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Guy Perelmuter
O Futuro dos Negócios
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Quadrados mágicos

Quanto maior o número de elementos em uma rede social, maior seu valor potencial

*Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2018 | 03h00

O impulso social que indivíduos possuem para seguir ou imitar uma maioria, ou de copiar uma figura pública admirada, é alvo de estudos acadêmicos há muito tempo. O psicólogo polonês Solomon Asch (1907 – 1996) realizou pesquisas fundamentais sobre o tema, demonstrando como o comportamento de um grupo influencia de forma significativa o comportamento de um indivíduo. Uma de suas experiências mais famosas foi realizada em um elevador, como parte de um quadro para o programa de TV norte-americano “Candid Camera”. No episódio que foi ao ar em 1962, um grupo de três ou quatro atores entra em um elevador e se posiciona de costas para a porta - ou seja, olhando para a “parede” do elevador. Um passageiro entra no elevador, e após observar o comportamento de seus pares, acaba virando-se para a parede também - mesmo sem saber o motivo e desafiando seu bom senso. O experimento é repetido diversas vezes, sempre com o mesmo resultado.

Este comportamento de conformidade e de sucumbência ao pensamento do grupo também foi testado em outro experimento na década de 1950, no qual Asch mostrou que quando pressionados por seus pares, indivíduos não apenas possuem suas opiniões influenciadas, mas também passam a desconsiderar evidências básicas. O teste era simples: uma linha era apresentada para um grupo de seis pessoas (sendo que cinco eram atores). Ao lado desta linha, três outras linhas estavam desenhadas, e cada participante deveria responder qual das três linhas tinha o mesmo comprimento da linha original. O único participante real do experimento era o último ou penúltimo a responder, depois de ouvir as respostas de todos os outros. Na maior parte das vezes, ao perceber que todo grupo indicava uma resposta, mesmo que claramente errada, o participante preferia responder como o grupo, para evitar constrangimento ou chamar a atenção. Quando um dos atores dava a resposta certa, no entanto, o participante real tipicamente usava seu bom senso e deixava de se conformar com o que a maioria estava indicando.

Redes sociais tornaram-se presença constante na vida da grande maioria da população com acesso à Internet, e o fenômeno descrito acima passa a ganhar novas dimensões. O próprio sucesso ou o fracasso de uma nova rede ou comunidade está inequivocamente ligado ao número de nossos pares que estão (ou não) engajados nesta rede ou comunidade - e é possível mensurar o valor econômico que isso possui.

O engenheiro elétrico norte-americano e PhD em ciência da computação Robert Metcalfe formulou, há cerca de quarenta anos, uma lei que ficou conhecida como a Lei de Metcalfe. Nascido em 1946 e sendo um dos co-criadores da Ethernet (o protocolo padrão para redes de computadores ao redor do mundo), Metcalfe postulou que o efeito de uma rede é proporcional ao quadrado do número de elementos conectados à mesma - o que indicaria, em teoria, o valor intrínseco para investir nas mesmas. Isso porque, para cada novo elemento, as possibilidades de conexões aumentam em velocidade quadrática (mais precisamente, aumentam conforme a equação n*(n-1)/2, onde “n” é o número de elementos na rede). Por exemplo, com duas pessoas em uma rede, o número máximo de conexões entre as mesmas é apenas um. Com cinco pessoas, esse número sobre para dez. Com dez pessoas, para quarenta e cinco. Com vinte pessoas, cento e noventa.

Mas será que um aumento no número de conexões também é acompanhado por um aumento no número de negócios - ou seja, no valor econômico da rede - de forma quadrática, conforme sugere Metcalfe? Diversos pesquisadores argumentam que, como nem todos os novos entrantes em uma rede agregam o mesmo valor, então o efeito econômico desta rede não é proporcional ao quadrado do número de usuários, mas sim apenas ao logaritmo deste valor (resultando, portanto, em uma valorização muito menor). Em um trabalho publicado em 2015 no Journal of Computer Science and Technology, os pesquisadores Xing-Zhou Zhang, Jing-Jie Liu e Zhi-Wei Xu, da Academia Chinesa de Ciências, analisaram dados de duas das maiores redes sociais do mundo, que juntas possuem cerca de três bilhões de usuários: Tencent (China) e Facebook. Eles concluíram que, de fato o valor de uma rede cresce com o quadrado do número de usuários - corroborando a Lei de Metcalfe. Mas o tema segue em debate, com aspectos como o custo da rede e o valor de novos usuários sendo levados em consideração em busca do aprimoramento das técnicas de precificação.

Na próxima coluna iremos explorar o retorno financeiro sobre o investimento nas redes sociais, e como tanto o universo corporativo quanto os governos precisaram se adaptar a este novo modelo de negócios. Até lá.

 

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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