Quando investir é a melhor defesa

Mesmo com previsões desanimadoras para a economia em 2015, quase metade das empresas do varejo pretende manter investimentos em expansão para conter o avanço da concorrência e se preparar para a retomada da atividade econômica em 2016

MÁRCIA DE CHIARA, MÔNICA SCARAMUZZO, FERNANDO SCHELLER, O Estado de S.Paulo

29 Dezembro 2014 | 02h01

O ano que começa nesta semana vem cercado de perspectivas nada animadoras para o desempenho da economia brasileira. Mas, ao contrário do esperado, o varejo promete não pisar no freio em 2015. Para evitar que a concorrência ganhe espaço, os lojistas pretendem aumentar os investimentos, ainda que de forma tímida.

Pesquisa feita pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP), a pedido do Estado, mostra que 48% da companhias querem ampliar em 16%, em média, os investimentos em 2015, enquanto 21% pretendem diminuir 14%, em média. O saldo entre os que planejam avançar e recuar é de um acréscimo de 4,7% no volume total de investimentos, que abrangem gastos com estoques, abertura de lojas, ampliação da área de vendas e contratações de trabalhadores.

Apesar de positivo, esse resultado é bem menor do que há cinco anos, última vez que a entidade realizou essa pesquisa para o Estado. Na virada de 2009 para 2010, quando a economia já tinha depurado os efeitos da crise financeira global, a mesma pesquisa apontou que 97% das varejistas planejavam investir, e a expansão dos desembolsos seria de 7,5%. "O fato de quase a metade querer investir no ano que vem foi uma surpresa positiva", afirma o assessor econômico da Fecomércio-SP, Fábio Pina, responsável pela enquete que consultou 100 varejistas da capital paulista de todos os portes, na primeira semana deste mês.

O volume de vendas do varejo restrito, que não inclui materiais de construção e veículos, deve crescer 3,1% em 2014, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC). "Será o pior resultado desde 2003, quando houve queda de 3,7% no volume de vendas em relação ao ano anterior", diz o economista da CNC, Fabio Bentes. Entre 2004 e 2012, as vendas do varejo cresceram na faixa de 8% ao ano, período que ficou conhecido como "a década de ouro" do setor. Em 2013, a expansão do varejo desacelerou para 4,3%. Para 2015, a CNC projeta uma ligeira aceleração de 3,6%.

Confiança. Para Pina, a expansão do investimento após um ano de vendas fracas é muito mais um voto de confiança dos empresários na nova gestão da economia, levando em conta que 2015 deve ser um ano de ajuste. "É um investimento defensivo para não perder fatias de mercado."

Os resultados da pesquisa feita em São Paulo parecem se aplicar ao varejo nacional. Em entrevista ao Estado, quatro grandes redes de diferentes segmentos do setor - Raia Drogasil, Riachuelo, Arezzo e Kalunga - disseram que vão manter o movimento de expansão no ano que vem para se tornarem mais robustas quando o País voltar a crescer (leia matéria na B3).

É o caso da Kalunga. Líder em materiais de escritório, a rede não quer abrir espaço para as concorrentes estrangeiras, como Staples e Office Depot, afirmou Roberto Garcia, sócio da empresa.

Ter disposição para expandir mesmo quando a conjuntura não é favorável é uma saída estratégica, explica o presidente do Conselho do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar), Claudio Felisoni de Angelo.

A rede Raia Drogasil, líder no setor de farmácias, quer avançar onde não está consolidada, sobretudo no Nordeste, onde o aumento de renda possibilitou maior acesso à saúde. Na contramão da maioria das varejistas, esse setor cresce acima de dois dígitos há pelo menos cinco anos.

"A renda é muito concentrada no Brasil e qualquer movimento de redistribuição tem impacto enorme no consumo", diz Felisoni, que vê um cenário mais positivo no médio prazo. Outro fator de expansão é a queda nos preços dos ativos, que torna o investimento mais barato. "Preços em baixa criam oportunidade de investimento."

Para 2015, mais da metade (55%) dos varejistas pretende ampliar a área de vendas, mas quase a totalidade (98%) não vai abrir lojas. "É um investimento pé no chão, focado em vender mais com menos", diz Pina. De acordo com a pesquisa, 24% dos entrevistados querem admitir trabalhadores em 2015 e 61% vão manter os quadros. "Esse resultado indica que os empresários querem que os funcionários 'rendam' mais, uma vez que os encargos trabalhistas ficam mais pesados."

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