Quanto custou a ‘partícula de Deus’

US$ 10,3 bilhões estão por trás de uma das maiores descobertas da física nas últimas décadas, mas crise na zona do euro pode atrapalhar continuidade dos estudos

Mariana Congo, do Economia & Negócios,

06 de julho de 2012 | 18h14

Na quarta-feira, o Centro Europeu para a Pesquisa Nuclear (Cern) anunciou a descoberta da apelidada "partícula de Deus", ou bóson de Higgs, que pode ajudar a comunidade científica - e a humanidade - a entender por que existe massa no universo. Ou, em outras palavras, por que todos os objetos existem, de um átomo a um cachorro.

A comprovação prática do bóson de Higgs só foi possível com a construção do maior acelerador de partículas do mundo. Inaugurado em 2008, o LHC (Large Hadron Collider, da sigla em inglês) custou US$ 10,3 bilhões para ser construído. Esse equipamento - gigantesco - tem 27 km de circunferência e está localizado na fronteira da Suíça com a França.

Em tempos de crise econômica, a The Economist comentou o valor da descoberta. Para a revista, a quantia de mais de US$ 10 bilhões gasta no acelerador de partículas é relativamente pequena, considerando a importância do conhecimento gerado sobre como o universo realmente funciona.

O artigo da The Economist diz que já passou o tempo em que os cientistas estavam próximos do poder e que o dinheiro era farto - como na época da bomba atômica. Hoje, a comunidade científica suplica o reconhecimento da importância das pesquisas, em um mundo em que o dinheiro está curto.

Crise?

O Cern, que abriga o acelerador de partículas, tem 20 países-membros mantenedores. Os cinco principais financiadores são Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Espanha.

A crise abala toda a zona do euro, mas Itália e Espanha, por exemplo, são alguns dos países mais atingidos. Juntas, essas duas nações respondem por quase 20% de todo o financiamento do Cern.

Sozinha, a Alemanha financia 20% do centro de pesquisas, enquanto a França, 15%, e o Reino Unido, 13%.

Neste ano, o orçamento para o Cern manter suas atividades é de US$ 1,2 bilhão. Para 2013, o financiamento já está aprovado, mas os valores ainda não foram divulgados. Depois do ano que vem ainda não há garantias de continuidade.

"É claro que o Cern está sujeito à condição econômica dos países-membros", disse a assessoria do centro de pesquisas. Também segundo o departamento de imprensa do Cern, para entender completamente os desdobramentos dos estudos, o programa tem expectativa de durar pelo menos mais 20 anos.

Além do financiamento via países-membros, alguns experimentos, como o Atlas e o CMS, de onde partiram as descobertas sobre o bóson de Higgs, também recebem dinheiro de institutos e universidades que participam do programa de pesquisa.

São 629 universidades e institutos de pesquisa participantes das atividades do Cern, sendo que 300 estão localizadas em países-membros.

A partícula

O físico teórico escocês Peter Higgs previu, somente em teoria, a existência de uma partícula capaz de dar massa a todas as outras. Isso foi em 1964. Agora, quase 50 anos depois, a teoria foi comprovada na prática.

Mas não foi simples. Foram 500 trilhões de colisões geradas no acelerador de partículas, o LHC, em três anos de operação. O bóson de Higgs foi visto somente em algumas dezenas delas.

A pesquisa continua. Segundo o Cern, a descoberta anunciada nesta semana faz parte de um trabalho mais amplo. A tentativa é de se entender por que a antimatéria parece não existir e saber como a matéria se comportou no início do universo. Também entender o invisível, já que somente 4% da matéria do universo é pode ser vista, segundo os pesquisadores.

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