Wilton Júnior/Estadão
Na pandemia, Estado aumentou gastos com medidas como o auxílio emergencial Wilton Júnior/Estadão

Quase um ano após início da pandemia, papel do Estado e destino do liberalismo são alvos de debate

‘Estadão’ ouviu Chicago Boys, economistas e banqueiros brasileiros para tentar prever como ficarão as políticas econômicas no Brasil e no mundo nos próximos anos

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2021 | 11h00

O gasto público dos países estourou em 2020 com a pandemia. Governos em todo o mundo saíram correndo para socorrer empresas e empregos. Desigualdades se exacerbaram, e o debate em torno do papel do Estado na economia, como acontece de tempos em tempos, foi ressuscitado.

No Brasil, onde a Escola de Chicago - universidade americana berço do neoliberalismo - estava mais em voga do que nunca desde a chegada de Paulo Guedes ao Ministério da Economia, o modelo liberal acabou perdendo força. Assim como em grande parte do mundo, a austeridade fiscal foi posta de lado para que a população pudesse ser socorrida, e economistas questionam se ela será retomada.

Para tentar entender por onde o mundo e o Brasil vão navegar nos próximos anos, o Estadão conversou com economistas e banqueiros brasileiros, além de dois Chicago Boys originais e, portanto, veteranos de Paulo Guedes na Universidade de Chicago. Os dois chilenos com formação nos Estados Unidos divergem quanto ao melhor rumo econômico a ser adotado, mas concordam que o aumento do tamanho e da atuação dos Estados na economia não é uma mudança de curto prazo.

Ambos tiveram, entre os anos de 1955 e 1964, seus estudos em Chicago bancados pelo governo americano. Enquanto um afirma que “infelizmente” deverá haver uma maior regulação da atividade a partir de agora, outro comemora os sinais de uma mudança em direção a um Estado “promotor de desenvolvimentos produtivos”.

No Brasil, a discussão vai além da questão da permanência de um Estado maior na economia nos próximos anos. O debate também abarca questionamentos em relação à falta de capacidade de Guedes para implementar as políticas liberais que havia prometido. Nos dois primeiros anos à frente da Economia do governo Bolsonaro, ele conseguiu aprovar apenas a Reforma da Previdência - o que só foi possível com o empenho de grande parte dos congressistas.

 

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'História sugere aumento dos gastos', diz Chicago Boy

Para economista, porém, seria possível evitar esse incremento com reformas e reorganização dos gastos

Entrevista com

Rolf Lüders, ministro da Economia do Chile em 1982 e da Fazenda em 1982 e 1983

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2021 | 11h00

Rolf Lüders foi ministro da Economia e da Fazenda da ditadura Pinochet. Hoje professor da PUC do Chile, afirma que a pandemia evidenciou deficiências da ação do Estado e que, apesar de esses problemas poderem ser corrigidos com modificações nos gastos e reformas, duvida que isso aconteça. “A prática histórica sugere que esse não será o caso”, afirmou por e-mail.

Lüders lamenta o fato de que, provavelmente, haverá um aumento permanente da interferência do Estado na economia, mas considera positivo o resultado econômico do Brasil em 2020 - influenciado justamente pela expansão do gasto público. “Se julgarmos o que aconteceu exclusivamente do ponto de vista do crescimento econômico e em relação às demais grandes economias da região, o Brasil teve uma queda do PIB muito menor. (…) . Você pode pedir muito mais?”, questiona.

Em todo o mundo, os governos foram mais ativos na economia no ano passado. Essa tendência deve continuar?

De fato, a grande maioria dos países, senão todos, aumentou os gastos fiscais para ajudar os desempregados e adotar medidas de saúde. Esse aumento nos gastos do Estado, anticíclico, é de curto e médio prazos e corresponde ao que os economistas chamam de política macroeconômica. Em relação a uma mudança estrutural, ou seja, a um aumento permanente da interferência do Estado na economia, seja em gasto social ou em regulação da atividade, infelizmente, é muito provável que isso seja observado, porque a pandemia revelou, em um grande número de países, deficiências importantes na ação do Estado. Apesar de que a maioria dessas deficiências pode ser remediada com uma reforma do Estado que modifique os gastos, em vez de aumentar os gastos e as regulações existentes, a prática histórica sugere que não será esse o caso.

