Frederic J.Brown/AFP
Frederic J.Brown/AFP

Qual o fôlego da recuperação?

Em grande parte do mundo, a política econômica está se tornando mais restritiva no contexto da variante Delta da covid-19

THE ECONOMIST, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2021 | 05h00

A inflação, costuma-se dizer, é uma questão de muito dinheiro correndo atrás de poucos bens. Em muitos países isso tem sido o resumo de 2021. O ressurgimento da demanda entrou em choque com a falta de suprimentos, gerou uma inflação de 3% na zona do euro, de mais de 4% nos Estados Unidos e acima de 9% no Brasil.

Tais pressões sobre os preços, junto com os primeiros sinais de que as economias decolariam quando os lockdowns acabassem e mais pessoas fossem vacinadas, levaram os formuladores de políticas a definir o rumo da redução dos auxílios financeiros emergenciais.

Em muitos países, o apoio fiscal está sendo retirado e os bancos centrais estão restringindo suas políticas de estímulo ou considerando fazer isso. Mas a situação pode mudar rapidamente na pandemia. À medida que a variante Delta do novo coronavírus se espalha, o risco agora é de que a política econômica se normalize no exato momento em que o crescimento perde fôlego.

Os governos estão retirando o generoso auxílio financeiro que ofereceram no início da pandemia. Uma mudança em direção à austeridade não é provável; na verdade, na União Europeia, os gastos do fundo de recuperação de € 750 bilhões (US$ 886 bilhões) aprovados em 2020 estão apenas começando. No entanto, a política fiscal está se tornando muito menos acomodatícia.

Em todo o grupo de economias do G-20, os déficits fiscais, líquidos de pagamentos de juros e ajustados para as condições do ciclo econômico, devem encolher pela metade no próximo ano, em comparação com 2021.

Nos EUA, o auxílio-desemprego emergencial chegou ao fim em 6 de setembro. Uma estimativa da contribuição do governo para o crescimento do PIB calculada pelo Instituto Brookings, um centro de estudos, mostrou aumento impressionante de 7,8 pontos porcentuais na taxa de crescimento anual no primeiro trimestre de 2021, mas uma queda de 2,1 pontos porcentuais no terceiro. 

O caro programa de licença de trabalho do Reino Unido, por sua vez, deve terminar no fim deste mês. Embora os governos dos dois países planejem aumentar os gastos, eles pretendem financiá-los por meio da alta de impostos, neutralizando o aumento da demanda.

A política monetária está se encaminhando na mesma direção. Isso é mais evidente em alguns mercados emergentes, como Brasil e Rússia, onde os bancos centrais aumentaram as taxas de juros várias vezes este ano, conforme os custos de alimentos e de energia dispararam.

Países mais ricos estão se juntando ao grupo. Em 25 de agosto, a Coreia do Sul elevou as taxas de juros pela primeira vez desde 2018. A Noruega provavelmente vai seguir o exemplo. O banco central da Nova Zelândia esperava aumentar as taxas em agosto, mas atrasou a medida devido a um surto de covid-19 no país.

Apesar disso, os analistas esperam que a instituição aumente as taxas duas vezes antes do fim do ano.

Os aumentos dos juros em grandes e avançadas economias não devem ocorrer até o fim do próximo ano, na melhor das hipóteses. Mas o fluxo de compras de ativos está lentamente perdendo espaço.

O banco central da Austrália começou a reduzir gradualmente suas compras mensais de ativos depois de sua reunião de 7 de setembro; e o Banco da Inglaterra (BoE) em breve alcançará sua meta de aquisição de títulos de £ 875 bilhões (US$ 1,2 trilhão).

Na reunião de 9 de setembro, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou uma redução “modesta” no ritmo das compras de ativos por meio de seu programa emergencial de compra de títulos. Nos EUA, números surpreendentemente fracos de empregos em agosto talvez adiem um anúncio de redução gradual pelo Federal Reserve (Fed) no fim de setembro, mas apenas por alguns meses, no máximo.

Embora os bancos centrais muitas vezes insistam que um ritmo mais lento de compras de ativos não significa um aperto nas políticas, os mercados já estão pressionando os juros dos títulos para cima.

No início do ano, parecia que uma recuperação estava a caminho. Mas, agora, as preocupações com o crescimento estão se multiplicando conforme a variante Delta se espalha. O Sudeste Asiático passou por um período terrível nos últimos meses, e a paralisação das fábricas interrompeu o fluxo de componentes para outros países, reduzindo a atividade de forma mais ampla.

A economia americana também parece instável, dada uma onda de infecções de covid-19. As previsões de crescimento do PIB no terceiro trimestre caíram de uma taxa anual de mais de 6% para menos de 4%.

Com sorte e um alívio da propagação da variante Delta, a mudança em direção a medidas de aperto econômico trará queda suave na inflação e recuperação contínua da produção. Do contrário, a economia global terá de lidar com a variante Delta e a retirada das ajudas financeiras emergenciais ao mesmo tempo.

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ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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