Instagram/Emilia via Reuters - 25/01/2020
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Covid-19

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Quarentena na China por causa do coronavírus afetará a economia global

Isolamento deve afetar setores que vão do turismo às flores de plástico

The Economist

31 de janeiro de 2020 | 08h15

O Yu Garden, um enorme jardim com pagodes e lagos do século 16 no centro de Xangai, está todo enfeitado para os feriados do Ano Novo Chinês. Suas alamedas adornadas com lanternas coloridas, barracas repletas de dumplings (um bolinho recheado), as entradas guardadas por dezenas de seguranças para organizar a multidão de visitantes. Mas o que está faltando são as pessoas. Temerosas do coronavírus, elas permanecem em suas casas. “Terei um bom dia se vender qualquer coisa hoje”, diz Li Xinming, gerente de uma lojinha de lenços de seda. No ano passado o Yu Garden recebeu 700 mil visitantes durante esses feriados do Ano Novo Chinês, o auge da temporada para o parque e para os comerciantes. Este ano, diz Li, seus prejuízos vão afetar seus ganhos durante meses. 

A dúvida da China e de muitas companhias e países em todo o mundo ligados à sua economia é se as dificuldades de Li são o sinal de um problema muito maior. O óbvio ponto de referência é a batalha que a China enfrentou com a epidemia da Sars, outro coronavírus, em 2003. O crescimento desacelerou rapidamente no auge da epidemia, mas o país se recuperou também rápido depois de ela ser contida. Outras epidemias recentes reforçaram a impressão de que os economistas não deviam ficar preocupados, uma vez que bons médicos estavam trabalhando. Nem a gripe aviária de 2006 ou a gripe suína em 2009 obscureceram as boas perspectivas globais. 

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Mas mesmo investidores arrojados se perguntam se o novo surto pode ser pior. As ações em Hong Kong sofreram uma queda de mais de 5% com o aumento das infecções reportadas. Os tremores também se fizeram sentir nos mercados globais. 

A preocupação é menos com a gravidade deste vírus, que parece menos letal do que o vírus da Sars, e mais  com a natureza e a duração potencial dos esforços da China para controlar a epidemia. E uma perturbação na China, segunda maior economia do mundo, tem consequências globais. “Não é a doença. É o tratamento”, escreveram analistas da consultora Gavekal Dragonomics. O Banco Mundial estima que, como 90% dos danos econômicos provocados por epidemias provêm do temor das pessoas de se aproximarem umas das outras, isso leva escritórios e lojas a fecharem. Na China, o problema é ampliado pela política de isolamento adotada pelo governo, limitando o contato entre as pessoas em todo o país. Se de um lado os especialistas em saúde pública questionam se essa é a estratégia correta, os economistas já estimam os custos. 

O impacto mais direto é sentido na província de Hubei. Primeiro, Wuhan, sua capital, foi colocada em quarentena. E, depois, o resto da província, com uma população de 59 milhões de pessoas, foi isolada. Salvo caminhões de alimentos e suprimentos médicos, poucos são autorizados a entrar ou sair de cidades e vilarejos. Esse confinamento em larga escala não tem precedentes como estratégia de saúde pública. A atividade econômica de todos os tipos, salvo a assistência hospitalar e filmes online, está paralisada. Hubei gera 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB) da China, de modo que esse isolamento vai provocar enormes prejuízos.

Outras cidades na China podem não estar em quarentena, mas os moradores têm a sensação de estar. Em vez de se reunirem com a família e amigos, ir aos templos, feiras ou restaurantes, todos, dependendo de onde vivem, se fecharam. O governo os incentiva a evitar multidões.

Isso afetará o consumo. A extensão dos danos dependerá de quanto tempo será necessário para conter o vírus. No ano passado as vendas alcançaram US$ 144 bilhões durante a semana do Ano Novo Chinês, um terço a mais do que uma semana normal. Este ano, seguramente, elas devem cair muito.

Alguns setores vêm sendo atingidos duramente. Os feriados do Ano Novo Chinês responderam por 9% das receitas das bilheterias de cinemas no ano passado. Este ano, praticamente todas as 11 mil salas de cinema do país estão fechadas. Os gastos do turismo doméstico durante a semana de férias chegaram a mais de US$ 72 bilhões em 2019, 8% do total anual. Este ano, temerosas do vírus, as pessoas cancelaram viagens.

