Quanto pior, pior

Nada sugere uma recuperação instantânea da economia. Precisamos de medidas de estímulo já

Luís Eduardo Assis, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2019 | 04h00

“As botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar”, já dizia Machado de Assis pela boca de Brás Cubas. A referência vem à tona quando se analisa a teimosia do governo, que mais se assemelha à autoflagelação, em propor medidas que estimulem o ritmo da atividade econômica, a começar pelo corte de juros. O principal argumento favorável à inação é que qualquer medida que anteceda a aprovação da reforma da Previdência seria precipitada e inócua. Se temos uma grave doença fiscal, temos que buscar os remédios que possam atacar a raiz dos problemas. Nada de paliativos. Após a reforma, aí sim, a economia voltará a crescer espontaneamente, já que a fada da confiança hipnotizará empresários e consumidores e os fará investir e gastar mais. Medidas pontuais são contraproducentes agora e desnecessárias no futuro.

Trata-se de estratégia de alto risco, que nos expõe a perigos evitáveis. Há dois processos cumulativos em marcha, ambos insustentáveis ao longo do tempo. Sabemos que caminham para a ruptura, mas nos dois casos não é possível dizer quando ela se dará. O primeiro é bem conhecido da equipe econômica, que a ele dedica merecida atenção. A trajetória da dívida pública em proporção do PIB tem de ser revertida. No acumulado dos últimos dez anos até 2018, o PIB nominal cresceu 119,6%, contra um aumento de 203% da dívida bruta do governo geral. Entre a posse da presidente Dilma em 2015 e posse de Bolsonaro, a relação dívida/PIB saltou de 58% para 77%. O descompasso é grande.

Tomando o PIB mensal estimado pelo Banco Central, percebe-se que a taxa anualizada de crescimento nominal do produto em abril último estava em 4,5%, praticamente metade do ritmo de crescimento da dívida, 9,1%. Neste passo, a dívida será 80% em setembro deste ano, passará para 90% em junho de 2022 e alcançará 100% do PIB no final de 2024. Ninguém sabe em que momento o mercado financeiro passará a assumir “rabugens de pessimismo” – outra expressão de Machado de Assis – e torcerá o nariz para financiar a rolagem da dívida.

A analogia com as finanças de uma família são aqui tão didáticas quanto toscas, já que o Brasil emite a moeda que resgata seus débitos e pode empurrar com a barriga pelo menos a dívida interna. Mas, mesmo que não se saiba quando seria a ruptura, sabe-se que esta trajetória de crescimento não pode seguir indefinidamente. 

Outro processo não sustentável, este negligenciado pela equipe econômica, é o crescimento do desemprego e suas implicações sobre a sustentação política do governo. Com a economia largada, temos 13,2 milhões de pessoas desocupadas, 5,2 milhões a mais que há quatro anos. Somando as pessoas que trabalham por conta própria e os empregados sem carteira assinada este contingente de desvalidos alcança 48,3 milhões de almas, 8,6 milhões a mais que em 2015. Da mesma forma que no caso da dívida, essa trajetória não é sustentável. Neste caminho, em algum momento, qualquer momento, a ruptura poderá se dar, o que significa a irrupção de uma crise política que este governo – ocupado com a tomada de três pinos e a cadeirinha das crianças – certamente não tem habilidade de contornar.

Podemos nos iludir pensando que é preciso endurecer agora para induzir o Congresso a votar as reformas, com a promessa de um nirvana logo a seguir. Trata-se de manobra de alto risco. Nada sugere uma recuperação instantânea da economia. Precisamos de medidas de estímulo, já. O raio de manobra é pequeno, mas é sempre possível fazer algo. Medidas paliativas, sim. Um anestésico que permita a operação do doente. O desemprego põe em risco a continuidade das reformas. 

* ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DA PUC-SP E DA FGV-SP. EMAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM 

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