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Quanto tempo durará o déficit de trabalhadores nos países ricos?

Isso dependerá da capacidade dos empregadores de atrair de volta as pessoas que abandonaram o mercado de trabalho

The Economist,

16 de agosto de 2021 | 10h00

O mais recente relatório de emprego dos Estados Unidos é tão encorajador quanto preocupante. A maior economia do mundo adicionou 943 mil empregos em julho. Esse é o melhor registro em aproximadamente um ano — mesmo a esse ritmo, porém, o emprego não voltará ao nível anterior à crise antes do início de 2022, seis meses após a produção ter retomado seu pico.

O emprego no restante dos países ricos também tende a demorar um pouco para retomar os altos níveis do período pré-pandemia. A demanda por trabalhadores ainda está mais baixa do que antes da covid-19; e, mais importante, as pessoas se retiraram do mercado de trabalho.

Antes da pandemia, os países ricos experimentavam um extraordinário boom de emprego. Em 2019, uma parcela maior de pessoas com idades a partir de 15 anos participava do mercado de trabalho — seja trabalhando ou em busca de trabalho — do que em qualquer período desde pelo menos 1990. As taxas de emprego da população ativa (pessoas com idades entre 16 e 64 anos empregadas) registravam altas históricas em mais da metade dos países ricos.

Agora, os mercados de trabalho estão surpreendendo na direção oposta. Estatísticas uniformizadas são publicadas com longas defasagens, mas nosso melhor palpite, com base em dados de oito países, é que o nível de emprego nos países ricos está 3% abaixo da alta no período pré-pandemia. Isso aponta para um déficit de aproximadamente 18 milhões de pessoas — uma imensa perda de talentos, sem mencionar o abalo nas receitas fiscais.

O que explica a discrepância? Uma explicação possível é que a demanda por trabalho está muito baixa. Um indicador bruto da necessidade de trabalhadores envolve adicionar o número total de pessoas já empregadas ao número de vagas não preenchidas. Mesmo nos EUA, com sua fervorosa economia, esse indicador ainda não se recuperou plenamente: apesar do número recorde de vagas abertas, a demanda por trabalhadores está 2% abaixo do nível anterior à crise. Algumas empresas, como as envolvidas em manufatura, apresentam uma demanda algo saudável por trabalhadores, mas nos setores de lazer e hospitalidade essa demanda ainda é 6% inferior ao nível pré-pandemia.

Perturbações relacionadas à covid-19, como restrições a viagens, certamente exercem uma função na explicação dessa baixa demanda. Em Paris, muitos hotéis continuam fechados. Este correspondente recentemente sofreu com a indignidade de ter sido obrigado a embarcar completamente sóbrio num voo que duraria a noite inteira, no aeroporto JFK, porque todos os bares do terminal continuavam fechados.

Alguns economistas consideram a falta de gastos a causa da demanda reduzida por trabalho. Em três quartos dos países ricos, o “impulso fiscal”, que mensura a medida que um gasto vitaminado do governo estimula uma economia, deverá tornar-se negativo este ano. Ainda sim, parece improvável que os governos consigam pôr fim ao déficit de trabalhadores simplesmente gastando mais. Compare os EUA e a União Europeia.

Na primavera no hemisfério norte de 2020, horas extras em ambas as economias caíram muito. Os EUA, então, injetaram imensos pacotes de estímulos, enquanto os governos europeus optaram por medidas mais modestas. A recuperação em termos de horas de trabalho desde então tem sido apenas marginalmente melhor nos EUA — pouco trabalho extra em troca de muito dinheiro extra.

Isso sugere que o déficit de trabalhadores não se justifica somente em razão da demanda. A oferta de trabalhadores pode ter caído a uma taxa maior, limitando a recuperação do emprego. A parcela das pessoas que constituem o mercado de trabalho nos países ricos caiu acentuadamente desde que a pandemia começou e, estimamos, está cerca de 1,5 ponto porcentual abaixo de seu pico. Outros indicadores também sinalizam a escassez de trabalhadores. Os salários, por exemplo, estão aumentando de maneira consistente.

Para entender se o déficit de trabalhadores vai ou não diminuir, você tem de levar em conta o porquê da queda na oferta. Três explicações abrangentes se sobressaem: as perturbações em razão da disseminação da covid-19; o impacto das políticas de assistência social e pensões; e as mudanças de atitude forjadas pela pandemia.

