Quando o artista se torna uma empresa

Mercado passa por profissionalização da gestão de carreiras artísticas, de olho no crescimento do consumo de entretenimento no País

Mariana Congo,

28 de junho de 2012 | 11h58

 

SÃO PAULO - Um executivo que passou por empresas como Xerox e Pitney Bowes Semco, ambas da área de tecnologia corporativa, pode contribuir para a gestão da carreira de uma artista? A família da cantora Claudia Leitte aposta que sim.

Nesta semana, o grupo Ciel, que reúne as empresas de Claudia Leitte, anunciou a contratação do ex-presidente da multinacional Pitney Bowes Semco no Brasil, Fábio Neves, para o cargo de diretor executivo dos negócios da artista.

A gestão do Ciel até então era completamente familiar e sem hierarquia definida. As decisões passavam pelo pai, mãe, irmã e marido de Claudia, mas agora todos estão subordinados ao executivo.

"Meu histórico de 16 anos em multinacionais talvez não tenha uma ligação tão grande com o mercado de entretenimento. Mas minha experiência é de gerir negócios, e é isso que a família procurava agora. É uma empresa como outra qualquer", pontua Fábio Neves. Seu objetivo é pensar a carreira da artista no longo prazo, em frentes como licenciamento de marca e novos formatos de shows.

Mercado

A contratação de Neves é exemplo de como o mercado do entretenimento passa por um processo de modernização no Brasil. Em busca de profissionalismo, a figura do familiar empresário aos poucos é substituída pelo gestor especialista, capaz de cuidar da imagem do artista de forma rentável e planejada.

"Com a família a relação é delicada, pela própria intimidade. Existe a confiança, mas não necessariamente a experiência em gestão", diz Ike Cruz, empresário artístico de atores e modelos, que agencia figuras como Rodrigo Santoro e Juliana Paes. Ike, assim como outros empresários do ramo, fez carreira no mercado artístico. Formado em publicidade e jornalismo, foi modelo e atua como empresário desde 1994.

Segundo ele, a presença de um gestor com experiência unicamente em negócios depende da própria necessidade e dos planos do artista. "A carreira de figuras como Ivete Sangalo, Luciano Huck, Xuxa, Gisele Bündchen, além da própria Claudia Leitte, expandiu a ponto de eles virarem empresas", comenta Ike.

Oportunidades

O mercado de entretenimento está de olho no aumento do poder aquisitivo dos brasileiros, com a classe C, que cresceu até se tornar a maior parte da pirâmide socioeconômica do País. Além disso, a Copa do Mundo e a Olimpíada no Brasil podem trazer oportunidades, com o maior fluxo de turistas.

"Esse movimento do mercado artístico buscar profissionalismo está alinhado com o momento de crescimento que o Brasil vive", opina Fábio Neves.

Como exemplo, o segmento de entretenimento e esporte viu surgir nos últimos dois anos empresas como a Nine, de Ronaldo Fenômeno e a XYZ, da fusão de grandes grupos do segmento.

Na música, a empresa Caco de Telha, da cantora Ivete Sangalo, também foi além da administração da carreira da artista. Licenciamento de marca e produção de eventos, como o show da cantora Beyoncé e a apresentação do Cirque Du Soleil em Salvador, entraram no portfólio do grupo.

Na avaliação de Charles Di Pinto, coordenador da especialização em Music Business da Unisinos, gerir carreiras musicais em um contexto industrial ainda é um desafio do setor. Mas, segundo ele, o mercado precisa entender as mudanças da indústria fonográfica. "O executivo da música não é mais o agente primário na propulsão do produto musical que chega ao mercado. Hoje, são os consumidores que adotam, promovem a música e garantem seu sucesso econômico", diz.

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