Spencer Platt/Getty Images/AFP
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The Economist: Qual será o efeito da variante Ômicron para a economia mundial

Nova cepa do coronavírus pode prejudicar o crescimento global e aumentar a já elevada inflação

The Economist

06 de dezembro de 2021 | 10h00

Pouco mais de um ano após o primeiro sucesso de uma vacina contra a covid-19 em um ensaio clínico, uma sensação de pavor atingiu grande parte do mundo. A variante Ômicron do coronavírus, identificada publicamente pela primeira vez em 24 de novembro, poderá ser capaz de atravessar as defesas criadas pela vacinação ou infecção com covid-19. A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que a Ômicron representa um risco global “muito alto”. 

O chefe da Moderna, fabricante de vacinas, alertou que as vacinas existentes podem enfrentar a nova variante com muitas mutações. Diante da terrível perspectiva de ainda mais bloqueios, fronteiras fechadas e consumidores nervosos, investidores reagiram vendendo ações de companhias aéreas e cadeias de hotéis. O preço do petróleo caiu cerca de US$ 10 o barril, o tipo de queda frequentemente associada a uma iminente recessão. 

É muito cedo para dizer se as 35 mutações na proteína spike da Ômicron ajudam a torná-la mais infecciosa ou letal do que a dominante cepa Delta. À medida que os cientistas analisam os dados nas próximas semanas, o quadro epidemiológico ficará mais claro. Mas paira a ameaça de uma onda de doenças se espalhando de um país para outro cada vez mais sobre a economia mundial, amplificando três perigos existentes.

Prejuízos

O primeiro é que restrições mais rígidas no mundo rico prejudicarão o crescimento. Com a notícia da variante, países se esforçaram para bloquear viajantes da região sul da África, onde foi identificada pela primeira vez. Israel e Japão fecharam totalmente suas fronteiras. A Grã-Bretanha impôs novos requisitos de quarentena. A pandemia encerrou abruptamente uma descontrolada era de viagens globais. As restrições foram atenuadas este ano, mas a semana passada mostrou que os portões podem ser fechados muito mais rápido do que abertos.

A disseminação da Ômicron provavelmente também intensificará os limites à liberdade de movimento dentro do próprio país. A Europa estava restringindo muitas atividades domésticas antes mesmo da chegada da variante, a fim de combater o surto de infecções da variante Delta. A Itália mantém a maioria dos não vacinados fora dos restaurantes, Portugal exige que mesmo aqueles que foram vacinados apresentem um teste negativo para entrar em um bar e a Áustria está em lockdown total. A tão esperada recuperação das enormes indústrias de serviços do mundo rico, da hospitalidade às conferências, acaba de ser adiada.

Uma economia desequilibrada alimenta o segundo perigo, de que a variante pode aumentar a já elevada inflação. Esse risco parece maior nos Estados Unidos, onde o excessivo estímulo fiscal do presidente Joe Biden superaqueceu a economia e os preços ao consumidor aumentaram 6,2% em outubro em comparação com o ano anterior, uma alta não registrada em três décadas. Mas a inflação também está desconfortavelmente alta em outros lugares, em 5,3% globalmente, de acordo com dados da agência Bloomberg.

Poder-se-ia pensar que a Ômicron reduziria a inflação, deprimindo a atividade econômica. Na verdade, poderia fazer o oposto. Os preços estão subindo em parte porque os consumidores estão se empanturrando de mercadorias, entupindo as cadeias de suprimentos mundiais com tudo, de luzes de Natal a tênis. O custo do envio de um contêiner das fábricas da Ásia para os EUA continua extraordinariamente alto. Para que a inflação geral diminua, consumidores precisam redirecionar seus gastos para serviços como turismo e alimentação fora de casa. A Ômicron pode atrasar isso. A variante também pode desencadear mais bloqueios em importantes polos de manufatura, como Vietnã e Malásia, agravando falhas no fornecimento. E trabalhadores cautelosos podem adiar seu retorno aos postos de trabalho, pressionando os salários para cima.

Essa pode ser uma das razões pelas quais Jerome Powell, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), indicou em 30 de novembro que é a favor do arrocho monetário. Essa postura é certa, mas traz seus próprios perigos. Os efeitos colaterais podem prejudicar as economias emergentes, que tendem a sofrer com saídas de capital e queda nas taxas de câmbio sempre que há um aperto do Fed.

Juros em alta 

Economias emergentes têm maiores reservas e dependem menos da dívida em moeda estrangeira do que durante a tentativa frustrada do Fed de reduzir o estímulo durante o “taper tantrum” (retirada de estímulos monetários) de 2013. No entanto, esses países também precisam lidar com a Ômicron em casa. Brasil, México e Rússia já aumentaram as taxas de juros, o que ajuda a conter a inflação, mas pode reduzir o crescimento no momento em que outra onda de infecções se aproxima. A Turquia fez o oposto, cortando as taxas e, como resultado, enfrenta o colapso da moeda. Mais economias emergentes podem enfrentar uma escolha nada invejável.

O perigo final é o que tem a pior avaliação: uma desaceleração na China, a segunda maior economia do mundo. Não faz muito tempo, o país era um exemplo brilhante de resiliência econômica contra a pandemia. Mas hoje está lutando com uma crise de dívida em sua enorme indústria imobiliária, campanhas ideológicas contra empresas privadas e uma insustentável política de “covid zero” que mantém o país isolado e o submete a draconianos bloqueios locais sempre que surgem novos casos. Mesmo com o governo considerando estimular a economia, o crescimento caiu para cerca de 5%. Exceto o breve choque quando a pandemia começou, este é o menor índice em cerca de 30 anos.

Se a Ômicron for mais transmissível do que a anterior variante Delta, isso tornará a estratégia da China mais difícil. Como essa linhagem viaja com mais facilidade, a China terá de reduzir ainda mais as atividades a cada surto para erradicá-lo, prejudicando o crescimento e interrompendo as cadeias de abastecimento. A Ômicron também pode tornar a saída da China de sua política de covid zero ainda mais complicada, porque a onda de infecções que inevitavelmente resultará da propagação do vírus pode ser maior, prejudicando a economia e o sistema de saúde. Isso é especialmente verdadeiro por conta dos baixos níveis de imunidade induzida por infecções na China e às dúvidas sobre quão bem as vacinas funcionam.

Variantes irritantes 

Mas nem tudo são trevas. O mundo não assistirá a uma repetição da primavera de 2020, com quedas no PIB de cair o queixo. Pessoas, empresas e governos se adaptaram ao vírus, o que significa que a relação entre o PIB e as restrições de movimento e comportamento são um terço do que foi, de acordo com o Goldman Sachs. Alguns fabricantes de vacinas esperam que novos dados mostrem que as vacinas existentes ainda terão condições de prevenir os casos mais graves da doença. E, se necessário, empresas e governos poderão lançar novas vacinas e medicamentos em alguns meses, até 2022. 

Mesmo assim, a Ômicron - ou, no futuro, Pi, Rho ou Sigma - ameaça reduzir o crescimento e aumentar a inflação. O mundo acaba de receber um doloroso lembrete de que o caminho do vírus para se tornar uma doença endêmica não será fácil. / TRADUÇÃO DE ANNA MARIA DALLE LUCHE

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