Valeria Gonçalvez/Estadão
Sommelier da Wine.com.br, Cibele Siqueira fez 22 lives durante a quarentena. Valeria Gonçalvez/Estadão

Puxada por supermercado e web, venda de vinhos surpreende apesar de pandemia

Mudanças no hábito de consumo ajudaram as vendas de vinhos e espumantes a avançarem 12% entre janeiro e maio, a maior alta entre as bebidas alcoólicas; expansão foi liderada pelos produtos nacionais

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2020 | 05h00

Concentrado em casa, o brasileiro mudou alguns hábitos de consumo, resultando em um crescimento sem precedentes de algumas categorias. E, entre as bebidas alcoólicas, a mais beneficiada foi a de vinhos e espumantes, cujas vendas cresceram 12% entre janeiro e maio de 2020, na comparação com o mesmo período de 2019 – um desempenho que surpreendeu até mesmo especialistas na área e empresários do setor.

A notícia foi especialmente boa para o produto nacional, que viu uma expansão nas vendas de 15%, acima da média geral, enquanto os importados, impactados pela alta do dólar, tiveram um avanço mais discreto, de 5%. O crescimento veio na esteira de uma ampliação do consumo per capita: depois de uma década chegando próximo a 2 litros por ano, o País superou essa marca pela primeira vez em 2019.

Apesar de vinhos e espumantes serem um produto que o brasileiro aspira a consumir, a contração da renda dos últimos anos limita o valor que os consumidores podem gastar com o produto. Segundo Felipe Gualtaroça, presidente da Ideal Consulting, empresa que acompanha o mercado de vinhos no País, 80% das vendas estão concentradas em garrafas de até R$ 70 – o chamando segmento de “entrada”.

Ainda assim, o resultado positivo é surpreendente, uma vez que um dos principais canais de distribuição do vinho – os restaurantes – tiveram a atividade reduzida quase a zero. Gualtaroça explica que o crescimento se deu em dois canais: o varejo tradicional e o e-commerce. “Um dos fatores que colaboraram para o aumento do consumo foi a maior visibilidade que os supermercados deram ao vinho. Isso faz o consumidor pensar: talvez eu possa experimentar.”

Internet

Outro veio de aproximação entre o consumidor e o mundo do vinho são os clubes da internet. O maior deles, o Wine, fechou o mês de junho com 170 mil associados, um crescimento de 20% em 12 meses. Segundo o presidente do Wine, Marcelo D’Arienzo, a empresa espera manter esse ritmo de crescimento ao longo do ano, apesar das incertezas da economia. A companhia deve faturar R$ 430 milhões em 2020.

D’Arienzo admite que não foi capaz de prever o resultado de 2020. “No dia 15 de março, quando a gente tomou a decisão de adotar o home office, estávamos apreensivos. Havia uma corrida aos supermercados para itens de primeira necessidade. E a gente pensou: como é que vai ficar o vinho?”, lembra. No entanto, à medida que os consumidores começaram a se acomodar a uma vida confinada, a bebida logo foi subindo na lista de prioridades. 

À medida que a gravidade dos efeitos na pandemia foi ficando mais evidente, o setor passou a enfrentar outro problema: a disparada no preço dos importados. É uma questão que afeta diretamente os grandes e-commerces e clubes de vinho, que basicamente trabalham com rótulos estrangeiros. 

“Aí entra o relacionamento que a gente tem com as vinícolas. É necessário a compra de grandes volumes para o negócio ficar em pé”, diz o executivo. 

O porte da maior parte das vinícolas brasileiras é um fator que ainda impede a venda do produto nacional pelos grandes e-commerces. Segundo D’Arienzo, isso ocorre por duas razões: a produção relativamente pequena, que na maioria dos casos não passa das centenas de milhares de garrafas, e a tentativa de muitos dos empresários de posicionar o vinho local em patamares mais altos de preço.