Há também preocupações sobre como o vírus afetará fábricas e escritórios. Vários centros econômicos importantes, incluindo Xangai e a província de Guangdong, ampliaram a folga do feriado por mais uma semana, pedindo às companhias para aguardarem até 10 de fevereiro para retomarem os trabalhos. As empresas chinesas sempre são mais lentas para recuperar a velocidade após os feriados. A semana de folga extra vai torná-las ainda mais lentas, mesmo que algumas companhias, como a Tencent, permitam aos empregados trabalharem de casa. Além disso, dezenas de milhões de trabalhadores imigrantes, de volta ao seu país de origem para passar os feriados, terão de aguardar uma regressão da epidemia antes de pegar trens e ônibus lotados para voltarem ao trabalho.

Sinto sua dor 

Uma diferença crucial comparada com a Sars é a importância da China para o resto do mundo. Em 2003, a China gerava 4% do PIB global. No ano passado, esse porcentual era de 16%. A desaceleração do consumo e a interrupção da produção não vão  parar nas suas fronteiras.

Países acostumados com as multidões de turistas chineses, que gastam muito nas viagens, já enfrentam problemas. O governo da China ordenou a suspensão de todo o turismo em grupo até a contenção do vírus. Na Tailândia, as autoridades acreditam que o número de visitantes chineses deve cair em dois milhões, para nove milhões, este ano, reduzindo as receitas do turismo em cerca de US$ 1,5 bilhão. Os preços das passagens aéreas despencaram. A epidemia passada causou uma redução enorme, mas temporária, do tráfego de passageiros e a China é o maior mercado do mundo no tocante a viagens internacionais de turistas.

Os negócios voltados para a classe média chinesa, que vêm crescendo rapidamente, também estão vulneráveis. A rede Starbucks fechou temporariamente mais da metade das suas 4.292 cafeterias na China. O número de clientes naquelas ainda abertas é pequeno, com algumas cafeterias colocando cartazes informando que as pessoas só podem entrar com máscaras faciais. As vendas de máscaras são, na verdade, o único fator positivo, para empresas como a 3M. A Disney fechou seu parque em Xangai no feriado de Ano Novo (o que provocou de ofensas a danos). A China entrou no chamado Ano do Rato, e o termo chinês para ratos também é usado para camundongos, uma excelente oportunidade de marketing para uma marca se desenvolver em torno dele.

O fechamento de fábricas ocorrerá em cascata por toda a economia global. Wuhan é um centro de produção, especialmente para o setor automotivo. Nissan, Honda e General Motors, entre outras, têm fábricas ali. A Bloomberg classifica Wuhan em 13.º lugar entre as duas mil cidades chinesas por seu papel nas cadeias logísticas. Uma empresa local, a Yangtze Optical Fibre and Cable, é a maior fabricante do mundo de cabos, que transportam dados por todo o planeta.

Mesmo se as paralisações de trabalho em outros lugares forem menores, elas também serão um risco para uma ampla gama de setores, e alguns são de importância fundamental: cerca de 80% dos ingredientes ativos de todos os remédios vêm da China. Outros, menos: a China fornece quase 90% das flores de plástico no mundo.

Muitas empresas já estavam trabalhando para reduzir sua dependência das fábricas chinesas por causa da guerra comercial com os Estados Unidos. O vírus é um poderoso lembrete de que uma base diversificada de fornecedores é uma boa política de segurança. Mas o ano passado ofereceu uma lição de quão difícil é isto: apesar da tensão com os EUA, a parcela das exportações globais da China na verdade aumentou. As empresas terão dificuldade para encontrar substitutos para sua potência na manufatura.

Tudo isso computado e a economia chinesa deve ter um início sombrio do Ano do Rato. E isto cria um clima lúgubre globalmente. Chen Long, da consultora Plenun, acha que o crescimento da China pode cair para 2% no primeiro trimestre, o mais baixo em décadas, em comparação com os 6% no último trimestre de 2019. Mas ele acredita numa forte recuperação quando o país voltar à normalidade. As pessoas voltarão a se aglomerar nas lojas e restaurantes. As fábricas estarão a todo o vapor para compensar o tempo perdido. Para dar ímpeto a essa recuperação, as autoridades aumentarão os gastos com infraestrutura.

O desconhecido é quando essa normalidade voltará. No Yu Garden, Li não pode esperar. Com os negócios parados, ele pediu para seus três ajudantes permanecerem em casa, sem receber salário - o que é típico nas pequenas empresas da China. O número de mortes decorrentes do vírus permanece baixo. Mas o país inteiro está pagando um preço. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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