Quanta espionagem econômica é demasiada?

Estudo da CIA de 2007 concluiu que problemas por espionar corporações são enormes; parece que China e França pensam diferente

ELIAS, GROLL, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2014 | 02h06

"Se espionamos por segurança militar, por que não deveríamos espionar por segurança econômica?" Essas foram palavras não de um agressivo espião chinês, mas de ninguém menos do que Stansfield Turner, o diretor da CIA da era Carter que defendeu, em 1992, que os Estados Unidos deviam realizar operações de inteligência mais agressivas para garantir a posição de liderança econômica mundial americana.

Não fosse por razões de patriotismo, o ex-diretor da CIA provavelmente não levantaria um dedo ante as alegações de espionagem chinesa reveladas por um júri de instrução na Pensilvânia e pelo Departamento de Justiça na segunda-feira. O governo dos Estados Unidos iniciou um processo contra cinco oficiais da Unidade 61398 do Exército Popular de Libertação da China supostamente pelo roubo de segredos da indústria siderúrgica americana para beneficiar empresas estatais chinesas.

Na verdade, as táticas de que o governo Obama acusou a China de usar, também foram debatidas nos níveis mais altos do governo americano como possíveis instrumentos do poder americano. Outros países não foram tão reticentes e realizaram operações fortemente parecidas com aquelas que o júri de instrução da Pensilvânia atribuiu a espiões chineses.

Nos anos 70 e 80, agentes franceses plantaram espiões dentro da IBM e da Texas Instruments e repassaram o material coletado para uma companhia francesa de computadores. Microfones plantados nos assentos da Air France para captar conversas entre empresários em viagem tornaram-se uma peça de folclore da inteligência.

Os franceses, ao que parece, acham que os americanos deveriam se sentir lisonjeados com a atenção. "Em economia, nós somos competidores, não aliados", disse, certa vez, um antigo chefe da inteligência francesa, Pierre Marion. "Os EUA têm as informações técnicas mais relevantes. Elas são facilmente acessíveis. Portanto, é natural que seu país receba maior atenção dos serviços de inteligência." Mas, apesar das escassas evidências de companhias americanas espionando em favor, por exemplo, da General Motors, espiões americanos certamente adotaram a noção de espionagem econômica que Robert Gates, então diretor da CIA, propôs no início dos anos 90. Em 1995, por exemplo, o jornal The New York Times revelou que agentes americanos espionaram agressivamente autoridades japonesas envolvidas em negociações comerciais com os EUA.

Mais recentemente, documentos divulgados por Edward Snowden mostraram que agentes americanos espionaram a gigante de petróleo brasileira Petrobrás. Outros documentos revelaram que espiões americanos e britânicos visaram ao representante da União Europeia responsável pela política de competição e casos antitrustes sensíveis. E, segundo o New York Times, a Agência de Segurança Nacional (NSA) visou a servidores pertencentes à gigante de telecomunicações chinesa Huawei num esforço deliberado para determinar os vínculos da empresa com o Exército chinês.

Crise existencial. Essa virada para a espionagem de companhias e setores estratégicos está associada às mudanças que atingiram a comunidade de inteligência americana depois da queda da União Soviética, quando a CIA passou por uma espécie de crise existencial. Com a derrota de seu principal inimigo, qual seria a finalidade da agência e contra quem ela lutaria? Nos dias agitados do início dos anos 90, antes do surgimento de uma nova ameaça terrorista, a agência encontrou um novo foco na competição econômica.

Em 1992, Gates observou a "crescente importância dos assuntos econômicos internacionais como uma questão de inteligência". A agência havia sido obrigada a se ajustar nessa direção. "Quase 40% dos novos requisitos são de natureza econômica", disse Gates. "Os formuladores políticos de mais alto escalão do governo veem claramente que muitos dos desafios e oportunidades mais importantes até o fim desta década e além estão na arena econômica internacional." Mas a agência, ele enfatizou, não se envolveria em espionagem comercial - isto é, passar informações úteis para empresas americanas.

Um estudo de 2007 da CIA documentou o penoso debate sobre se os EUA deviam espionar em prol de suas corporações. Os problemas, conclui o estudo, são enormes e uma decisão de se envolver em espionagem corporativa pode resultar em conflitos internacionais. Ademais, argumenta o estudo, os benefícios da espionagem corporativa são difíceis de calcular e impossíveis de avaliar em relação a seus custos.

Os chineses, como os franceses, fizeram um cálculo diferente. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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