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'Quanto pior, pior. Não é verdade quanto pior, melhor'

Apesar da crise política, o economista José Roberto Mendonça de Barros não acredita que o País perderá o selo de bom pagador neste ano

Entrevista com

José Roberto Mendonça de Barros, economista da MB Associados

Josette Goulart, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2015 | 02h01

O rebaixamento da nota de crédito do Brasil pela agência de classificação de risco Moody's era um movimento mais do que esperado, segundo o economista José Roberto Mendonça de Barros. Mas ele diz que o corte da nota veio em um momento muito oportuno e talvez sirva de alerta para o Congresso Nacional de que destruir ainda mais a parte fiscal, com a aprovação de medidas que ampliam gastos do governo, só vai fazer mal para todo mundo. Para o economista, a questão política acelerou a decisão da agência de risco de cortar a nota do Brasil, mas não acredita que o País perderá o selo de bom pagador neste ano. Destacou ainda que a manutenção da perspectiva "estável" da nota, dada pela Moody's, mostra que a agência acredita que é até possível melhorar as condições econômicas este ano. A seguir, trechos da entrevista.

Qual sua análise sobre o rebaixamento pela Moody's?

Era um movimento amplamente esperado, acompanhando a Standard & Poor's. Era esperado também porque, conforme a própria Moody's colocou, a situação econômica piorou. A questão da dívida também. O ajuste fiscal está pior e o crescimento bem abaixo do que seria razoável.

A perspectiva estável era também esperada?

No conjunto do que está acontecendo, essa foi até uma boa notícia porque na S&P a perspectiva foi negativa. A S&P sempre está um passo adiante. A nota da Moody's diz que a perspectiva pode melhorar desde que Brasil consiga avançar na parte fiscal e no crescimento. A Moody's não projeta nenhuma piora grave na métrica da dívida. Mas a nova nota foi um alerta. Temos de continuar atentos que caminhamos para perder o grau de investimento.

O sr. concorda com as avaliações e o tempo em que estão sendo feitos esses rebaixamentos pelas agências de risco?

Acho até que estão cautelosas. Pela Fitch ainda estamos dois degraus acima do grau de investimento. A Moody's agora só tirou a folga. A perspectiva de crescimento negativo está firmemente estabelecida já faz tempo. E num período mais recente está se firmando mais a ideia de que também no ano que vem o PIB vai cair. Então, estão até bem cautelosas. Tudo caminha para termos uma situação difícil e o que se espera é que um conjunto de medidas seja aprovado pelo Congresso para melhorar a situação fiscal do País.

Diante desse cenário político atual, isso é possível?

Ficou mais difícil nesse período recente, em que medidas completamente irresponsáveis foram aprovadas pelo Congresso. Mas se algo positivo for aprovado vai mostrar que o Congresso percebeu que a situação do País está difícil. Isso seria altamente desejável e importante que ocorresse. Vamos ver se essa movimentação da Moody's acende um sinal de alerta para o Congresso e também para o próprio governo, que tem de ter mais humildade. Nosso ministro da Fazenda (Joaquim Levy) tem batalhado muito sozinho.

Por quê?

Porque ele não tem apoio claro dentro do próprio governo e isso enfraquece a função do ministro. O ministro está atuante no Congresso e talvez a notificação da Moody's sirva de alerta. A situação econômica segue se deteriorando e a fiscal não tem como melhorar em parte pela própria queda na arrecadação e em parte pela perspectiva do Congresso de criar novas despesas e não aprovar os ajustes que foram propostos. Ajustes que não são nada extraordinários, não representam nenhuma mudança dramática. Então o que a Moody's fez foi um alerta muito apropriado e oportuno para lembrar que destruir mais a parte fiscal só vai fazer mal para todo mundo.

O sr. acredita que o Congresso possa reverter esse clima de quanto pior, melhor?

Quanto pior, pior. Não é verdade quanto pior, melhor. Acho uma pena esse tipo de proposição. O rebaixamento da Moody's, que deve ser seguido pela Fitch (outra agência), vai fazer com que cheguemos ao fim do ano com três agências nos colocando na marca do pênalti literalmente, o que por si só piora a perspectiva de recuperação da economia.

O sr. acredita em perda do grau de investimento neste ano?

Acho que não. As agências são muito cautelosas com isso. A perda de grau de investimento é uma decisão muito difícil e forte. Se acontecer, será só no começo do ano que vem. Ainda teremos o movimento da Fitch, que coloca o Brasil dois graus acima. Mas é indispensável que governo tenha postura mais humilde e que o Congresso entenda minimamente que não dá para continuar criando despesas porque isso pode gerar um desarranjo econômico ainda maior.

Não fosse a questão política, as agências teriam rebaixado a nota do Brasil?

Não é uma pergunta fácil de responder. Caminhava nessa direção (de rebaixamento de nota). Mas essa piora nas condições políticas, especialmente no Congresso, seguramente ajudou a apressar essa decisão. Especialmente com o que aconteceu na semana passada (as votações no Congresso que ampliaram gastos do governo). Isso é muito ruim para o País. Uma das medidas foi aprovada por 400 e poucos votos contra 16. Foi quase uma unanimidade. Isso é uma pena. Estamos vivendo um momento incrível e raro. Existe um desarranjo político óbvio, uma crise macroeconômica evidente, que se expressa em crescimento baixo, desarranjo fiscal extremo, e uma crise setorial microeconômica como nunca vi - Petrobrás, Eletrobrás, setor automotivo, bens de capitais e assim por diante. Então temos um desarranjo econômico e político de grandes proporções e isso reunido provocou essa situação.

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