Capítulo 14

Quando o liberalismo tromba com o intervencionismo

Episódio envolvendo Bolsonaro, uma possível greve dos caminhoneiros e o reajuste do preço do diesel na Petrobrás mostra que agenda liberal de Paulo Guedes ainda vai encontrar muitos percalços pelo caminho

Alexandre Calais, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2019 | 15h53

Caro leitor,

O ministro da Economia, Paulo Guedes, e sua equipe já demonstraram uma adesão irrestrita à agenda liberal, disso não há dúvida. Por essa cartilha, o Estado tem uma missão muito bem definida: cuidar da educação, da saúde, da segurança. O resto, o mercado que trate de se regular. Por isso, há uma obsessão entre os membros do time em falar, sempre que possível, em privatizações e na menor interferência possível do Estado na economia.

Na prática, claro, a realidade não é tão simples. E o episódio envolvendo a Petrobrás, na semana passada, ilustra isso bem. Para quem já se esqueceu, a estatal anunciou, na quinta-feira (11), um reajuste de 5,7% no preço do óleo diesel. O presidente Jair Bolsonaro não gostou . Como pode uma alta nesse nível no preço, quando a inflação não chega a 4%?, perguntou. E ainda mais num momento em que crescem as preocupações sobre uma possível nova greve dos caminhoneiros...

O presidente da Petrobrás, Roberto Castello Branco, liberal egresso da Universidade de Chicago, a meca desse pensamento no mundo, resolveu segurar o preço. Uma operação que fez a empresa perder mais de R$ 30 bilhões em valor de mercado  em um só dia.

Reunião pra cá, reunião pra lá, as coisas mais ou menos se ajeitaram. Na terça-feira (16), houve uma reunião com Bolsonaro para que lhe fosse explicado o porquê de o preço do diesel ter subido assim. Na quarta-feira (17), a Petrobrás reajustou o diesel em 4,8% . E as ações da empresa até se recuperaram um pouco do tombo sofrido na semana anterior.

Mas ficou o sinal. Há ainda uma visão muito intervencionista em várias partes do governo, que acham que  o Estado não pode sair tanto assim da economia. Um troca de mensagens no grupo de WhatsApp da equipe econômica , flagrada pelo nosso fotógrafo Dida Sampaio, mostra isso: o plano de Guedes para reduzir o preço do gás passa pela privatização do setor. Mas a área de gás dentro da estatal resiste.

Na campanha, o próprio Bolsonaro já havia dito ter restrições à venda de algumas empresas, como o Banco do Brasil, a Caixa, a própria Petrobrás. Como lembrou nossa colunista Vera Magalhães, o presidente “tem uma vida dedicada à defesa de privilégios aos militares, manutenção de empresas estatais e subsídios e contra privatizações, reformas e cortes de gastos”. Ou seja, uma conversão ao liberalismo de Guedes não poderia mesmo ser tão simples assim.

Tudo para evitar mais uma greve dos caminhoneiros

Mas, no caso da Petrobrás e do diesel, o pano de fundo que embaça ainda mais essa história é a ameaça constante de greve dos caminhoneiros no horizonte. Todos sabem o que aconteceu no ano passado quando eles resolveram parar. O País entrou em colapso. Uma nova greve é tudo que se quer evitar, nesse momento em que a economia atravessa um período de extrema fragilidade, com as previsões para o crescimento do PIB recuando semana após semana, com analistas já calculando que a economia voltou a ficar no vermelho no primeiro trimestre, como mostramos aqui no jornal.

Para isso, não há uma solução fácil, se é que há realmente alguma. O governo está tentando. Montou um pacote de medidas  para agradar aos caminhoneiros, que inclui crédito do BNDES, recuperação de estradas, pontos de parada nas rodovias. Aparentemente, isso não foi o suficiente. Nos grupos de WhatsApp, os motoristas disseram que o plano era insuficiente .

E continuam a ameaçar uma nova paralisação. O que eles querem é simples: diesel mais barato, fretes mais caros. Mas, com o preço do petróleo subindo no mercado internacional, e com a economia brasileira em ponto morto, com muito mais caminhoneiros do que carga para transportar, essa conta simplesmente não fecha.

É o diagnóstico de nosso colunista Celso Ming . “A causa maior do descontentamento é a de que há caminhões demais para cargas de menos a transportar, desequilíbrio que não tem correção fácil. Não é só a alta do diesel que atormenta os caminhoneiros, de bolso cada vez mais ralo. É a economia que empacou e é o desemprego que hoje atinge 13 milhões de trabalhadores no País”, escreveu.

Nossa também colunista Zeina Latif  reforça que o “receio das ameaças de greve não deveria ser guia para a tomada de decisão dos governantes”. Para a economista,  se o governo quer mesmo subsidiar os caminhoneiros, “que o faça direcionando recursos no orçamento a ser aprovado pelo Congresso, e não impondo perdas à Petrobrás”.

O episódio envolvendo a Petrobrás não deverá ser o único embate entre as cabeças liberais e as estatizantes dentro do governo. Outros certamente virão. É do jogo. Mas seria bom que o governo começasse de vez a caminhar na mesma direção.

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Alexandre Calais

Alexandre Calais

Jornalista

Está no Estadão desde 2004

Bolsonaro e a Economia

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