André Dusek/Estadão
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Um ano depois, Temer procura marca para a gestão

Com apoio no Congresso, mas baixa popularidade, Temer encomenda novos programas

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2017 | 05h00

Sustentado por uma aliança de 14 partidos, o presidente Michel Temer completa nesta sexta-feira um ano no governo, à procura de uma marca para sua gestão. Com apoio parlamentar no Congresso, mas anemia nas pesquisas que medem a popularidade, Temer enfrenta o desafio de atravessar as investigações da Lava Jato sem perder os principais nomes da equipe, além de diminuir o altíssimo desemprego e de reformar a Previdência.

Avalista de uma agenda polêmica, que tem como prioridade as mudanças na aposentadoria e na lei trabalhista, o presidente encomendou programas para dar uma cara mais social ao governo e tenta convencer a população de que está no rumo certo para debelar a crise econômica.

A estratégia inclui o PMDB, que pôs na rua uma série de pesquisas para detectar as aflições da sociedade e traçar o perfil ideal de um candidato ao Palácio do Planalto, em 2018. “Todos os partidos tradicionais terão grande perda nas próximas eleições”, disse ao Estado o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha.

Para ele, apesar das dificuldades, Temer conseguiu recuperar a confiança do mercado. “As ações da Bovespa, do Banco do Brasil e da Petrobrás valorizaram excepcionalmente. Quando assumimos, a inflação era de 10% e hoje está abaixo de 5%. Os juros caminham para um dígito e fizemos um grande acerto com o Congresso”, afirmou Padilha, dando o tom do pronunciamento a ser feito nesta sexta pelo presidente, em reunião ministerial, no Palácio do Planalto. A ideia é mostrar que os alicerces para a “travessia” foram construídos.

O problema é que, até agora, a aprovação de Temer também está em um dígito: ele conta com apenas 9% de “ótimo ou bom”, segundo os últimos levantamentos. Com a economia em recessão, o desemprego atingiu 14 milhões de trabalhadores, 3 milhões a mais do que no fim do governo Dilma.

Dono de um estilo formal e de um vocabulário rebuscado – que inclui adjetivos como “vergastado” e “caceteado”, além do verbo “acoelhar” --, o presidente tem ido a programas populares de rádio e TV, como os dos apresentadores Ratinho e Datena, na tentativa de melhorar sua imagem. A tática, porém, ainda não funcionou.

“Ele tem concordância verbal, mas não social. É um governo sem fisionomia, que não vai deixar marcas”, provocou o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ). “Nós pegamos a maior crise econômica da história. Quando o desemprego estiver em queda, por volta do terceiro trimestre, haverá o reconhecimento do acerto do governo. Aí a população sentirá a mudança”, rebateu Padilha.

Delações. O chefe da Casa Civil é um dos oito ministros de Temer que aparecem nas delações da Odebrecht. Ao lado do secretário-geral da Presidência, Moreira Franco – outro citado na Lava Jato –, Padilha comanda a articulação política do Planalto com o Congresso e todos os principais programas passam por seu crivo.

Sobre a mesa do ministro repousa o mapa da mina. São planilhas com nomes de deputados e senadores, em ordem alfabética. Ali está como cada um se posicionou nas votações de interesse do governo, quem são seus afilhados políticos e intenções de voto nas próximas batalhas. Punições, como corte de cargos, são reservadas aos “infiéis”.

A ordem no Planalto é não comentar as investigações da Lava Jato nem o seu potencial explosivo sobre a equipe. “O governo tem de governar, independentemente do que esteja acontecendo”, encerrou Padilha. Pela linha de corte estabelecida por Temer, ministros denunciados pelo Ministério Público serão afastados e, se viraram réus, demitidos. Tudo foi planejado levando em conta a tradicional morosidade da Justiça.

O apoio do Congresso a Temer, apesar de todos os percalços e fraturas na base aliada, não é sem motivo. Dos 28 ministros, 20 vieram do Legislativo. Mesmo assim, segundo dados do Basômetro -- ferramenta interativa do Estadão Dados –, a fidelidade dos deputados às orientações do Planalto vem caindo desde o fim do ano passado.

