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Quando o público-alvo são os próprios publicitários

Clube de Criação de SP lança filme em que o protagonista é uma verruga que se envolve com a propaganda

NAYARA FRAGA, O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2015 | 02h06

Quando uma peça publicitária é criada para um cliente tradicional, como uma grande empresa, vários detalhes precisam ser levados em consideração (da clareza da mensagem ao politicamente correto). Quando o comercial é feito justamente para atingir publicitários, não há barreiras para a criatividade. Uma prova disso é o filme de 5 minutos do Clube de Criação de São Paulo que estreia hoje. O protagonista é ninguém menos que uma verruga.

No "papel" de um publicitário bem-sucedido que vive altos e baixos, a verruga narra sua própria história: do preconceito sofrido na adolescência de seu dono (Alcides) ao reconhecimento do mercado. "Meu começo foi um pouco diferente dos outros... Comecei pelo fim", diz a verruga no início do filme.

Depois de ser arrancada com requintes de crueldade do rosto de Alcides, ela vai para um laboratório para análise (em tese, o fim de sua vida). Lá, porém, exposta a uma TV de 5 polegadas, ela se apaixona por propagandas.

O enredo não apenas parece bizarro. É surreal. Foi propositadamente pensado de forma absurda para chamar a atenção dos criativos (como são chamados os publicitários da área de criação) para a abertura das inscrições do Anuário do Clube de Criação de São Paulo, que apresenta, desde 1975, os melhores trabalhos da propaganda brasileira. "A gente quis exercer a criatividade a partir da liberdade que nos deram", diz Fernando Nobre, vice-presidente de criação da Borghi/Lowe. A escolha de uma verruga como protagonista, segundo ele, não teve razão especial. "Queríamos algo diferente, que nos permitisse adicionar toques surreais."Executar esse surrealismo, no entanto, não foi tarefa fácil. Carlão Busato, o diretor de cena da produtora Hungry Man, discutiu com sua equipe, durante duas semanas, como seria a tal verruga. "Queria que ela fosse o mais humanizada possível", diz Busato. "Não queria computação. Ela tinha que ser física."

Assim sendo, a equipe usou látex para dar vida a todas as verrugas usadas no filme. Apesar de haver apenas uma verruga na história, várias foram criadas para o comercial - não apenas para fazer testes, mas por uma questão de ângulos. A verruga do laboratório, por exemplo, é cinco vezes maior que a do rosto do personagem Alcides.

Busato teve também a preocupação de que o filme publicitário fosse o mais cinematográfico possível. Uma das várias evidências desse esforço é o uso do "over the shoulder", quando a câmera foca em uma pessoa ou objeto a partir da perspectiva do ombro de outra pessoa. "No nosso caso, foi "over the pelo", brinca Busato, em alusão à verruga cabeluda. Para fazer essas cenas, ele diz que a verruga foi pregada na lente da câmera.

Tempo. A história da "verruga-criativa" vai dos anos 70 até os anos 2000. Essa passagem de tempo é informada no filme nos mínimos detalhes. Na cena em que Alcides discute com a esposa, por exemplo, é possível observar os móveis antigos, o telefone de disco, a TV de tubo e uma decoração à la anos 80 - com cavalos de todas as formas.

Toda essa produção, casada com um roteiro ousado e uma seleção especial de músicas, fez o filme ganhar um humor refinado. A verruga-publicitária dá mostras de que tem espírito crítico, de maneira cômica.

"Deixando de lado o surreal, esse filme conta a história de todos nós, criativos, que um dia nos descobrimos apaixonados pela propaganda e vamos à luta montar portfólio, procurar estágio, virar a noite trabalhando...", diz Fernando Nobre, da Borghi/Lowe.

 

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