Tony Gentile/Reuters
Tony Gentile/Reuters

Quando tudo desmorona

Diminuída politicamente, a dinastia Berlusconi começa a perder também sua relevância corporativa

The Economist

13 de agosto de 2016 | 05h00

As coisas não andam muito boas para Silvio Berlusconi. O bilionário, que na juventude trabalhou como “crooner” em navios de cruzeiro e entre 1994 e 2011 foi quatro vezes primeiro-ministro da Itália, passou dois anos tentando vender o Milan, clube de futebol que ele comprou em 1986. Mas o time não vem jogando bem, tendo terminado o último campeonato italiano na sétima colocação, e perdeu muito de seu apelo comercial. Nem sombra do que foi em seus tempos áureos, a agremiação registrou no ano passado um prejuízo de € 89 milhões (US$ 99 milhões). A decadência dentro e fora dos gramados espelha a sorte minguante de seu proprietário.

Por fim, no dia 5, o Cavaliere, como Berlusconi ainda é conhecido, anunciou que os investidores chineses do Sino-Europe Sports Investment Management Changxing estão dispostos a pagar € 470 milhões pelo clube, além de assumir € 220 milhões em dívidas. O negócio marca uma transição geracional: Berlusconi começa a transferir para os filhos o poder em seu império corporativo. Marina Berlusconi, a filha mais velha, que é presidente da holding da família, a Fininvest, parece feliz da vida por se ver livre do Milan. Tudo indica que os Berlusconi mais jovens terão no mundo dos negócios uma atuação mais discreta que o pai.

Há um processo de sucessão em andamento. Em junho, um enfarte quase tirou a vida de Berlusconi, que completa 80 anos no mês que vem. “Ele tem se esforçado para deixar as coisas em ordem”, diz François Godard, da Enders Analysis, que revela também que a família vem tentando levantar recursos e reduzir as dívidas. Em fevereiro de 2015, a Fininvest vendeu por € 377 milhões uma participação de 7,8% na Mediaset, maior emissora comercial de TV da Itália. A Fininvest, que, depois de longa sequência de prejuízos, conseguiu equilibrar as contas no ano passado, informou que pretende se dedicar a “consolidar” a liderança que tem em seus principais negócios. Faz sentido enxugar as operações: o grupo é dono de 30% da empresa de serviços financeiros Mediolanum e de 50% da Mondadori, maior editora italiana. Mas o que realmente conta é a participação de 34,7% que a família tem na Mediaset.

A emissora é comandada por Pier Silvio Berlusconi, o filho fisiculturista do ex-premiê, que também atende pelo apelido de “Dudi”. Mesmo com vários canais abertos, as receitas publicitárias da emissora estão em baixa por causa do mau momento econômico vivido pela Itália. Aparentemente, a companhia ainda não se recuperou da perda de um certo “prêmio Berlusconi”. Segundo estudo publicado em 2014 pelo Centre for Economic Policy Research, de Londres, a Mediaset teria embolsado ao longo dos anos um montante adicional de € 1 bilhão, em valores pagos por anunciantes interessados em agradar o então politicamente poderoso proprietário da emissora. Essa fonte secou.

Na Espanha, a Mediaset tem uma subsidiária que vem se saindo muito bem, mas na Itália a emissora não consegue se adaptar às mudanças que a internet produziu nos hábitos dos consumidores. Além disso, acumula derrotas para a Sky Italia, adquirida em 2014 pela BSkyB, na disputa por assinantes de TV paga. Suas ações estão em baixa: o valor atual de mercado da empresa é de apenas € 3,3 bilhões, montante pouco mais de € 2 bilhões inferior ao que ela valia há um ano. O maior problema é a unidade de TV paga, Mediaset Premium, voltada para assinantes de baixo poder aquisitivo, que desembolsou somas exageradas pelos direitos de transmissões das próximas duas temporadas de futebol na Itália e na Europa. Sem jamais ter dado lucro, a unidade acumulou um prejuízo de € 100 milhões no primeiro semestre deste ano.

Se Berlusconi ainda fosse politicamente influente, seria de esperar que a Mediaset Premium fosse socorrida. É bem verdade que, em abril, a Vivendi, grupo de mídia francês comandado por Vicent Bolloré, velho chapa do Cavalieri, concordou em executar uma operação de salvamento, a ser viabilizada por uma troca de participações acionárias de 3,5% entre Mediaset e Vivendi. O negócio foi vendido ao mercado como se fizesse parte de uma “estratégia latina”, voltada para a formação de uma gigante de TV paga no Mediterrâneo. Não era algo que fizesse muito sentido, a menos que Bolloré cogitasse um dia comprar a própria Mediaset e a divisão de canais abertos em que a emissora ainda é líder de mercado. No fim de julho, o negócio desandou, com a Vivendi alegando ter se dado conta de que a Mediaset Premium ainda vai precisar de muito tempo para dar lucro e a Fininvest retrucando com várias acusações contra o grupo francês e prometendo levar o caso à Justiça. A nova geração de Berlusconis ainda vai ter muito trabalho para pôr a casa em ordem.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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