O predomínio da produção mais artesanal é uma realidade da vinicultura em todo o mundo. No entanto, para negócios baseados em volume, como o da Wine, porte é fundamental. “Meu cliente não pode encontrar o produto mais barato em outro local – e isso exige que a vinícola esteja disposta a fazer promoção”, explica, lembrando que já trabalha com alguns parceiros nacionais, como Salton e Chandon.

Dificuldades

As vinícolas de pequeno e médio porte, que estão fora dos principais sites e das grandes redes de supermercados, demoraram para recuperar as vendas depois do início da pandemia. É o caso da gaúcha Pizzato, que produz cerca de 300 mil garrafas por ano e tem a maior parte de suas vendas em restaurantes e empórios gourmet.

Segundo Jane Pizzato, uma das proprietárias, a situação só começou a se acomodar depois de abril. Foi o suficiente para a empresa poder voltar a perseguir para 2020 a média anual de expansão de 10% na produção alcançada ao longo da última década.

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Vinho nacional ainda enfrenta desafio de reputação entre os consumidores

Enquanto o espumante já é considerado até melhor do que o internacional, outros vinhos ainda precisam se afirmar

Fernando Scheller*, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2020 | 05h00

O aumento do consumo é um bom sinal, mas o vinho nacional ainda enfrenta um desafio de reputação com o consumidor, de acordo com Felipe Gualtaroça, presidente da Ideal Consulting, que acompanha de perto o mercado do País. “Ainda há uma certa associação ao vinho de garrafão, mas aos poucos o preconceito está diminuindo”, diz o consultor. “Isso já não acontece mais com o espumante brasileiro, que já é considerado tão bom ou até melhor do que o internacional.”

Apesar do recente crescimento, ainda há uma carência de informação sobre vinhos – o consumo per capita de 2,13 litros por habitante ao ano ainda é bastante baixo diante de mercados mais maduros. Para se ter uma ideia, na maior parte da Europa o consumo está acima dos 20 litros anuais por pessoa, passando de 30 em várias nações, incluindo Itália e Suíça. Na América Latina, nações como o Uruguai e a Argentina estão cima dos 10 litros.

Portanto, a recém-adquirida curiosidade do brasileiro pelo vinho e pelo espumante precisa ser alimentada com conteúdo. A pandemia viu a explosão das lives sobre os mais diversos assuntos – e foi também um terreno fértil para os enólogos de plantão. 

Somente a sommelière da Wine, Cibele Siqueira fez 22 lives durante o período de isolamento. O argumento é que vinho pode ser bebido em qualquer ocasião – ela ministrou aulas de combinação da bebida até com paçoca, em homenagem às festas juninas.

Uma das características do vinho é a ligação com o entretenimento, de acordo com Marcelo D’Arienzo, presidente da Wine. Segundo ele, para incentivar a conversa sobre combinações e variedades, é necessário entrar em searas análogas, como a da gastronomia. “O vinho tem a vantagem de ser um produto que gera conversa: vou harmonizar com o quê? É um incentivo à pesquisa.”

Presença

As oportunidades de compra de vinho também tiveram de ser ampliadas. Além dos supermercados e dos e-commerces especializados, hoje o produto está mais evidência em grandes marketplaces, como Lojas Americanas e Magazine Luiza

A Wine vem tentando consolidar sua presença além da internet. A companhia já tem duas lojas – uma em Belo Horizonte e outra em Curitiba. Mesmo com a pandemia de covid-19, vai abrir mais oito até o fim do ano, em cidades como São Paulo, Porto Alegre, Goiânia, Salvador e Vitória.

Para tentar aumentar o interesse do brasileiro pelo tema, o Instituto Pró-Vinho está fazendo uma espécie de campanha institucional periódica do produto, para despertar o interesse da população. A ideia não é promover o produto nacional ou importado – que são trabalhados individualmente por associações de agricultores e de importadores –, mas o universo do vinho e do espumante. A próxima campanha do Pró-Vinho vai ser veiculada no fim de julho.

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