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Quanto devo investir em bitcoin?

Rali da criptomoeda desde março de 2020 tem chamado a atenção do investidores

Fábio Gallo, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2021 | 05h00

A volatilidade do bitcoin não é novidade para ninguém. Mas, mesmo com o alto grau de risco desse ativo, o rali da criptomoeda desde o seu pior momento, em março de 2020, tem chamado a atenção, afinal, seu preço subiu perto de 1.050% em um ano. O valor de um bitcoin foi de menos de US$ 5 mil para quase US$ 57 mil. Obviamente, por se tratar de um ativo novo e mostrando exuberância, traz um apelo extra para alguns investidores.

Um recente artigo de Adam Grealish (Kiplinger) traz a proposta de uma resposta matemática à questão sobre quanto um investidor deve possuir de criptomoedas, baseando-se no modelo de Black-Litterman, criado em 1992. Esse modelo é baseado em finanças quantitativas modernas que são muito usadas pelos chamados “quants” de Wall Street para gerenciar seus portfólios. Não é intenção entrar na discussão e detalhes do modelo, que, obviamente, envolve muita matemática pesada.

Se por um lado, chama a atenção a tentativa de responder a uma pergunta desse perfil com um modelo quanti, por outro vale a pena observar as variáveis consideradas pelo chamado modelo B-L, que usa a carteira de mercado global, considerando todas as participações de ativos no mundo, como ponto de partida. No início de 2021 o mercado global de ações totalizou US$95 trilhões (47%), o de títulos US$105 trilhões (52,5%) e as criptomoedas foram avaliadas em cerca de US$ 1 trilhão (0,50%). O ponto de partida para a composição de sua carteira seria investir 0,5% em moedas virtuais.

Partindo dessa base, o investidor usa do modelo B-L e de quão confiante está para assumir uma posição maior em bitcoins. Por exemplo, para que o modelo diga para manter uma alocação de 10%, o investidor precisa estar altamente confiante de que o bitcoin superará as ações em 40% a cada ano. Por outro lado, se o investidor acreditar em chance de 50% do desempenho de as moedas virtuais superarem ligeiramente o desempenho das ações, a fatia de bitcoin deve ser zerada.

Vale notar que, nos últimos cinco anos, a volatilidade do bitcoin foi seis vezes maior que das ações e 30 vezes a dos títulos. Outras criptomoedas têm ainda maior volatilidade. No caso desse modelo, o resultado obtido depende em grande parte da habilidade e perspectiva de mercado que o investidor tenha. Isso acaba mostrando que, além de conhecimento teórico, esse tipo de investimento envolve um tanto de arte por parte do investidor. O que temos efetivamente é que o bitcoin tem um número pequeno de investidores, mostrando que sua relação risco e retorno não tem atraído muito.

Além da volatilidade, considere ainda que criptomoedas têm crise de identidade, porque são mais parecidas com ouro do que com moeda, assim, podem passar a ser tributadas, não são regulamentadas e são amplamente utilizadas para atividades ilegais. Enfim, parte dos investidores acredita que é o futuro e outros acham que é uma farsa, assim como as autoridades monetárias.

* PROFESSOR DE FINANÇAS DA FGV-SP

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