Pujança nas contas externas
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Pujança nas contas externas

Projeção de superávit, de US$ 4 bilhões, nas Transações Correntes em 2022 deverá ser o primeiro desde 2007

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2022 | 20h28

Nem tudo na economia brasileira é sufoco, a sensação por que passamos todos com a inflação braba e com a produção se arrastando, mas apontando para uma recessão que já começou lá fora. Sensação de sufoco também com o desemprego (que agora afrouxou um pouco), apertando a renda do trabalhador, com as contas públicas no bagaço e, pior, com a estreiteza de perspectivas.

Mas tem coisa boa acontecendo – e não são apenas as excelentes promessas do agronegócio. Destacam-se, também, o setor de energia sustentável (eólica, solar e bioenergia), a mineração e a extração do petróleo.

No Relatório de Inflação divulgado nesta quinta-feira, 30, o Banco Central (BC)  aponta, em anexo, para contas externas exuberantes. 

A importância disso pode ser mais bem compreendida quando comparada com as brutais crises dos anos de 1970 e 1980, quando o Brasil quebrou em dólares e tudo afundou.

O Banco Central projeta para este ano superávit nas Transações Correntes. Essa conta compreende os fluxos de moeda estrangeira com mercadorias, serviços e rendas. Só não entram as transferências de capitais. O superávit, de US$ 4 bilhões, deverá ser o primeiro em 15 anos.

A balança comercial (exportações e importações) projeta saldo positivo de US$ 86 bilhões, 139% mais elevado do que o do ano passado, graças principalmente ao aumento do faturamento com exportações de commodities, em forte alta no mercado internacional. Esse resultado será obtido, apesar do recorde das importações, a ser gerado mais pela escalada dos preços do que pelo aumento do consumo interno.

No fluxo de Investimentos Diretos no País (IDP), a entrada de moeda estrangeira será um pouco maior do que em 2021, de US$ 55 bilhões em vez de US$ 46 bilhões, mas, ainda assim, mais baixa em relação aos níveis de entrada nos últimos anos, quase sempre acima dos US$ 70 bilhões. Esse afluxo mais modesto se explica tanto pela crise internacional, avessa às inversões de capitais em países em desenvolvimento, quanto pelas mazelas internas da economia do Brasil, especialmente nas contas públicas.

Essa foto carregada de pujança, conjugada com a existência de reservas externas de US$ 353 bilhões, explica boa parte da redução da cotação da moeda estrangeira no câmbio interno. O outro fator que responde pela maior oferta de dólares é a puxada dos juros internos, maior do que acontece nas economias avançadas. Tem a ver com os capitais que vêm para aproveitar o melhor rendimento das aplicações financeiras em reais no Brasil.

Mas, atenção, essa boa foto de agora é boa notícia, mas não garante bom filme nos próximos anos. A política econômica não está blindada contra trombadas, especialmente as provocadas pela área política. 

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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