Os chilenos aprovaram, no ano passado, a elaboração de uma nova Constituição. É provável que, com essa nova Constituição, o Estado chileno cresça. Como avalia a decisão dos chilenos? Acredita que seja uma rejeição ao sistema econômico?

Provavelmente existe um pouco disso. Muito se tem falado sobre o "modelo neoliberal", em referência ao sistema atual, e que seria desejável modificá-lo para uma "social-democracia" ou, ainda, para um "socialismo do século XXI". Gosto de distinguir entre “sistema” e “modelo” econômico, sendo o primeiro um conjunto de princípios que orientam a atividade socioeconômica e o segundo, sua aplicação em todos os momentos, situação que depende da evolução das preferências dos eleitores . O Chile adotou décadas atrás uma economia social de mercado, em vez de outros sistemas possíveis, como uma economia centralizada, mista ou liberal. O seu modelo evoluiu, nas últimas décadas, de uma economia relativamente fechada ao comércio internacional, com elevada intervenção discricionária do Estado, para uma economia aberta e com papel subsidiário do Estado. Não há dúvida de que no Chile o modelo mudará, mas tenho esperança de que o sistema não.

Como avalia os protestos no Chile que resultaram no plebiscito por uma nova constituição?

Minha explicação preferida - a questão, com certeza, tem mais de uma causa - está relacionada com a frustração de expectativas depois de anos de queda significativa da taxa de crescimento econômico do país. Isso se traduziu em problemas financeiros em muitos lares, que começaram a gastar mais que suas rendas. Foi nesse momento que a redistribuição da renda - sem dúvida - desigual pareceu como uma possível solução à situação. Não parecia haver tanto um clamor por uma mudança no sistema econômico-social, mas um pedido por mudança de objetivos, de crescimento e redução de pobreza a uma justiça distributiva mais favorável à classe média.

O governo decidiu que as empresas também devem colaborar com a previdência dos trabalhadores. Acha que era necessário?

Nessa área, que é prioritária, segundo as pesquisas com a população, também estão fazendo o que é possível para alcançar um pacto amplo. As aposentadorias do Chile não são baixas porque o sistema de capitalização não funciona. As poupanças foram bem administradas a um custo razoável. As aposentadorias são baixas porque não modificaram os parâmetros: taxa de colaboração e idade de aposentadoria. Agora vão introduzir um pilar solidário que será administrado por um ente autônomo. O fato de que as empresas agora também vão contribuir com as aposentadorias não é um problema, dado que o sujeito em que recai essa colaboração não muda em função de quem faça o cheque. Também não é problema a existência de um ente administrador autônomo, desde que haja concorrência. Pessoalmente, o que menos me convence do projeto que está sendo discutido no Congresso é que aumenta a complexidade de um sistema já muito difícil de compreender, exceto por especialistas.

O sr. conheceu o ministro Paulo Guedes em Chicago ou quando ele trabalhava no Chile?

É possível que tenhamos participado de algum seminário ou reunião de economistas, já que ele trabalhou um tempo na Universidade do Chile.

Como avalia sua política econômica?

Não tenho acompanhado a evolução da economia brasileira com profundidade. Entendo que foi aprovada uma reforma previdenciária que, embora não seja a originalmente aspirada pelo regime de Bolsonaro, tende a solucionar os principais problemas fiscais do regime anterior, fato que provavelmente está contribuindo para a baixa inflação do país. Como no resto do mundo, também no Brasil a política de saúde determinou em grande parte a evolução da economia em 2020. Se julgarmos o que aconteceu exclusivamente do ponto de vista do crescimento econômico e em relação às demais grandes economias da região, o Brasil teve uma queda do PIB muito menor, estimada em 4,4%, contra quedas de 10,5% e 9,1%, respectivamente, na Argentina e no México. E, em termos de projeções, essas três economias apresentam taxas de crescimento anual semelhantes, em média 2,5% ao ano, de modo que o Brasil atingirá seu nível de tendência muito mais cedo. Você pode pedir muito mais?

O sr. disse uma vez que talvez um governo não autoritário não teria conseguido adotar as reformas liberais que o Chile implementou durante a ditadura. Ainda acredita nisso?

