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Quanto vale a palavra do BC

A próxima reunião de política monetária do Banco Central, marcada para os dias 26 e 27 de abril, acontecerá provavelmente logo após o plenário da Câmara dos Deputados votar o impeachment da presidente Dilma Rousseff, se não houver atrasos no calendário esperado para a tramitação do projeto.

Fábio Alves, O Estado de S. Paulo

31 Março 2016 | 05h53

A expectativa é de a votação no plenário da Câmara acontecer na segunda quinzena de abril. 

Depois do desembarque do PMDB da base aliada do governo, cresceu a probabilidade de o impeachment ser aprovado, resultando numa eventual troca de governo.

Aceito o pedido de impedimento na Câmara e enviado o processo para apreciação pelo Senado, como esperar qualquer mudança nos juros na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) em abril se o presidente do BC, Alexandre Tombini, estiver com os dias contados à frente da instituição? Mesmo que o Copom mantenha a taxa Selic inalterada nos atuais 14,25% ao ano, mas queira preparar o caminho para cortá-la nas reuniões seguintes, sinalizando isso no comunicado que acompanha sua decisão, quem vai acreditar nesse recado se o seu sucessor for linha dura?

Há tempos que a credibilidade do BC está arranhada, reflexo de erros de comunicação e da desconfiança de que sofre ingerência política desde que a presidente Dilma assumiu o poder.

A reputação de Tombini ainda não se recuperou do cavalo de pau dado no Copom de janeiro, quando levou o mercado a crer numa alta dos juros nos dias que antecederam a reunião para, na véspera da decisão, sinalizar a manutenção da Selic. O pretexto dele - a projeção mais pessimista do Fundo Monetário Internacional para a economia brasileira - não convenceu ninguém.

O exemplo mais recente de que as palavras de Tombini estão valendo pouco aconteceu na audiência dele na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, no último dia 22. Na ocasião, Tombini disse que o ambiente atual não permite trabalhar com a hipótese de “flexibilização das condições monetárias”, numa tentativa de descartar corte dos juros no curtíssimo prazo. 

O mercado ignorou o recado e, no mesmo dia, os contratos futuros de juros embutiam 33% de probabilidade de redução na Selic em abril. Na véspera, essa chance era de 24%. Ou seja, uma parcela nada desprezível do mercado preferiu não acreditar no que ele disse.

Hoje, o BC divulga o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de março, no qual incluirá novas projeções para a inflação e o Produto Interno Bruto. 

Com a queda recente na cotação do dólar frente ao real e a piora na atividade econômica, espera-se que o BC revise para baixo suas estimativas para a inflação deste ano em comparação com as contidas no documento anterior, de dezembro, o que, em tese, poderia alimentar as expectativas de redução da Selic. Se o RTI, de fato, indicar que o início do corte dos juros está mais próximo do que longe, mesmo que não aconteça em abril, essa mensagem terá vida curta?

A reunião seguinte ao encontro do Copom de abril acontecerá em 7 e 8 de junho, quando se espera que o Senado já tenha votado a autorização dada pela Câmara para o impeachment, levando ao afastamento da presidente por 180 dias. Em meio à crise política e ao elevado grau de incertezas que envolvem à economia, chegou-se a dizer que sobrou o BC para conferir algum semblante de que há um curso de ação a seguir. 

Com o desfecho mais próximo para o impeachment e os erros recentes de comunicação, nem isso. 

O desgaste das palavras de Tombini já tem gerado uma dificuldade maior para controlar as expectativas de inflação e permitir a redução de juros. A indefinição sobre o comando do BC pode aumentar esse custo.

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