Perturbações

Vejamos primeiramente as perturbações. É comum acreditar que o fechamento de escolas tornou impossível para os pais, particularmente para as mães, trabalharem. Mas as provas disso são pouco claras. Uma análise de Jason Furman, Melissa Kearney e Wilson Powell III conclui que o desemprego maior entre mães de crianças pequenas representa uma parcela “insignificante" do déficit de emprego. Apesar dos rumores de uma “recessão feminina” no início da pandemia, na maioria dos países ricos o déficit de trabalhadores entre os homens continua mais alto.

O declínio na migração pode ser a causa mais plausível dessa escassez. Antes da pandemia, a imigração alimentava o crescimento da força de trabalho. E então, os países trancaram as fronteiras para conter o coronavírus. Atualmente, a emissão mais baixa de vistos aos EUA é responsável por cerca de um quinto do déficit de trabalhadores no país. A Austrália está vendo o número total de imigrantes diminuir pela primeira vez desde que os registros começaram, nos anos 1950.

O medo do vírus pode ter perturbado também a oferta de trabalho. Mesmo em países com altas taxas de vacinação, grande parte das pessoas se preocupa a respeito de contrair covid-19. Isso certamente afasta as pessoas de trabalhos em setores de alto contato físico, como o da hospitalidade.

Menos oferta

A oferta de trabalho mais baixa também pode ser reflexo do impacto de políticas de assistência social, como ajudas em dinheiro e pensões — nossa segunda categoria de razões. Efervescentes mercados de ações podem ter elevado o valor de alguns fundos de pensão, fazendo com que certas pessoas comprassem seu título no clube de golfe antes do esperado. Parece ter sido esse o caso nos EUA: pesquisa recente do Goldman Sachs, um banco, constata que o “excesso de aposentados” é responsável por um quarto do declínio da participação no mercado de trabalho no país.

Em outros lugares, porém, a parcela de pessoas com idades entre 55 e 64 anos no mercado de trabalho subiu. Pesquisa da OCDE, uma organização de países ricos, mostrou que, em muitos países, os retornos dos fundos de pensão foram fracos em 2020, talvez porque alguns administradores desses fundos venderam quando o mercado estava em baixa, na primavera. Os retornos reais dos fundos canadenses, a 1,9%, correspondiam a um terço do registrado nos EUA; na Austrália, eram negativos. Não surpreende que a participação de trabalhadores mais velhos no mercado aumentou em ambos os países.

Para os jovens, enquanto isso, generosos pagamentos de benefícios introduzidos em 2020, um dos elementos dos prósperos pacotes de estímulos, podem ter embotado a necessidade de encontrar trabalho. Apesar de muitos desses estímulos estarem sendo retirados atualmente, as pessoas podem ter usado os pagamentos recentes para acumular economias, o que pode postergar seu retorno ao mercado. De acordo com nossa análise, lares dos países ricos acumularam recursos adicionais equivalentes a um décimo do gasto anual em consumo.

Mudança de atitude

A terceira grande razão para a baixa oferta de trabalho está relacionada a mudanças de atitude. Uma possibilidade intrigante é que a pandemia fez as pessoas valorizarem menos o trabalho. Muita gente responde em pesquisas que passou a valorizar mais o tempo com a família. Uma mudança de preferências no trabalho seria um evento sísmico; mas é frustrante e difícil mensurar o que está realmente acontecendo. Uma pista, porém, vem do Reino Unido, que registra pessoas que afirmam querer trabalhar menos horas mesmo que ganhem menos. Normalmente, crises econômicas destroem as evidências de “sobre-emprego”. Não é o caso desta.

Somando isso tudo, a amplitude da duração do déficit de trabalhadores parece depender, em parte, do tempo que as perturbações e o medo causados pela pandemia durar. Salários mais altos poderão atrair de volta ao trabalho alguns daqueles que abandonaram o mercado. Quanto mais a pandemia persistir, porém, mais difícil será voltar para aqueles que saíram — e mais provável será que os novos hábitos permaneçam. O déficit de trabalhadores pode ter chegado para ficar, ao menos por algum tempo. / Tradução de Augusto Calil

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