Em julho de 2016, dois meses após a posse de Temer, a média de adesão às propostas do Executivo na Câmara foi de 91%, o maior índice de governismo já registrado desde 2003. Em abril deste ano, no entanto, a taxa caiu para 79%. A queda é atribuída por deputados ao receio da aprovação de medidas impopulares, porque muitos candidatos à reeleição temem o “troco” em 2018.

As traições e os protestos não impediram o governo de emplacar no Congresso o teto de gastos públicos. Além disso, a reforma da Previdência já passou pela Comissão Especial da Câmara e a mexida na lei trabalhista foi aprovada no plenário da Casa.

Capitalismo selvagem. Para evitar surpresas, porém, o Planalto orientou os partidos aliados a enquadrarem suas bancadas, fechando questão a favor da reforma da Previdência. A lista deverá ser puxada pelo PMDB e pelo PSDB.

O líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), já avisou que é contra a medida. “É possível fazer a atualização de leis sem que haja imposição do capitalismo selvagem”, afirmou ele.

Ex-presidente do Senado, Renan tem dado dor de cabeça a Temer. No Planalto, dizem que o alagoano é um homem de “idas e vindas”. Na terça-feira, o presidente chamou a bancada do PMDB para uma conversa reservada. Estava preocupado com dissidências na votação da reforma trabalhista e queria combinar o jogo.

Renan apresentou ali um estudo sobre a experiência da Espanha, com o objetivo de provar que o emprego não aumenta, necessariamente, com a flexibilização de direitos dos trabalhadores. Foi contestado pelo líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR). “Romero, se eu tivesse um terço da sua convicção, as reformas não sofreriam resistência nenhuma”, respondeu Renan, irritado.

Para a líder do PT no Senado, Gleisi Hoffmann (PR), Temer não tem como entregar o que prometeu à população, após o impeachment de Dilma. “Deram o golpe e tiraram a Dilma dizendo que tudo melhoraria, como se a fada da confiança batesse a varinha de condão para as coisas mudarem. Só que o desemprego explodiu, ninguém está fazendo investimento, não há crédito e voltamos a ter miséria”, protestou Gleisi, que deve presidir o PT a partir de junho. “Estão tirando direitos dos mais pobres e a reforma da Previdência só interessa ao mercado. Caminhamos para uma convulsão social.”

Papagaio do Português. Em recente café no Planalto, o deputado Paulo Pereira da Silva (SP) contou a Temer uma piada que o deixou intrigado. “Eu disse que ele parecia o papagaio do português”, lembrou o parlamentar, conhecido como Paulinho da Força Sindical. Temer não entendeu o “chiste”.

Presidente do Solidariedade, o deputado descreveu, então, a “saga” da coruja pintada de verde, que foi vendida como papagaio a um português. Dias depois, o comerciante desonesto avistou o cliente e perguntou a ele se o papagaio estava falando. “Falar não fala, mas presta uma atenção”, respondeu o comprador.

No terceiro andar do Planalto, Temer continuou sem entender qual seria sua ligação com aquele desfecho. “Então, a gente vive dizendo que a reforma trabalhista e da Previdência não podem ser a bala de prata para salvar o País. Você ouve, presta uma atenção, mas não faz nada”, disse-lhe Paulinho.

Temer deu um sorriso amarelo. Com extrema dificuldade em expressar contrariedade e em dizer “não”, ele também recorre a uma estratégia conhecida pela equipe econômica para se desvencilhar de quem vai a seu gabinete em busca de recursos. “Vamos falar com o Meirelles. Eu sou fraco em números”, despista, numa referência ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. “Ele é o libanês mais britânico que eu conheço”, resume Padilha.

O julgamento do processo que pede a cassação da chapa Dilma-Temer será retomado no fim deste mês pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas ninguém no governo acredita que o presidente perderá o mandato. A preocupação, agora, é em definir quem será o candidato à sua sucessão, em 2018, já que o PMDB não construiu até hoje uma alternativa de poder.

“Antes de tudo, Temer precisa vencer a guerra da comunicação. Ele tem conseguido vitórias, mas elas estão sendo ineficientes na busca da credibilidade”, disse o deputado Silvio Torres (SP), secretário-geral do PSDB. Foi um aviso de que a renovação do casamento de papel passado do PMDB com os tucanos, no ano que vem, ainda necessita passar pelo divã.

 

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