Quando um site acaba, suas informações podem ir com ele

As pessoas publicam momentos importantes da sua vida na rede, mas os serviços não duram para sempre

CECILIA KANG, THE WASHINGTON POST , O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2011 | 03h06

Num momento em que uma verdadeira torrente de fotos de família, vídeos e cartões de Natal inunda a internet, os usuários da rede formam um enxame nos sites de redes sociais e compartilhamento de fotos que se tornaram os cadernos e livros de recados da nossa época.

Mas, no turbulento e muitas vezes promíscuo ramo da web, no qual empresas se fundem e desaparecem a uma velocidade impressionante, ninguém pode acreditar que estes sites poderão tomar conta dos seus tesouros digitais no longo prazo.

O Gowalla, serviço por meio do qual os usuários anunciam onde estão, será fechado em semanas. No último mês de outubro, o Google pôs fim à sua rede social Google Buzz. A primeira grande rede social da internet, o Friendster, foi reformada no mês de junho para se dedicar aos videogames. Em muitos casos, os dados que as pessoas confiaram a tais sites são mantidos numa espécie de limbo cibernético, e não há clareza quanto aos direitos dos usuários.

"As pessoas mantêm relacionamentos muito individuais com os locais nos quais armazenam suas informações", disse Leslie Harris, presidente do Centro pela Democracia e Tecnologia. "Mas os nossos direitos a esses dados se tornam mais complicados com a internet e a computação em nuvem", sistema de armazenamento compartilhado que permite aos usuários acessar seus dados na rede onde quer que estejam.

Os detalhes dos direitos de um usuário costumam vir incorporados a longos termos de privacidade que, de acordo com os reguladores, são confusos demais e pouco lidos. E não há consolo para usuários como John Metta, de 41 anos, que experimentou uma série de sites.

No último ano, Metta passou a usar o Twitter, o serviço de postagem de fotos Picasa, o Gowalla e o novo serviço de rede social do Google, chamado Google +. Ele usou o Gowalla para indicar sua presença ao chegar a cafés, bares e shows em Portland, Oregon, alertando os amigos interessados em encontrá-lo. Partilhou fotos de sua mulher na região do Rio Hood, parte de uma linha do tempo online que o site criou mostrando onde ele esteve e com quem se reuniu.

Todas essas informações serão apagadas depois que os funcionários do Gowalla migrarem para o Facebook para criar um novo serviço de localização. A empresa disse que vai notificar seus 2 milhões de usuários, ensinando-lhes maneiras de baixar suas listas de contatos, fotos e demais informações.

Os usuários do Flickr tiveram seus álbuns transferidos para o Yahoo, e os clientes do Picasa viram seu material repassado ao Google após a aquisição da empresa pelo gigante das buscas. Esses sites incluíram as informações de seus usuários nos seus demais serviços com o objetivo de usá-las em campanhas de publicidade dirigida.

As autoridades dizem que não existe um conjunto padronizado de regras para as questões envolvendo a privacidade nos sites, e os consumidores se deparam com uma ampla gama de práticas diferentes.

O Friendster enviou e-mails aos usuários alertando-os quanto às mudanças que ocorreriam em 2011. Foram sugeridas maneiras pelas quais os usuários poderiam baixar seus dados. A empresa, pertencente à MOL, da Malásia, disse que não vai apagar os bancos de dados dos usuários.

O Google também disse aos usuários que fecharia em 2011 o Buzz, um serviço de rede social, e a empresa não planeja apagar as informações destas contas.

Os consumidores podem encontrar surpresas ainda maiores quando uma empresa inteira quebra. Este ano, a Bookseller Borders leiloou seu banco de dados de consumidores, incluindo seu histórico de compras, num tribunal de falências. As informações dos usuários do já extinto site gay XY também foram oferecidas numa venda, até que a Comissão Federal do Comércio (FTC) interveio para impedir a transação.

Esforço. As autoridades intensificam esforços para proteger a privacidade na rede. "Não existe um dispositivo legal obrigando as empresas a se livrarem das informações", disse Christopher Olsen, diretor assistente da FTC para a proteção da privacidade dos usuários. Recentemente, a comissão prestou queixa contra o Facebook, que não apagou as informações de usuários que deixaram o site, embora tenha afirmado que o fizera.

Tudo isto é novidade para Rashida Isigi, de 34 anos, que trabalha com recrutamento corporativo em Nova York e compreende os riscos envolvidos nas suas atividades online. Ela ficou surpresa recentemente ao reconstituir seu histórico na rede, contando o número de sites nos quais tinha criado um perfil.

Ela teve vários endereços de e-mail, incluindo os serviços de provedores como AOL, Hotmail e Gmail, além de uma conta da Universidade do Arizona e outros oito endereços corporativos. Ela está no MySpace, Facebook, Twitter, LinkedIn e Hootsuite - que permite a ela postar comentários em diferentes redes sociais simultaneamente.

A maioria das contas estava ociosa há anos, mas ela não as fechou nem apagou informações. Rashida entra na sua conta do Hotmail uma vez por mês, apenas para limpar a caixa de entrada. E ela raramente pensa em sua conta do MySpace, criada antes de completar 30 anos.

Rashida promete a si mesma que um dia vai tirar algum tempo para organizar todas as suas assinaturas de serviços online e para fazer o backup de seus arquivos. Mas ela aceita que exista um preço a ser pago pelo uso de tais serviços. "Em algum momento, é preciso entregar o controle a eles", disse ela. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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