Próximo governo terá de enfrentar unilateralismo americano

Lidar com o unilateralismo dos EstadosUnidos depois dos atentados de 11 de setembro será um dosgrandes desafios do próximo governo no Brasil, especialmente nocampo das relações diplomáticas, da geopolítica e da segurança.Nas relações econômicas e comerciais, o quadro é um pouco maismatizado. O multilateralismo, o bilateralismo e o regionalismosobrevivem, mas a única superpotência restante no mundo podejogar duro a qualquer momento, e em qualquer instância.Este poderia ser, em resumo, as principais conclusõesque emergiram do último dia do XIV Fórum Nacional, o ciclo dedebates organizado anualmente pelo ex-ministro do Planejamento,João Paulo dos Reis Velloso. Em um dia em que o tema centralforam as relações internacionais, a cúpula da diplomaciabrasileira compareceu ao fórum para passar uma mensagem parecida mas calibrada no tom aos papéis e cargos que cada um detém."Diminuiu o espaço para nuanças, com a polarização emtorno do eixo amigos/inimigos (dos Estados Unidos)", disse, porexemplo, o ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer. Eleestava se referindo especificamente às questões das relaçõespolíticas e da segurança internacional, no âmbito da guerraglobal contra o terrorismo declarada pelos Estados Unidos após11 de setembro.Na área das relações econômicas e comerciais, Lafercitou Dickens para dizer que vivemos "no melhor e pior dostempos". Por um lado, o sucesso do lançamento de uma novarodada de liberalização comercial em Doha, Catar, em novembro,foi uma vitória convincente do multilateralismo. Pelo outro, aonda de protecionismo no aço nos Estados Unidos e União Européia o novo comprometimento de recursos para subsidiar a agriculturaamericana e a relutância dos países ricos e do Fundo MonetárioInternacional (FMI) em ajudar a Argentina são sinaispreocupantes da lei do mais forte nas relações internacionais.O embaixador do Brasil nos Estados Unidos, RubensBarbosa, criticou a atual política externa americana de umaforma um pouco mais dura, observando que "o presidente FernandoHenrique questionou a prioridade ao combate ao terrorismo comoalgo que deixou o desenvolvimento em segundo o plano eseqüestrou a agenda (internacional)".Lembrando que o orçamento militar americano atingiu US$378 bilhões, maior do que o do conjunto dos 15 outros países quemais gastam com armamentos, Barbosa observou que atual ênfase noterrorismo e na segurança está levando os Estados Unidos a"oscilar entre o unilateralismo e o multilateralismoseletivo".O tom mais agudo ficou por conta de Luciano Martins,embaixador do Brasil em Havana, que frisou, porém, estar falandoem nível estritamente pessoal. Ele chegou a classificar a atualpolítica externa americana como um unilateralismo global"irresponsável", mas ressalvou que estava usando esta últimapalavra com o sentido de "unaccountable", ou "que não tem deprestar contas".ContrapontoOs exemplos citados de unilateralismoamericano foram a decisão de revogar o Tratado deNão-Proliferação Nuclear de 1972 (ABM) , e a recusa em endossaro Protocolo de Kyoto (para limitar emissões que causam oefeito-estufa) e a criação do Tribunal Penal Internacional.O contraponto ficou por conta de Gelson Fonseca,embaixador do Brasil na Organizações das Nações Unidas (ONU)."No momento em que a superpotência se senta na mesa, ela sedispõe a negociar´, disse Fonseca, relatando sua própriaexperiência na ONU.

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