John Thys/AFP - 19/7/2020
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Qual país triunfará no mundo pós-pandêmico? Dica: não serão os EUA nem a China

A grande vencedora deve ser a Alemanha, de Angela Merkel; sua resposta à crise destacou qualidades que o país já tinha: governo eficiente, endividamento baixo, reputação de excelência industrial e crescente capacidade de criar empresas domésticas de tecnologia

Ruchir Sharma, The New York Times

21 de julho de 2020 | 11h06

Imagine um país, uma grande potência econômica ocidental, onde o coronavírus chegou tarde, mas o governo, em vez de negar a situação e demorar na resposta, agiu o quanto antes. Providenciou os testes e o rastreamento de contatos para “achatar a curva” rapidamente e limitou a mortalidade a uma fração da observada em qualquer outro país industrializado ocidental comparável. A contenção do vírus possibilitou uma quarentena breve e localizada, o que ajudou a limitar o desemprego a apenas 6%. Em meio aos elogios internacionais, a líder do país, de uma previsibilidade monótona, observou um salto na sua aprovação popular, que passou de 40% a 70%.

Essa imagem invertida dos Estados Unidos do presidente Donald Trump é a Alemanha da chanceler Angela Merkel. O aumento da popularidade dela marginalizou politicamente a extrema direita e a extrema esquerda. Os sindicatos alemães trabalharam em estreita cooperação com o patronato para manter as fábricas abertas e as condições de trabalho relativamente seguras (a indústria de carne do país foi uma notável exceção). O governo de Merkel coordenou sua resposta com todos os Estados alemães para conter a pandemia e trabalhou com membros da União Europeia para criar um fundo de recuperação para os países mais atingidos pelo vírus.

As qualidades que a Alemanha vem demonstrando fazem dela a grande economia com maior probabilidade de prosperar no mundo pós-pandêmico.

O coronavírus está acelerando entre as economias nacionais um retorno ao interior de si mesmas que teve início com a crise financeira global de 2008. Os governos estão assumindo cada vez mais o controle de todos os aspectos da vida econômica, acentuando o endividamento público para manter o crescimento vivo e impondo novas barreiras ao comércio exterior e à imigração. Somente o lado virtual da economia mundial está prosperando, conforme as pessoas usam a internet para trabalhar, se distrair e fazer compras.

Quais países vão prosperar nessa paisagem econômica redefinida? Apesar do seu domínio tecnológico EUA e China estão se endividando demais, e seus governos são criticados pelos erros no combate à pandemia. O Vietnã parece promissor, uma potência exportadora com um governo que deteve o vírus antes que avançasse. A Rússia também apresenta uma economia intrigante, pois faz anos que o presidente Vladimir Putin trabalha para isolar seu país da pressão financeira internacional, jogada defensiva que deve se revelar cada vez mais valiosa em um mundo em rápida desglobalização.

Mas a grande vencedora deve ser a Alemanha. Sua resposta à pandemia destacou qualidades que o país já tinha: governo eficiente, endividamento baixo, uma reputação de excelência industrial que protege suas exportações mesmo em meio a uma queda no comércio global, e uma crescente capacidade de criar empresas domésticas de tecnologia em um mundo dominado pelas gigantes americanas e chinesas da internet.

Enquanto outros países temem que as recentes demissões se tornem permanentes, a maioria dos trabalhadores alemães foi mantida na folha de pagamento graças à rápida expansão do Kurzarbeit, sistema governamental criado há um século que paga às empresas para que mantenham os trabalhadores em jornadas mais curtas durante crises temporárias. 

A Alemanha conseguiu expandir o Kurzarbeit - e muitos outros serviços sociais - graças à sua famosa frugalidade. Durante os longos anos em que Merkel pressionou colegas da União Europeia a adotarem medidas de austeridade, eles caçoaram dela chamando-a de “dona de casa da Suábia", arquétipo do alemão sovina que guarda pão velho para fazer farinha. Ninguém está rindo dela agora.

Como a Alemanha entrou na pandemia com superávit orçamentário, foi possível apoiar economia durante a quarentena com pagamentos diretos às famílias, isenções fiscais, crédito empresarial e outras formas de auxílio, totalizando 55% do Produto Interno Bruto - o pacote de resgate mais generoso do mundo. 

O país também se viu em posição de oferecer estímulo de emergência a vizinhos que há muito se queixam dizendo que o rigor alemão prejudica o continente. A jogada é inteligente e generosa: esses países podem agora seguir investindo nas exportações alemães.

Mas a Alemanha não está deixando de lado o compromisso com o equilíbrio orçamentário. Como boa parte dos seus gastos vai partir da poupança, o endividamento público da Alemanha deve aumentar, mas chegará a apenas 82% do PIB - fardo muito mais leve do que aquele suportado pelos EUA e outros países altamente desenvolvidos, que estão gastando muito menos nos pacotes de auxílio.

Os críticos dirão que a Alemanha depende perigosamente de exportações industriais, destinadas principalmente à China, em um momento de desaceleração do comércio global. Ciente dessas vulnerabilidades, a Alemanha pressiona para modernizar suas principais exportadoras, as grandes empresas automobilísticas. 

Por meio de regulação e constrangimento público, o país pressiona suas montadoras a abandonarem o motor de combustão, altamente lucrativo, para adotarem os carros elétricos do futuro. Stuttgart, lar da Porsche e da Mercedes-Benz, proibiu a circulação de motores mais antigos a diesel dentro dos limites da cidade.

A Alemanha também está se dedicando a desenvolver seu potencial tecnológico, ainda que tardiamente. O país dedica à pesquisa e ao desenvolvimento um orçamento comparável ao dos EUA (aproximadamente 3% do PIB) e tem planos para a criação de um ecossistema de empreendedorismo comparável ao Vale do Silício, no qual firmas de investimento financiam startups promissoras. 

A indústria da tecnologia da Alemanha também tem suas surpresas frustrantes, como o súbito e recente colapso da empresa de tecnologia financeira Wirecard, levantando dúvidas quanto à vigilância da autoridade reguladora financeira alemã. Mas muitos dos primeiros sucessos dessa indústria, imitações de empresas americanas de compras online e entregas de comida, estão expandindo rapidamente.

O plano alemão de resgate econômico inclui US$ 56 bilhões para startups que digitalizem indústrias tradicionais, usando inteligência artificial e outras tecnologias novas. Ao lado da França, a Alemanha anunciou recentemente aquilo que o ministro da economia do país descreveu como “viagem à lua” digital, com o objetivo de criar uma nuvem europeia na internet comparável às existentes nos EUA e na China

A Alemanha é uma sociedade conservadora e mais velha, mas os críticos que imaginam um país lento nas mudanças já se viram enganados antes. No início da década de 2000, quando a Alemanha foi descartada como “o doente da Europa", o país adotou reformas para seu mercado de trabalho que restauraram sua condição de economia mais estável do continente. 

Conforme a pandemia acelera o ritmo da digitalização e da desglobalização, aumentando o endividamento no mundo, a Alemanha se destaca pela relativa ausência de vulnerabilidades diante desses desafios, e pelo preparo do seu governo em enfrentá-los. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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