Merrick Morton/Twentieth Century Fox
Merrick Morton/Twentieth Century Fox

Quando marcas são estrelas de cinema

Nem sempre o retrato de empresas é 100% positivo, como mostram os lançamentos ‘Ford vs. Ferrari’ e ‘Dark Waters

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2019 | 05h00

Não é sempre que uma marca estampa o título de um filme exibido em grande circuito no cinema – Ford vs. Ferrari, uma produção de quase US$ 100 milhões da Fox (agora sob o comando da Disney), é o tipo de injeção de ânimo no marketing que as empresas não costumam ganhar com frequência: ser tema de um produto cultural. Mas nem sempre ser o centro das atenções em um filme é algo positivo, como é o caso de Dark Waters, outra produção que tenta concorrer ao Oscar do ano que vem e que narra um caso real envolvendo a gigante Dupont.

Dark Waters, um lançamento da Focus (braço “independente” da Universal), chegou aos cinemas americanos há duas semanas. Dirigido por Todd Haynes (Longe do Paraíso), o roteiro é baseado em um artigo publicado pela revista do The New York Times em 2016: O advogado que se tornou o pior pesadelo da Dupont. As águas escuras do título se referem à suspeita de contaminação decorrente de atividades da companhia. A produção ainda não tem data para estrear no Brasil.

Ford vs. Ferrari, embora pareça uma grande celebração da busca de uma companhia americana e sua obstinação em superar a Ferrari nas pistas, não tem um tom “chapa branca”. O título, na realidade, é um tanto enganoso. Na verdade, os personagens interpretados por Matt Damon e Christian Bale são os “outsiders” que brigam menos com a Ferrari e mais com os executivos da Ford, que querem manter o “status quo”. Um dos executivos é interpretado por Josh Lucas com ares de vilão.

Além da Ford e da Ferrari, o filme dirigido por James Mangold (Logan, Johnny & June) passa por outros titãs da indústria automotiva – como a Fiat. Embora exista uma disputa entre visionários e cabeças corporativas, há uma descrição positiva de Henry Ford II, que tentava conter a queda nas vendas que ameaçava o legado da companhia. Interpretado por Tracy Letts, Ford II acaba se tornando um aliado – temporário – dos homens que tentam vencer a corrida em seu nome.

Para o especialista em marcas Jaime Troiano, é raro que Hollywood colida diretamente com os poderes das grandes corporações – como se sabe, os patrocínios de marcas muitas vezes podem ajudar a cobrir os gastos com a produção de um filme. Empresas de tecnologia, aparelhos eletrônicos, artigos de moda e bebidas pagam para ser associadas a conteúdos de entretenimento. “É raro que Hollywood desafie o mundo corporativo”, diz o presidente da Troiano Branding. “Mas é algo bem-vindo.”

É uma prática rara, mas não inédita. O McDonald’s, por exemplo, foi alvo do documentário Super Size Me (2004), em que Morgan Spurlock serve de “cobaia” para mostrar o que uma dieta composta apenas de itens da rede de fast-food pode fazer com o corpo de uma pessoa. Fast Food Nation (2006), de Richard Linklater, abriu o leque e se dedicou a criticar a indústria de comida rápida. Já Fome de Poder (2016) mostrava Michael Keaton como Roy Kroc, executivo responsável pela expansão do McDonald’s e como ele enganou os fundadores da marca, Dick and Mac McDonald.

No caso de Dark Waters, trata-se de uma produção da Participant, que tem tradição em se dedicar a causas sociais.

Além do novo filme, estrelado por atores de peso como Mark Ruffalo e Anne Hathaway, a produtora foi também responsável por filmes como Spotlight – Segredos Revelados (vencedor do Oscar de melhor filme, que narra uma investigação jornalística sobre pedofilia na Igreja) e Syriana (que mostra o mundo de corrupção e violência por trás da indústria do petróleo).

No Brasil

Ao contrário do que ocorre nos EUA, a produção de filmes e séries sobre casos reais no Brasil muitas vezes esbarra no temor de processos das empresas ou personagens retratados. Pela lei americana, vale principalmente a liberdade de expressão. Posteriormente, se se sentirem ofendidos, os enfocados podem entrar na Justiça. Isso evita, por exemplo, o efeito de O Mecanismo, série sobre a Operação Lava Jato que optou por mudar os nomes dos personagens – apesar de as referências da vida real serem óbvias.

Essa diferença de tratamento entre EUA e Brasil fica clara para quem assistiu ao filme A Lavanderia, de Steven Sordebergh, com Meryl Streep. Ao contrário do que ocorre em O Mecanismo, em que a Odebrecht vira Miller & Bretch, no filme americano (também lançado na Netflix) a empreiteira é citada diretamente.

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