Provisão de bancos contra calote cresce 44%

Para Armando Castelar, da FGV, rapidez da freada da economia surpreendeu empresas e levou ao endividamento

Alexa Salomão e Josette Goulart, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2016 | 22h30

A dificuldade das empresas tem efeito colateral forte sobre outro segmento, o sistema financeiro e se reflete nos balanços dos grandes bancos brasileiros. A provisão para perda com calotes tem crescido. No primeiro trimestre deste ano, ultrapassou R$ 150 bilhões nos grandes bancos. Em dois anos, em relação a esse período, cresceu 44%. Na avaliação da economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, “o quadro é grave”.

“As empresas estão muito alavancadas e com dívidas em atraso, enquanto o crédito bancário contraiu muito”, diz ela. “A pré-inadimplência e a inadimplência bancária estão somadas em patamares elevados e recordes. Isso em quadro de queda de faturamento real. O crédito para pessoa jurídica sumiu, o crédito livre em termos reais está em patamares recordes de baixa na série que começa em 2001.”

Zeina frisa que qualquer empresa com dificuldade financeira e sem crédito vai levar mais tempo para se recuperar, então, é natural que comecem o trabalho pela reestruturação financeira. “Primeiro, precisam equilibrar as finanças e recuperar o caixa, para então reavaliar decisões de produção e de investimento.” Todo esse trabalho já é complicado para as grandes empresas, mas Zeina lembra que é ainda mais complicado para os pequenos negócios. “O quadro é particularmente severo para médias e pequenas empresas onde a inadimplência é mais elevada e a oferta de crédito ainda mais restrita. Os bancos estão mantendo a rolagem de dívida para grandes empresas. Não é o caso das médias e pequenas.” Todos os segmentos, enfim, diz Zeina, precisam ser mais conservadores na hora de reorganizar as finanças e a estrutura operacional. “A recuperação da economia será mais lenta que o usual”, diz Zeina.

Novo patamar. Na avaliação de Armando Castelar, coordenador de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE/FGV), também é preciso ter em mente que a recuperação, quando vier, não vai devolver todos os setores ao mesmo patamar que ocupavam antes. “Setores ligados ao agronegócio e à mineração até podem retomar uma condição semelhante, mas vamos lembrar que o que fez o Brasil crescer mais rápido de 2004 a 2012 foram setores alavancados pelo crédito: comércio, serviços, construção, intermediação financeira e, olhando para frente, a volta não vai ser igual para eles. Terão de se reestruturar operacionalmente”, diz Castelar.

Olhando o País em retrospectiva, percebe-se que o alto endividamento de hoje foi fruto de uma perspectiva de expansão dos negócios que se frustrou. Castelar lembra que as empresas se endividaram para crescer, mas veio a crise e as receitas despencaram. “Houve surpresa com a magnitude e a rapidez da desaceleração. Na virada de 2014 para 2015, os analistas de mercado, por exemplo, ainda projetavam crescimento”, diz Castelar. “Agora estamos vivendo a maior crise da nossa história estatisticamente documentada em termos de contração de crescimento e isso surpreendeu as empresas”, diz Castelar.

O cenário foi agravado pela soma de dissabores: ao mesmo tempo vieram deterioração das contas públicas, retração dos investimentos, crise na Petrobrás e a queda no preço internacional das matérias – sem falar no ambiente político, que minou a confiança.

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