Coluna

Fabrizio Gueratto: como o investidor pode recuperar suas perdas no IRB Brasil

Quando o Sol nascer

E os ultrarricos, continuarão gozando de renúncias e isenções para pagar tributos? Ou tudo vai mudar para nada mudar?

Pedro Fernando Nery, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2020 | 04h00

Há décadas em que nada acontece e há semanas em que décadas acontecem. A frase de Lenin tem sido lembrada nas discussões sobre como será o mundo depois da pandemia. Afinal, como sairemos do isolamento? 

Na economia, pode ganhar força o questionamento do seu principal indicador de sucesso: o Produto Interno Bruto. O PIB das principais economias do mundo vai despencar, e isso é considerado desejável para atenuar a propagação do vírus. A depender da qualidade da resposta dos governos à crise, o PIB realmente importará tanto?

“Ninguém come PIB”, polemizou a icônica economista Maria da Conceição Tavares em 2014. Era uma defesa do então considerado modesto crescimento do 1.º mandato de Dilma. A taxa de desemprego era a menor do Real, e a taxa de pobreza era menor ano após ano (as curvas virariam naquele ano). A contradição deve se mostrar também nos próximos meses. Se for de fato implementado nos moldes aprovado pelo Senado, o auxílio emergencial pode gerar uma virtual erradicação da extrema pobreza enquanto durar. 

É claro que estamos falando só da pobreza monetária, mas é interessante observar que o crédito aberto pelo governo para arcar com o benefício corresponde a mais de três vezes o orçamento anual do Bolsa Família. 

Serão gastos 13 vezes mais nos seus três meses do que seria gasto com o Bolsa. A renda por pessoa que dá acesso ao novo benefício chega a ser quase seis vezes maior que a antiga. Em casos extremos, o benefício pode chegar a algo como 30 vezes maior.

O PIB já chegava desafiado à pandemia. Para alguns, era um indicador muito industrial, incompatível com a era digital. Para outros, seu anacronismo se devia a sua indiferença ao meio ambiente – à medida que a mudança climática se consolidava como um dos principais temas da opinião pública nos países desenvolvidos.

Voltando ao auxílio emergencial, fica a dúvida sobre o que vai acontecer no 2.º semestre, com o fim do pagamento. A mãe solo que vai receber R$ 1.200 vai se contentar com os R$ 41 do Bolsa Família? Como temos reiterado na coluna, a proteção social vinculada ao emprego formal, que consome boa parte do orçamento, terá de dar lugar a algo mais universal. Especialmente diante das novas relações de trabalho possibilitadas pela tecnologia que dispensam a carteira assinada. A CLTização forçada desse grupo é arriscada e periga ser ainda mais excludente.

Outras escolhas que afetam a economia serão feitas. O protecionismo e a política industrial sem critérios sairão vencedores, após temores de desabastecimento? “Que nunca mais a gente tenha de depender do resto do mundo para nosso remédios”, defendeu nos últimos dias Peter Navarro, economista assessor de Trump. 

A pandemia será oportunidade para ampliar o ensino a distância ou a educação formal continuará dependente do modelo baseado em professores e alunos reunidos em sala (um dos arranjos mais “escleróticos” da sociedade para o futurista Martin Rees)? A memória do distanciamento fortalecerá o carro, o zoneamento e as restrições à construção – desenhos excludentes de cidades – ou impulsionará o investimento massivo no transporte público para evitar as aglomerações?

Catástrofes e guerra aparecem na pesquisa econômica como fatores históricos que moldam a economia de um país. Da taxa de poupança, maior para sociedades mais desafiadas por inimigos e pela natureza (pense no Japão), à desigualdade. Como lembra o thought leader Pedro Souza, do Ipea, esses eventos provocaram no passado ações que reduziram a desigualdade. Pense agora na Suécia, hoje exemplo de sociedade coesa, mas um dos países de maior desigualdade conhecida antes das grandes guerras. 

Não deve demorar para que saibamos o que vai acontecer: o alto e necessário custo com o auxílio emergencial e os programas de emprego se somarão a uma dívida que é a das mais altas entre os emergentes, e que cresceu muito nos últimos anos. Como a conta será repartida? Ainda será tabu rever a remuneração do servidor que tiver a jornada reduzida, após a crise que blindou somente sua renda? Diante do lockdown que impede o consumo, não se descarta que parte do funcionalismo termine até acumulando poupança na quarentena.

E os ultrarricos, continuarão gozando de renúncias e isenções para pagar tributos? Editorial do fim de semana do próprio Financial Times fala até em imposto sobre grandes fortunas – além de pedir que rendas como o auxílio emergencial sejam permanentes. 

São discussões que têm de ser colocadas desde já no Brasil. Ou tudo vai mudar para nada mudar?

*DOUTOR EM ECONOMIA 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.