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Quase nos dois dígitos

Essa inflação é resultado da falta de confiança e da desancoragem das expectativas que vêm provocando o climão geral do salve-se quem puder

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2015 | 21h00

Faltou um nadinha para que a inflação de outubro medida em 12 meses chegasse aos dois dígitos. Parou nos 9,93%. Em novembro, bastará que seja de 0,58% para que os 10% sejam ultrapassados.

Mês a mês, a inflação está em alta, como mostra o gráfico ao lado. Há algum tempo, alguns analistas, mais torcedores (ou distorcedores) do que analistas, porque pretendem que o Banco Central derrube os juros na marra, vinham afirmando que não há campo para o avanço da inflação: o consumo está desabando, a produção, também, o desemprego já beira os 8% e poderá saltar para os dois dígitos. Nesse deserto, argumenta essa gente, não pode crescer inflação. E, no entanto, cresce.

A primeira explicação, um tanto simplista, é a de que essa esticada tem a ver com a forte recomposição dos preços administrados - aqueles que são determinados pelo governo, e não pela disparada da demanda - como tarifas de energia elétrica, telefone e combustíveis. (Esses preços permaneceram represados ao longo dos últimos três anos do governo Dilma, porque o objetivo era garantir condições favoráveis à reeleição.)

Como pesam cerca de 25% no custo de vida, de fato os preços administrados produzem um baita estrago, como o gráfico no Confira está mostrando. Em outubro, por exemplo, o maior impacto foi produzido pela alta das tarifas de transporte que, por sua vez, tem a ver com o reajuste dos combustíveis.

Mas isso não explica tudo. A inflação não está concentrada nos preços administrados, como argumentam os que pretendem derrubar imediatamente os juros. Ao contrário, segue muito espalhada. O índice de difusão, que mede o número de itens da cesta de consumo que apresentaram alta em outubro, foi de 67%. O setor de serviços, que sozinho produz mais de 70% da renda nacional e sofre baixo impacto das importações, segue resistente. No período de 12 meses terminado em outubro, acusa alta de 8,34%. Ou seja, apesar da queda do poder aquisitivo, os prestadores de serviços continuam com espaço para impor remarcações de preço, o que sugere a persistência de pressões de demanda.

Olhando um pouco mais fundo, essa inflação é resultado da falta de confiança e da desancoragem das expectativas que vêm provocando o climão geral do salve-se quem puder. Daí, o aumento da velocidade das remarcações.

A compressão da demanda por meio da redução de dinheiro na economia (juros altos) não dá conta do combate à inflação porque o governo segue gastando demais. Além disso, vêm aí novos reajustes das tarifas de energia elétrica e de transportes urbanos. E o governo promete ainda mais aumento de impostos, fator que também terá impacto inflacionário, especialmente se vier com aumento da Cide, o tributo incorporado aos preços dos combustíveis. Com tanta crise política e perspectiva de alta do dólar no mercado global, não se sabe para onde vai o câmbio aqui dentro.

Enfim, como sabe todo aprendiz de Economia, inflação alta é sintoma de bagunça. É um jeito que a economia encontra de comer renda da população e de, assim, reencontrar o equilíbrio no meio das distorções.

CONFIRA:

O gráfico mostra como evoluíram nos últimos dois anos tanto os preços administrados (os regulados pelo governo) quanto os preços livres.

É deflação

Muitas vezes, o governo Dilma culpou a crise externa pelos problemas da economia brasileira. Isso não vale para a inflação. Com o tombo dos preços do petróleo e das commodities, nos países avançados, o risco é de deflação - e não de inflação. As projeções para todo este ano são estas: Estados Unidos, 0,3%; China, 1,6%; Japão, 0,7%; Inglaterra, 0,1%; área do euro, 0,1%; Austrália, 1,7%.

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