Hannibal Hanschke/Reuters
Hannibal Hanschke/Reuters

Quando é hora de pôr um ponto final na conversa

Apesar das dificuldades, o mais provável é que os gregos ainda cheguem a um acordo com seus credores

O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2015 | 02h02

O mais recente capítulo da novela econômica vivida pela Grécia está chegando a um clímax. Desde a vitória dos esquerdistas radicais do Syriza, nas eleições de janeiro, os credores e o novo governo do país, liderado por Alexis Tsipras, vêm trocando ameaças. Este mês, um desfecho será inevitável.

Nada garante que o desenlace não seja um rompimento desastroso, obrigando a Grécia a deixar de pagar os empréstimos concedidos por organismos oficiais, a impor um controle de capitais, a congelar os depósitos e a sair da zona do euro. Mas, conforme vão se esgotando tempo e dinheiro, tudo indica que os esforços de lado a lado acabarão por produzir um acordo.

É Tsipras quem está mais pressionado. O pagamento feito em maio ao Fundo Monetário Internacional (FMI), no valor de € 750 milhões (US$ 825 milhões), só foi possível graças aos recursos sacados de uma conta especial que a Grécia mantém com o próprio FMI. Neste mês, a quantia a ser paga ao FMI corresponde ao dobro disso, começando por € 300 milhões que vencem na sexta-feira. Há dúvidas de que o pagamento será efetuado: em 24 de maio, um ministro disse que o governo não tem esse dinheiro. E ainda que a quantia para o pagamento dessa primeira parcela seja obtida, os gregos se verão em palpos de aranha para arrumar os € 300 milhões que precisam quitar dia 12 e os € 600 milhões que vencem quatro dias depois, dia 16. Isso sem falar nos outros € 300 milhões a serem pagos no dia 19. E, nos meses de julho e agosto, a situação piora de vez, com amortizações totalizando € 6,7 bilhões em títulos que estão de posse do Banco Central Europeu (BCE) - algo virtualmente impossível, se o país não receber mais ajuda de seus credores.

A fim de honrar seu compromisso com o FMI e pagar salários e aposentadorias, o governo grego precisou recorrer a uma série de manobras cada vez mais desesperadas. Autoridades locais receberam ordens de transferir suas reservas para o governo central. Outras entidades do setor público têm sido obrigadas a abrir mão de todo dinheiro que têm em caixa. Além disso, foram suspensos os pagamentos a empresas que prestam serviços ao Estado, e os exportadores esperam em vão pelo reembolso do imposto sobre valor agregado.

Medidas desse tipo só podem ser adotadas por algum tempo. Além do mais, são contraproducentes, uma vez que, ao prejudicar o setor privado, acabam causando queda na arrecadação. A economia grega já entrou novamente em recessão, abortando a recuperação observada nos primeiros nove meses de 2014. Um indicador de confiança econômica, que havia acompanhado de perto o PIB no ano passado, desabou de março para cá, sugerindo que a recessão deve se agravar.

A situação das instituições bancárias do país é quase tão insustentável quanto a do governo - e é irrelevante saber quem vai entregar os pontos primeiro. Os bancos gregos só têm conseguido sobreviver à fuga de capitais e à falta de liquidez tomando empréstimos com o BCE, viabilizados, sobretudo, por um volume gigantesco de "assistência de liquidez emergencial" - uma assistência que pode ser cortada se uma maioria de dois terços do conselho do BCE se opuser a ela.

Depois de meses sem nenhuma evolução nas conversas, a pressão agora obriga a Grécia a negociar de maneira mais efetiva. Foi positiva a decisão, tomada no fim de abril, de afastar da mesa de negociações Yanis Varoufakis, que, com seu estilo belicoso, acabou se indispondo com os demais ministros de Finanças da zona do euro. Em 24 de maio, Tsipras conquistou o apoio de seu partido para um programa de negociação que inclui "linhas vermelhas", as quais, insiste ele, não podem ser ultrapassadas.

A gravidade da situação da Grécia também mobiliza os credores, que se veem divididos entre dois imperativos: mostrar que as regras do clube se aplicam a todos os membros e tentar evitar uma Grexit. Ainda que as consequências derivadas de uma eventual saída da Grécia da zona do euro hoje pareçam menos graves do que em 2012, é incalculável o impacto de um evento dessas proporções. Mesmo que no curto prazo o trauma possa ser remediado, a longo prazo a união monetária ficaria fragilizada. A zona do euro pareceria, a partir de então, apenas mais um sistema transitório entre taxas de câmbio fixas.

Ainda há questões delicadas a serem negociadas, mas os contornos de um acordo começam a ficar mais definidos. A situação periclitante da economia significa que a ideia inicial de exigir dos gregos um superávit fiscal primário de 3% do PIB este ano não é mais viável.

De sua parte, os negociadores gregos já concordaram com a necessidade de simplificar o sistema de imposto sobre valor agregado do país - algo que pode gerar um incremento de receita equivalente a 1% do PIB. Isso deve ajudar a contrabalançar os efeitos negativos da desaceleração econômica. O governo de Tsipras abrandou a retórica antiprivatização e está tomando providências para se desfazer de sua participação no maior porto do país. Os gregos terão de aceitar mais privatizações, sobretudo porque são fonte de receitas. Até no que diz respeito às "linhas vermelhas" traçadas Tsipras - que indicam serem inegociáveis novas reduções nos valores pagos aos aposentados e funcionários públicos - são passíveis de alguma composição. Os credores não exigem cortes nos salários do funcionalismo público, e os gastos com a previdência podem ser reduzidos de forma indireta, como, por exemplo, aumentando a idade mínima para a aposentadoria.

Com ambos os lados tendo tanto a perder, e tão pouco a ganhar (além de uma dolorosa afirmação de princípios), um acordo ainda parece ser o desfecho mais provável, apesar da natureza errática das negociações.

O acordo não resultará na liberação imediata de dinheiro novo, uma vez que os desembolsos exigem aprovação parlamentar de países credores, como a Alemanha. Mas possibilitaria que o BCE ajudasse os gregos a contornar a crise de liquidez, aumentando o montante total em títulos de curto prazo que eles podem emitir. Isso, no entanto, serviria apenas para pavimentar o caminho até o próximo capítulo da novela: negociar um novo acordo abrangente de ajuda financeira.

2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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