Quase 20% das lojas têm estoque elevado

Acúmulo de volumes no comércio deve esfriar as encomendas para o fim de ano

MÁRCIA DE CHIARA , O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2012 | 03h07

Os estoques ainda elevados nas lojas e a antecipação de consumo de geladeiras, fogões, máquinas de lavar e carros, provocada pelo corte dos impostos sobre esses produtos durante os últimos meses, jogam contra o crescimento significativo no volume de encomendas do comércio às indústrias para este fim de ano.

Entidades representativas do comércio projetam elevação do volume de vendas no varejo em dezembro na casa de um dígito e inferior ao resultado obtido no mesmo mês do ano passado, quando as vendas aumentaram 6,7% na comparação com 2010, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP) projeta crescimento entre 4% e 5% nas vendas de dezembro deste ano em relação às de 2011. Já a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) leva em conta uma alta de 3% a 4%, nas mesmas bases de comparação.

Isoladamente, no entanto, varejistas têm prognósticos mais favoráveis, com taxas de crescimento de dois dígitos para o fim do ano. Nessa conta, eles consideram a hipótese que vão conseguir conquistar fatias de mercado da concorrência.

Mas o peso dos estoques ainda incomoda o varejo. Pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC) com 6 mil varejistas mostra que quase 20% das empresas do comércio consultadas informaram que tinham um volume de produtos acima do adequado no mês passado. "O consumo antecipado e o estoque alto no varejo podem jogar areia no Natal", avalia o chefe do Departamento Econômico da CNC, Carlos Thadeu de Freitas.

Na indústria o cenário é diferente. Prévia da sondagem da Fundação Getúlio Vargas (FGV) deste mês revela que os fabricantes de bens duráveis já conseguiram passar para frente o encalhe de itens de consumo de maior valor, como automóveis e televisores.

Uma prova de que o ajuste está em curso nas fábricas é que, nesses dois segmentos, televisores e automóveis, cresceu este mês a fatia de empresas que já começam a ter volumes insuficientes para atender a demanda. "Os estoques na indústria tiveram um ajuste por causa das medidas de desoneração que foram tomadas", observa o consultor da FGV, Jorge Ferreira Braga. Tanto é que há fila para compra de alguns modelos de veículos.

Porém o ajuste de estoques na indústria não é generalizado entre os setores. No segmento de vestuário e calçados, por exemplo, 9% das empresas estão com volume excessivo de produtos este mês, ante 10,3% delas em agosto. Por dois meses seguidos, agosto e setembro, não há empresas desse segmento com estoques insuficientes, revela a sondagem.

Conta-gotas. Na Zona Franca de Manaus, que concentra a produção de eletrônicos e motos do País, as encomendas para o Natal estão a conta-gotas, diz o presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), Wilson Périco.

A cautela para fechar pedidos de fim de ano, segundo o economista da ACSP, Emilio Alfieri, ocorre porque "ninguém quer ficar estocado". Há lojistas, diz ele, que vão esperar o desempenho do Dia da Criança, que funciona como um bom termômetro do Natal, para fazer as encomendas para dezembro.

Segundo Périco, a variações nos volumes encomendados para o fim de ano são muito discrepantes entre os setores. No caso de televisores, que são produtos que têm um forte apelo de renovação tecnológica, como os televisores 3D e as TVs fininhas, com tela de cristal líquido (LCD na sigla em inglês), a perspectiva é um acréscimo de entre 8% e 10% no volume de pedidos em relação ao ano passado. Para os telefones celulares, ele projeta crescimento de 5% nas encomendas.

Já os volumes de aparelhos de ar condicionado, de aparelhos de som e de motocicletas devem recuar em relação a 2011. No caso das motos, a queda deve oscilar entre 20% e 25%.

"Não dá para ficar muito animado. Se conseguirmos repetir o faturamento de US$ 41 bilhões do ano passado na Zona Franca, vamos soltar foguete", diz o presidente do Cieam. Até junho, o faturamento em dólar das indústrias da Zona Franca tinha caído 10%. "Em julho e agosto as vendas foram muito fracas", acrescenta.

Inadimplência. Na avaliação do economista Flávio Calife, da Boa Vista Serviços, empresa especializada em informações sobre a solvência do consumidor, "é cedo para acreditar num bom fim de ano para o varejo".

Ele pondera, no entanto, que, com a estabilização e até o recuo apontado por vários indicadores de inadimplência do consumidor em agosto e neste mês, além do vigor do mercado de trabalho e das medidas de afrouxamento monetário, as perspectivas para o fim de ano melhoraram em relação ao cenário traçado meses atrás. "Se conseguirmos empatar neste Natal com o de 2011, será um ótimo resultado", avalia Freitas, da CNC.

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