Gabriel Andrade/Estadão
Gabriel Andrade/Estadão

Quase mil empresas brasileiras já recebem em criptomoedas

Prefeituras, como a do Rio de Janeiro, também já planejam incorporar moedas digitais às possibilidades de pagamento

Thaís Barcellos e Célia Froufe, O Estado de S. Paulo

30 de abril de 2022 | 14h00

Um quarto dos brasileiros está disposto a pagar produtos e serviços com criptomoedas, diz a pesquisa da Crypto Literacy de 2021. E esse desejo já começa a virar realidade, com mais de 900 estabelecimentos no Brasil que aceitam esses ativos em pagamentos, segundo a CoinMap. No mundo, já são quase 30 mil.

A regulação desse mercado avançou no Senado nesta semana e agora precisa da aprovação final na Câmara. Mesmo assim, empresas como Wine e Visa já têm opções para pagamentos com criptomoedas e o Rappi pode expandir a experiência iniciada no México. Dentre os governos, a prefeitura do Rio de Janeiro anunciou que o IPTU poderá ser pago assim já em 2023.

Para atender ao desejo de alguns clientes, a Wine decidiu entrar nesse mercado no mês passado. Por enquanto, o pagamento com Bitcoins (única criptomoeda aceita no momento) pode ser feito só pelo aplicativo da empresa, mas aos poucos a intenção é liberar para o site e demais canais de compra. “Acreditamos que será mais comum o uso de criptomoedas num futuro próximo e a forma de pagamento é também uma forma de atrair clientes”, disse o diretor financeiro da companhia, Clayton Freire.

Em 2021, o investimento em criptoativos no Brasil alcançou US$ 5,995 bilhões, segundo dados do Banco Central, o maior volume anual desde que o órgão começou a registrar as operações em 2017. Os dados até fevereiro mostram continuidade do crescimento, acumulando US$ 6,210 bilhões.

No caso da Wine, o diretor revelou que as transações por meio dessas moedas “ainda não estão muito altas”. “Como o volume ainda é pequeno, dá para fazer as operações com ferramentas próprias, mas já estamos vendo uma alternativa mais moderna”, diz.

As criptomoedas são conhecidas pela alta oscilação de valores. A empresa, porém, não transaciona diretamente com Bitcoins e recebe o montante em reais por meio da conciliadora, a empresa que faz a operação. “Não tem volatilidade de variação. Isso é para o cliente. Para a gente, o preço não muda.”

Para o professor de finanças da FGV-EESP e especialista no tema, Jefférson Colombo, as dificuldades de precificação e a grande volatilidade são desafios para o uso como meio de pagamento recorrente, além da falta de regulamentação.“O fato de ter 900 lugares que aceitam criptomoedas como forma de pagamento não significa que as pessoas vão transacionar”, diz Colombo.

Rio vai aceitar pagamento do IPTU com cripto 

A cidade do Rio de Janeiro deu o pontapé inicial para se projetar como um polo para o mercado de criptoativos no Brasil, anos depois de perder a Bolsa de Valores para São Paulo. A prefeitura já anunciou que os cariocas vão poder pagar o IPTU com criptomoedas a partir de 2023, tornando-se a primeira cidade do País a oferecer essa alternativa. 

A administração municipal pretende ampliar a iniciativa para outros impostos e incentivar o desenvolvimento do mercado no Rio por meio de aplicações do Tesouro municipal e do estímulo à cultura e ao turismo por meio de NFTs. No futuro, o objetivo é que as criptomoedas sejam usadas em serviços do dia a dia, como em uma corrida de táxi.

Começando pelo IPTU, a secretária municipal de Fazenda e Planejamento, Andrea Senko, diz que o objetivo é estimular a circulação de moedas digitais na cidade. “A Prefeitura do Rio busca criar o ecossistema ideal para o desenvolvimento de um mercado sólido de criptoativos na cidade”, diz. “Há cases de sucesso no mundo que seguiram na mesma linha e serviram de benchmark para o município, como os estados de Ohio (EUA) e Ontário (Canadá)”, completa.

À frente da secretaria de Fazenda na época do anúncio do projeto, em parceria com a pasta de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Simplificação, o deputado federal Pedro Paulo (PSD-RJ) destaca que o desenvolvimento do mercado de criptoativos na cidade tende a gerar empregos de qualidade. “É um mercado que cria empregos especializados e bem remunerados. A prefeitura vem investindo em novos mercados, também no de ativos sustentáveis, em vez de ficar brigando pela Bolsa de Valores com São Paulo”, destaca.

Embora o mercado ainda não seja regulamentado, a avaliação da prefeitura é de que não há impedimento legal para oferecer essa alternativa aos contribuintes, até porque a prefeitura vai receber os valores em reais, após conversão de empresas especializadas. No momento, o governo trabalha na elaboração de um edital para o credenciamento das empresas, que exigirá registro no Brasil e parceria com um banco credenciado à Federação Brasileira de Bancos (Febraban), para repassar o valor em reais para o município.

Escolha da moeda

A prefeitura não limitará o pagamento a uma moeda digital, como o Bitcoin, mas a secretária Andrea Senko explica que isso dependerá das corretoras que estiverem habilitadas a fazer a conversão para reais. O município deve já testar o método de pagamento no segundo semestre para viabilizar a operação para o pagamento do IPTU em 2023. A expectativa não é de adesão muito alta no início.

O Rio também está trabalhando em uma metodologia de investimento em criptoativos e um modelo de governança para a tomada de decisão em aplicações do Tesouro municipal. Segundo Andrea Senko, será criado o Comitê Municipal de Criptoinvestimentos para refinar a metodologia, com base na análise de risco versus rentabilidade e nas regras e limitações do uso do dinheiro público. 

 

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