Quando o preço alto ajuda

Os preços dos produtos agrícolas vão continuar em alta nos próximos dez anos, mas, apesar da seca americana, não deve haver falta de alimentos. É o que afirmou na segunda-feira o diretor da FAO, José Graziano da Silva, em entrevista ao jornal francês Le Monde. A organização parece reconhecer, afinal, que havia se precipitado há algumas semanas, quando fez um alerta para os efeitos da queda de safra nos Estados Unidos, o que levou a França, com o apoio de alguns países europeus, a pedir uma reunião de emergência do G-20. A ideia foi logo descartada, mas não a tempo de provocar estragos.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2012 | 03h05

Não é bem assim. Talvez seja por isso que a FAO está insistindo agora que a situação não é tão ruim. Ao jornal Valor, Graziano afirma que o que existe é um clima de "incerteza e não de emergência". A volatilidade e a alta dos preços veio para ficar, mas não deve faltar alimentos.

Há estoques. "Os estoques disponíveis de trigo, e especialmente de arroz, são maiores do que há quatro anos e seus mercados mostram-se até agora relativamente equilibrados" apesar da alta provocada pela seca americana. Ele ressalta um fato importante: os preços do arroz, produto fundamental na enorme população asiático, permanecem constantes. "A FAO estima que 66% das pessoas que vivem em situação de insegurança alimentar vivem na Ásia e dependem do arroz para sua alimentação", afirma Graziano. Para ele, não será a alta atual dos preços que aumentará o risco de avanço da fome no mundo, porque há estoques. O que falta são recursos para a FAO e um sistema de distribuição de alimentos. Isso também não existia quando os preços dispararam em espiral em 2008 e 2010. Ao lado da queda das safras, na época não houve maior coordenação internacional e, para agravar, alguns países produtores suspenderam as exportações e aumentaram as reservas.

Foi especulação. Tudo isso provocou uma espécie de "pânico" gerando especulação no mercado futuro de commodities com rendimentos financeiros fantásticos que chegaram, nos últimos cinco anos, a 144%, de acordo com estudo do Deutsche Bank citado por Graziano. Hoje, a situação é diferente. Não há, como em 2008, o crescimento econômico que pressionou a demanda, mas desaceleração e recessão. Mais ainda, a seca americana que atingiu 60% da área do país, mesmo grave, não está afetando os preços como antes.

Os preços aumentaram 6% em junho, sim, mas levantamento tradicional que a Economist faz todas as semanas, registra que a alta em 14 de agosto era de 2,6% e em 12 meses apenas 3,6%. Só para comparar, a queda das commodities industriais foi 21% em um ano!

Os dois desafios. Há, porém, os desafios climáticos e a falta de regulamentação financeira, o que deu margem à onda especulativa do passado - esta, sim, a grande alimentadora da crise. E isso, afirma Graziano, não se enfrenta com "medidas de emergência".

O preço alto ajuda. Na verdade, diz ele, a alta dos preços que agora se anuncia dos alimentos até pode ajudar nas próximas safras porque estimula os agricultores atraídos por lucros maiores a aumentarem o plantio. Isso não houve no passado, principalmente nos EUA e na Europa. A crise dos preços pegou um mundo desabastecido por falta de investimento no setor agrícola.

E o repasse dos preços? Este é o desafio que o governo ainda não enfrentou. O repasse da elevação dos preços externos pode ser evitado com estoques, mas, de novo, falta infraestrutura em transporte a armazenagem. O Brasil colheu a maior safra de milho da história, mas os preços para o agricultor aumentaram 63%; a tonelada de soja passou de R$ 550 para R$ 1.500! É em grande parte o custo oneroso do transporte. Isso levou o Estado a afirmar em editorial que "sobra milho, mas falta milho" em áreas agrícolas.

Mesmo assim... O Brasil está bem em meio a este cenário agrícola mundial sombrio. Tem produção recorde de grãos e oleaginosas para atender plenamente o mercado local e aproveitar a excepcional oportunidade de preços e demanda num mercado externo carente. Os agricultores brasileiros continuam plantando e obtendo safras recordes. E a alta dos preços provocada pela seca americana - perdoem a heresia, só ajuda. O desafio mundial é outro, é a fome que atinge 1 bilhão de pessoas. Mas esse não é um desafio apenas alimentar, é político e de renda. Perguntem aos colonizadores europeus que só deixaram ditadores tribais, miséria e pobreza.

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