Claro. Entre os anos 1950 e 1970, as economias desenvolvidas eram de mercado e os países em desenvolvimento - com exceção de três ou quatro economias asiáticas, de cultura poupadora e trabalhadora - tinham economias mistas ou centralizadas, com resultados ruins ou péssimos. Nesses anos, os especialistas, geralmente europeus ou americanos, eram semideuses e pregavam algumas variações de planificação econômica e social, além de protecionismo. Era o que havia e o que os tecnocratas de então propunha. Apesar dos seus resultados medíocres, essas políticas tinham um amplo apoio da população. Foi necessária uma grande crise e um governo autoritário para quebrar o paradigma existente. Hoje, há muitos exemplos de economias em desenvolvimento que abandonaram o arquétipo dos anos 1950, 1960 e 1970 e adotaram com sucesso, e na democracia, estratégias liberalizantes.

Acha, então, que o sucesso econômico é mais importante que a perda da democracia?

Não acho que seja possível comparar os custos de um regime autoritário com os benefícios de uma economia de sucesso que foi possível por esse regime. O que às vezes acontece é que determinados conflitos sócio-políticos se resolvem com a instalação de regimes autoritários ou, ainda pior, totalitários. E foi no contexto de uma situação assim que o Chile optou, no começo dos anos 1970, por uma economia de mercado livre, que, para mim, deu bons resultados. Esses resultados são frutos da lógica do tipo de economia adotada e não da institucionalidade política que a amparou. No entanto, é possível argumentar, como fazia Milton Friedman, que um regime que privilegia a economia de mercado, mais cedo ou mais tarde, vai optar por um regime político livre também.

Acredita que um governo autoritário não seja mais necessário?

Não, hoje há um ambiente que não exige impor reformas econômicas. Atualmente, há países em desenvolvimento que liberalizaram suas economias com sucesso. Além disso, a profissão de economista mudou em boa medida suas recomendações de política econômica, que antes favoreciam a planificação e o protecionismo e agora favorecem o funcionamento de mercados livres e competitivos e uma abertura internacional.

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'Há sinais de mudança em direção a um Estado mais condutor da economia', diz chileno

Economista-chefe do Banco Central do Chile antes e depois da ditadura, Ffrench-Davis se opõe às privatizações, mas afirma que estatais precisam se desburocratizar

Entrevista com

Ricardo Ffrench-Davis, economista-chefe do Banco Central do Chile entre 1964 e 1970 e entre 1990 e 1992

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2021 | 11h00

Apesar de ter se doutorado em Chicago, Ricardo Ffrench-Davis sempre foi contra os princípios do neoliberalismo e, agora, comemora o que vê como “sinais de mudanças em direção a um Estado com um papel mais condutor da economia, regulador dos mercados e promotor de desenvolvimentos produtivos que gerem mais empregos”.

Opositor de privatizações por acreditar que elas não promovem investimento produtivo, o ex-economista-chefe do Banco Central chileno e hoje professor da Universidade do Chile afirma que as estatais precisam se desburocratizar e investir em inovação. “As empresas nas mãos do Estado têm de fazer um grande esforço de inovação e de desburocratização”, diz ele, que assistia as aulas de Milton Friedman em Chicago. “Achava e continuo achando que Friedman acreditava demais no mercado. Era brilhante, um grande expositor, mas tinha essa visão extrema.”

Em todo o mundo, os governos foram mais ativos na economia no ano passado. Essa tendência continuará?

Em meio à incerteza atual, há sinais no mundo de mudanças em direção a um Estado com um papel mais condutor da economia, regulador dos mercados e promotor de desenvolvimentos produtivos que gerem mais empregos. A redução da desigualdade também se alcança com estruturas produtivas inclusivas. Isso foi o que fez a Europa Ocidental no pós-guerra e também Coreia do Sul e Taiwan. Vejo uma consciência crescente em relação à gravidade da volatilidade excessiva dos capitais financeiros, seu papel especulativo e daninho para os investimentos produtivos e para a inovação. Essa volatilidade cria booms, seguidos por recessões intensas, como em 1982, 1995, 1999, 2008, 2012-13. E isso hoje é criticado até mesmo pelo FMI e por prêmios Nobel de Economia. A América Latina deveria observar mais isso e refletir com atenção e criatividade.

Os chilenos aprovaram, no ano passado, a elaboração de uma nova Constituição. É provável que, com essa nova Constituição, o Estado chileno cresça. Como avalia a decisão dos chilenos?

