Quando um BC fala demais

Reuniões e audiências são públicas agora, mas o conteúdo das conversas, não

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2017 | 05h00

No início deste mês, o então presidente do Federal Reserve (Fed) de Richmond, Jeffrey Lacker, um dos membros do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) do banco central dos Estados Unidos, deixou o cargo após admitir sua participação no vazamento de informações sensíveis sobre a política monetária a um analista do mercado financeiro em 2012.

O escândalo sobre esse vazamento resultou numa investigação pelo FBI e por um comitê do Congresso americano, mas ninguém foi indiciado. O prejuízo, contudo, foi do Fed, cuja credibilidade ficou seriamente arranhada. Teria o episódio servido de lição?

Aparentemente, não.

A questão de conversas inapropriadas – para dizer o mínimo – entre autoridades monetárias e participantes do mercado financeiro voltou à tona na imprensa americana quando foi divulgado que Stanley Fischer, vice-presidente do Fed e um dos votantes nas reuniões do Fomc que decidem sobre a taxa de juros americana, falou para um grupo de investidores e analistas num evento fechado ao público no Brookings Institute, em março.

Relações pouco transparentes entre diretores de um banco central e analistas do mercado financeiro são um problema antigo no Brasil, de várias gestões do BC. Sempre foi uma prática corriqueira encontros privados entre autoridades monetárias brasileiras e investidores ou analistas, individualmente ou em grupos. Também sempre foi notório o fácil acesso, via telefone, aos diretores da instituição.

Apesar de o BC ter sempre enfatizado a lisura de sua postura no contato com participantes do mercado, seguindo regras rígidas de governança, os encontros e conversas privadas com analistas e investidores deixam a instituição vulnerável a especulações e acusações de favorecimento em episódios de maior volatilidade.

É comum essas especulações correrem pelas mesas de operações no mercado financeiro quando uma decisão do Copom surpreende o mercado e pega no contrapé a esmagadora maioria das apostas sobre os juros. O exemplo mais recente foi quando o Copom cortou a taxa Selic em 0,75 ponto porcentual na sua reunião de janeiro, desfecho esperado apenas por três instituições financeiras das 71 pesquisadas, cuja maioria apostava numa redução menor. Também causou ruídos e gerou especulações, estas sem sequer comprovação, quando o BC corrigiu suas projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no Relatório Trimestral de Inflação (RTI) divulgado em 30 de março passado. A correção só foi divulgada na noite do dia 4 de abril.

Em abril de 2013, durante a reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, este colunista testemunhou uma conversa entre o então diretor Luiz Awazu Pereira e um gestor de um fundo estrangeiro durante o chamado “quiet period”, o período de silêncio que antecede a reunião do Copom no qual os diretores do BC devem evitar conversas com a imprensa e participantes do mercado. A conversa poderia ter sido despretensiosa, mas como garantir isso aos outros participantes do mercado? Na época, o BC disse que nenhuma regra de conduta da instituição foi quebrada.

É preciso ressaltar que a gestão de Ilan Goldfajn à frente do BC avançou a passos largos na transparência nos contatos com participantes do mercado financeiro. Entre as medidas adotadas, Goldfajn tornou mais clara a agenda de compromissos dos diretores da instituição, detalhou orientações de conduta para o período do “Silêncio do Copom” e também padronizou o agendamento de reuniões e audiências com membros da diretoria colegiada da instituição.

As medidas são um avanço, mas podem não ser vistas como suficientes para eliminar a questão mais grave de assimetria de informações. Essas reuniões e audiências são públicas agora, mas o conteúdo das conversas, não. Muitos podem questionar se o teor das discussões nesses encontros não avança para informações mais sensíveis sobre os próximos passos da autoridade monetária. Para deixar todos os participantes em pé de igualdade quando se trata de analisar os rumos da taxa de juros e do câmbio, por exemplo, seria necessário o BC acabar com encontros privados ou, no mínimo, tornar público todo o conteúdo da conversa. Sem isso, o BC ficará sempre à mercê de especulações, com prejuízo à sua reputação.

Reuniões e audiências

são públicas agora, mas o conteúdo das conversas, não

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