Patricia Cruz/Estadão
Patricia Cruz/Estadão

Público ou privado: quem vai financiar o setor?

Governo federal diz não ter verba suficiente; para líder da indústria, definir estratégia é mais importante que ampliar participação privada

Letícia Fucuchima, Caio Rinaldi e Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

20 Dezembro 2017 | 05h00

A recessão e os escândalos que atingiram as grandes empreiteiras do País, no âmbito da Operação Lava Jato, da Polícia Federal, tiveram reflexo negativo nas grandes obras de infraestrutura que estavam em andamento e nos projetos que ainda não tinham saído do papel.

Associado a isso, a torneira do crédito tanto dos bancos públicos, e aí com destaque para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), quanto dos privados foi fechada ou, no mínimo, aberta com pouca vazão.

Agora, quando a economia esboça uma retomada, ainda que em ritmo lento, o embate está por conta de quem vai financiar esses investimentos, essenciais nesse processo de recuperação. O governo federal não tem os recursos que o setor precisa e aposta numa capacidade maior de investimento do setor privado.

Por sua vez, o setor privado afirma que não pode resolver o problema sem aportes do setor público pela natureza dos investimentos em infraestrutura.

Esse debate foi um dos destaques do fórum realizado pelo Estado, no dia 13, com o tema “Infraestrutura: Investimentos e Geração de Empregos”, que teve a participação de autoridades, especialistas e executivos.

Em discurso durante o evento, o ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, afirmou que os recursos da União não são suficientes para atacar todo o déficit que o País tem na área de infraestrutura. Por isso, a estratégia do governo federal é estimular o investimento privado.

O presidente da Inter.B Consultoria, Cláudio Frischtak, presente no evento, criticou a falta de interação e conversa entre o setor público e o privado no planejamento dos investimentos. “Não temos a prática no País de chamar o setor privado para conversar de forma estruturada, sistemática”, afirmou.

Embora acredite que alguns investimentos em infraestrutura devam ser liderados pelo Estado, Frischtak reforçou que não há como evitar a participação de recursos privados no setor. “Vamos ter de nos adaptar, nos reinventar enquanto País, em tempos de vacas magérrimas do investimento estatal.”

Para Armando Castelar, coordenador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV), criar planos “megalomaníacos e irrealistas” não trará avanço para o setor.

Para Venilton Tadini, presidente executivo da Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), a questão fundamental no que diz respeito aos investimentos em infraestrutura é voltar a ter planejamento para que se defina uma articulação entre os projetos. “A gente tem uma crise de planejamento, tem uma crise fiscal do Estado, tem falta de definição estratégica e, infelizmente, por mais que a gente aumente a participação privada, não será ela a solução para a infraestrutura”, argumenta Tadini. “E isso não acontece porque o setor privado é mau e não gosta de infraestrutura. O setor privado vai, principalmente em uma economia capitalista, pela lógica do retorno, pela rentabilidade futura desses empreendimentos.”

Crédito. José Guilherme Souza, sócio da Vinci Partners e responsável pela área de infraestrutura, acredita que o governo terá um trabalho duro para atrair o capital privado e externo para investimentos em infraestrutura nova no Brasil. “Enxergo dois desafios competitivos, o primeiro, no mercado internacional, com o Brasil concorrendo com países como Colômbia, Peru e México pela atração de capital externo. O segundo desafio está associado à própria alocação interna do capital, uma vez que há vários projetos atrativos já prontos (brownfields) com um perfil de risco bem menor.” / COLABOROU SANDRA REGINA CARVALHO

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