação mais consistente, precisamos superar o distanciamento social, que, por sua vez, requer que a gente vire a curva da pandemia.

O número de novos casos de covid-19 ainda é crescente. A atividade diária não pode, portanto, votar ao fundo do poço?

Essa é uma preocupação. Mas a gente acha que, em termos de PIB, o pior momento será o segundo trimestre. Em termos de medida de atividade de alta frequência, o fundo do poço foi no fim de março e início de abril.

O sr. comentou que a recuperação terá de ser dar via política monetária. Será possível manter a taxa de juros baixa com o aumento do déficit fiscal? Só a política monetária dará conta de impulsionar a economia?

Para sair da crise, a gente tem de superar o distanciamento social, que requer progresso no combate à pandemia. Isso é a primeira condição. A política monetária vai ajudar na medida em que ela der algum alívio financeiro para famílias, empresas e governo, para quem tem dívida. Ela estimula de certa forma o consumo, mas, para isso, é preciso que as pessoas possam consumir além do online. Na política fiscal, a gente já vai ter um aumento da dívida acima de 90% do PIB, o que é muito para um país como o Brasil. Se vamos conseguir manter a taxa de juros baixa, acho que precisamos, em algum momento, recolocar a política fiscal nos trilhos. Ninguém é contra expansão fiscal em 2020, dada a necessidade de combater os efeitos da pandemia, mas, se isso se estende muito para 2021, vamos ter dificuldade de recolocar a política fiscal nos trilhos e aí vai ficar mais difícil manter taxa de juros baixa.

Qual é o cenário para o mercado de trabalho?

Essa é uma das consequências mais complicadas dessa crise. A taxa de desemprego vai subestimar a real deterioração do mercado de trabalho, porque, para a pessoa contar como desempregada, ela tem de estar procurando emprego. No momento em que você tem regras de distanciamento social, muita gente não consegue procurar emprego. Esse contingente não vai aparecer na estatística de desemprego. O desemprego provavelmente vai continuar subindo até, talvez, a metade ou o fim do terceiro trimestre.

É possível prever algo de mais longo prazo? Quanto tempo o País deve levar para voltar ao nível pré-pandemia, que já não era muito bom?

Ao nível pré-covid, a expectativa é que volte em meados de 2022. Agora, para atingir o nível que chegaria sem a pandemia, mantendo a trajetória de crescimento que tínhamos, provavelmente só na segunda metade da década. Pode acontecer algum choque positivo, que a economia comece a crescer mais, as reformas comecem a ter mais efeito. Mas, olhando tendência, com certeza não antes de 2022, 2023, provavelmente depois disso.

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