Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

Publicidade brasileira tipo exportação

Produtoras vão aos EUA para 'vender' talento brasileiro e fechar novos negócios

NAYARA FRAGA, O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2015 | 02h03

No começo dos anos 2000, o Brasil se vendia para as agências publicitárias estrangeiras como o local perfeito para grandes produções de comerciais. Além de encontrar aqui um elenco variado (já que brasileiro pode facilmente se passar por outra nacionalidade), os preços eram baixos. De 2008 em diante, no entanto, o barato ficou caro. Os custos no País subiram e países como África do Sul passaram a ser mais atraentes. Para mudar esse cenário, o Brasil começou a se vender recentemente como um polo de talentos, com a ideia de mostrar que aqui há diretores tão bons quanto os de Hollywood.

Como parte desse esforço, o FilmBrazil - principal projeto do setor a levantar essa bandeira - levará aos EUA no início de março, pela primeira vez, um grupo de dez produtoras baseadas no Brasil para apresentar seus trabalhos a agências de publicidade. A ideia é gerar negócios.

Com a necessidade de fazer campanhas mais econômicas (que sirvam para ser veiculadas no mundo todo e não sejam taxadas pela Agência Nacional do Cinema - Ancine), muitas multinacionais já optam pelo território brasileiro. Mas, hoje, o número de gravações de comerciais encomendados por agências estrangeiras é bem menor que há oito anos. De 2005 para 2009, a quantidade de obras produzidas no Brasil caiu de 289 para 42, segundo dados da Ancine. Em 2013, último ano divulgado, esse volume subiu para 79.

Com a ida aos EUA, a ideia é gerar ao menos US$ 1,5 milhão em negócios. Não parece uma meta difícil para o FilmBrazil, iniciativa da Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais (Apro) e da Apex, agência do governo que promove exportações. Em 2013, após contato com um executivo americano trazido ao País pela FilmBrazil, só a agência Conspiração conseguiu R$ 4 milhões em novos negócios.

Segundo Marianna Souza, gerente executiva do FilmBrazil, o Brasil pode não ser barato, mas tem um pacote interessante a oferecer. "Se considerarem o porte de nossos diretores, somos muito competitivos." Carlos Manga Jr., Mateus de Paula Santos, Dulcidio Caldeira e Carlão Busato são alguns deles.

É de Busato, por exemplo, a direção de cena do comercial do Dove Man + Care, que foi compartilhado milhares de vezes na internet e avaliado pela crítica especializada como um dos melhores comerciais de xampu já produzidos. Outro nome é Ricardo Mehedff, que dirigiu Santa's Forgotten Letters (As cartas esquecidas do Papai Noel) para a Coca-Cola, premiado em Cannes em 2011, e o Speaking Exchange para a CNA, que ganhou dez Leões na última edição do festival.

Eles fazem parte da turma de produtoras e agências que buscam uma linguagem universal justamente para ganhar o mercado externo. "Formamos diretores de cena para que eles estejam aptos a concorrer com os diretores lá de fora", diz Alex Mehedff, sócio-presidente da Hungry Man.

A Conspiração é um exemplo de quem consegue competir lá fora. No pacote de R$ 4 milhões conquistado em 2013 está um comercial para a marca de inseticidas Raid que foi encomendado para ser veiculado apenas na Europa. "Este é um sinal de que podemos competir com as produtoras internacionais", diz a produtora executiva da Conspiração, Renata Chuquer.

Hoje, as produções feitas para agências internacionais representam 20% do faturamento da área de publicidade da Conspiração (que também tem outras divisões, como cinema e entretenimento). A expectativa é que essa participação salte para 50% em cinco anos.

Diferentes. No time das dez produtoras que apresentarão seus trabalhos nos EUA estão algumas que investem em novos formatos da publicidade, como "branded content" e projetos transmídia. A Losbragas, de Alice Braga, que produziu o documentário sobre a vida de Neymar fora dos campos no ano passado, é uma delas. Outro exemplo é a Santa Transmedia, que produziu o videoclipe interativo da Fernanda Takai - nele, o usuário podia selecionar objetos exibidos nas cenas para trocá-los por outros itens.

Em comum, essas produtoras têm o apetite de fazer negócios internacionais. Para Alex Mehedff, este é o momento de aproveitar a exposição que o Brasil está tendo, com Copa do Mundo e Olimpíada. "Enquanto produtor audiovisual de publicidade, o Brasil nunca teve oportunidade de mostrar de fato seu talento", diz.

Na rodada de apresentações que o FilmBrazil fará nos EUA, estarão agências como Droga5, JWT e BBDO. A ação é modesta, mas importante para colocar os talentos brasileiros no radar dos americanos, que constituem o maior mercado publicitário do mundo.

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