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The Economist: Qual é o próximo alvo da China?

Pressão regulatória de Pequim já atinge setores financeiro, de educação e tecnologia; multinacionais agora temem estar na mira

The Economist, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2021 | 05h00

Não é nenhuma novidade que as empresas estrangeiras sofrem extorsões do Partido Comunista da China. Nos tempos da revolução chinesa, as tropas vitoriosas do presidente Mao não confiscavam diretamente os bens de estrangeiros, como seus antecessores bolcheviques tinham feito na Rússia. Em vez disso, eles os desgastavam com impostos mais altos e multas tão grandes que as empresas acabavam entregando seus bens por nada. Em um caso famoso, revelado por Aron Shai, pesquisador israelense, em 1954, um britânico, dono de uma indústria, declarou estar entregando tudo o que tinha aos comunistas, desde “grandes quarteirões de armazéns até lápis e papel”. E, mesmo assim, ele reclamou que o camarada Ho, colega de profissão em outra indústria, continuou a pechinchar “como um comerciante antes da Guerra Civil Chinesa”.

Apesar de as multinacionais terem voltado para a China, a picuinha do governo continua englobando de tudo, desde transferência de tecnologia até a liberdade para investir. Houve grandes melhorias, mas a mesquinhez é um lembrete constante de que as empresas não devem ficar “muito confiantes”. As empresas ocidentais operam na China com tolerância, e um dia o país talvez tente substituí-las.

Como resultado, alguns talvez tenham sentido schadenfreude (expressão alemã que se refere à alegria pela desgraça alheia) com o fato de as empresas chinesas, e não as ocidentais, estarem sendo as principais vítimas do recente esforço do presidente Xi Jinping em projetar socialmente um novo tipo de economia. Apenas na semana passada, o governo tomou medidas para reduzir o tamanho entre os gigantes da tecnologia Alibaba e Tencent e, de acordo com o Financial Times, ordenou a divisão da Alipay, plataforma de pagamento móvel da empresa irmã do Alibaba, a Ant. Alguns chegaram a fazer comparações lisonjeiras entre os esforços de Xi para enfraquecer as “oligarquias” chinesas de tecnologia e o modo como os governos nos EUA e na Europa pressionam os gigantes da tecnologia ocidentais.

A mão pesada é assustadora em um grau incomum. Assim como a imprevisibilidade. Kenneth Jarrett, consultor experiente sobre a China que trabalha em Xangai para a empresa de consultoria Albright Stonebridge Group, diz que a pergunta na boca de todos é “quem será o próximo?”. As repressões ocorrem em um cenário de tensões crescentes entre a China e o Ocidente, o que deixa as multinacionais presas em uma espécie de limbo semilegal. Para muitos, o fascínio da China continua irresistível. Mas os perigos estão se igualando à promessa.

Além de bancos e gestores de ativos, alguns cujos investimentos na China foram severamente prejudicados nos últimos meses, vários tipos de empresas multinacionais estão em risco.

Um grupo inclui aqueles que ganham a maior parte de seu dinheiro na China, servindo a uma elite que gosta de ostentar luxos como suas bolsas de US$ 3.000 e carros esportivos. Outro, empresas que irritam seus clientes pelo que pode ser interpretado como arrogância ocidental; a Tesla, a montadora de veículos elétricos, é um exemplo. Já um terceiro grupo inclui fabricantes europeus e americanos de equipamentos industriais e dispositivos médicos avançados que a China acredita que ela mesma deveria produzir.

As ameaças vêm na forma de anúncios de políticas que parecem suaves. Uma delas, a “prosperidade comum”, é uma expressão abrangente que vai desde uma redução na desigualdade social até mais mimos para trabalhadores e clientes e cuidar de jovens estressados. Seu impacto mais óbvio é nas empresas chinesas de tecnologia, ensino e jogos, que perderam centenas de bilhões de dólares em valor de mercado. As multinacionais também sofreram com os efeitos colaterais. Em agosto, o valor de mercado de marcas de luxo europeias, como a Kering, fornecedora de bolsas Gucci, e a LVMH, holding francesa de artigos de luxo, despencou em US$ 75 bilhões depois que os investidores levaram a sério a agenda de prosperidade comum de Xi.

Ele não pretende forçar os consumidores chineses a voltar a usar as túnicas da época de Mao. Mas sua guerra contra a extravagância, principalmente entre os ricos, que chegam a gastar US$ 100 mil por ano em marcas estrangeiras, ameaça o fim mais lucrativo do mercado. Também põe em perigo marcas luxuosas que ganham na China mais do que em outros mercados, como, por exemplo, Milão. Flavio Cereda do Jefferies, um banco de investimentos, espera que o governo continue apoiando um crescente mercado de luxo da classe média, já que as compras ambiciosas refletem o sucesso econômico. Se a China estivesse prestes a bagunçar tudo isso, o impacto poderia ser gigante. Os consumidores do país são responsáveis por 45% dos gastos com luxos no mundo, segundo Cereda. “Sem a China, não há festa.”

“Dupla circulação” é outra expressão em voga com conotações preocupantes. É uma tentativa de promover a autossuficiência em recursos naturais e tecnologia, em parte como resposta aos temores de que a dependência de fornecedores ocidentais poderia tornar a China vulnerável a pressões geopolíticas e comerciais. Isso também representa ameaça às multinacionais ocidentais na China, com a redução das importações de tecnologia e ao criar uma mentalidade de “comprar produtos chineses”. Friedolin Strack, da Federação das Indústrias Alemãs (BDI), mencionou que estatais na China receberam diretrizes de compras que obrigam o fornecimento doméstico de dispositivos como máquinas de raio-x e equipamentos de radar.

Beco sem saída

Parece que tudo está se tornando um impasse. Por um lado, EUA, Europa e aliados estão em uma disputa geopolítica com a China, que acusam de violações aos direitos humanos em lugares como Xinjiang, lar da oprimida minoria uigur. O Ocidente quer restringir quais tecnologias suas empresas vendem na China e quais materiais, como algodão, compram do país. Por outro lado, a China afirma ter direito de retaliar contra as empresas que acha que estão se metendo em discussões geopolíticas.

Jörg Wuttke, presidente da Câmara de Comércio da União Europeia na China, diz que o tamanho do mercado faz valer a pena o desconforto. “O maior risco é não estar na China”, insiste. No entanto, qualquer pessoa com perspectiva de longo prazo talvez veja a autoridade pessoal indiscutível de Xi, sua aposta em reconfigurar a economia chinesa e o sombrio cenário geopolítico como razões suficientes para ponderar uma saída. Isso talvez nunca chegue a acontecer. Mas, como nos dias pós-revolução, às vezes tudo que é preciso são muitas extorsões para convencer até o mais resistente dos industriais a jogar a toalha. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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