O resultado foi muito promissor e surpreendente. Espero que o Estado recupere as funções essenciais que a ditadura lhe tirou e cuja ausência é a causa da situação crítica que o Chile vive hoje. A Nova Constituição não resolve os problemas, mas pode nos libertar de amarras regressivas e imobilizadoras, apagar os resíduos ditatoriais e a sombra de Pinochet. Pode dar espaço às forças democráticas para convergirem e iniciarem uma nova etapa de desenvolvimento que, entre outras coisas, requer um crescimento vigoroso, inovador e inclusivo, novos direitos e novos deveres. É fácil destruir devido ao mal-estar com o declínio econômico, social e político dos últimos anos. É difícil construir e ser persistente ao longo do tempo. O debate começou. Agora o Chile tem uma nova oportunidade de retomar o caminho de desenvolvimento que escolheu em 1990. 

Como avalia os protestos no Chile que resultaram no plebiscito por uma nova constituição?

Um acúmulo de variáveis culminou neles. O Chile que herdamos da ditadura tinha uma renda per capita inferior à média da América Latina. É um grande erro quando se diz que o Chile da ditadura cresceu e todos estavam contentes. Hoje o país tem a maior renda per capita da região e 50% acima da média da região, mas a grande melhora veio nos primeiros oito ou nove anos da democracia. Depois começamos a perder impulso e entramos em vários ciclos econômicos de recuperação seguidos de queda, e muitos erros em outros âmbitos. Há uns seis anos, muitos começaram a regressar da universidade sem encontrar um bom emprego. Apareceram também escândalos de policiais envolvidos em milícias e de acordos fraudulentos entre empresários, a quem se aplica uma multa muito pequena, em vez de prendê-los. Isso foi se somando nos últimos anos e gerando um grave distanciamento da elite dirigente.

Para o sr. então o fato de Chile ser o país mais rico da América Latina tem a ver com a política econômica dos primeiros anos após a ditadura e não com o programa dos Chicago Boys?

Exato. O salto se deu na democracia, principalmente nos anos 90. Na ditadura, houve grandes quedas e grandes recuperações, com um crescimento médio anual do PIB medíocre. No Chile, com a ditadura, a média de investimento foi de 17% do PIB. Na democracia, a taxa de investimento cresceu para 25%, nos anos 90. Isso ocorreu porque não havia um entorno econômico que favorecesse novos investimento. Era muito conveniente comprar empresas existentes. Empresa que o governo vendia a preços de liquidação. Não se criava novas empresas e o mercado de capitais era muito de curto prazo. Na ditadura, houve duas quedas grandes e depois uma recuperação. Quando se recuperou, houve muita publicidade internacional e isso deixou a imagem de que crescemos muito por causa da política neoliberal. Mas cresceu muito depois de uma grande crise. O que interessa é a soma das duas coisas. E o problema é que, quando o PIB caiu, foi mais intenso sobre os mais pobres e o investimento também caiu muito. O resultado foi depressão e regressividade.

O crescimento que veio na democracia não tem relação com as medidas neoliberais adotadas durante a ditadura?

É difícil acreditar que as reformas necessitem tanto anos para mostrar resultados positivos. Nas duas metades da ditadura, a economia cresceu cerca de 3%. Nos nove primeiros anos de democracia, o crescimento superou 7% e houve melhoras na distribuição de renda. O que herdamos (da ditadura) foi o esforço exportador, que foi mantido, mas com maior valor agregado. Mas a grande diferença foi no resto da economia nacional: reforma progressista tributária, restabelecimento de direitos trabalhistas, política econômica contra-cíclica com regulação de fluxo de capital financeiro, controle da taxa de câmbio para evitar grandes oscilações, apoio às pequenas empresas, acordos público-privados, diálogos entre trabalhadores, empresários e governo, além de um ambiente de confiança com um presidente carismático e preocupado com inclusão. Tudo isso representou mudanças significativas. Outras mudanças, para dar sustentabilidade ao crescimento, que logo foi se perdendo, não puderam ser feitas por causa dos amarres impostos pela Constituição herdada de Pinochet. Também foi se perdendo o impulso reformado e inovador público e privado. Nova Constituição e novos impulsos transformadores é o que a maioria dos chilenos deseja hoje para recuperar o crescimento e combater a desigualdade.

Como vê as medidas econômicas dos primeiros anos do governo Bolsonaro?

Elas incluem uma cópia lamentável dos grandes erros da ditadura no Chile. Vocês fizeram uma reforma da Previdência. Nós estamos agora corrigindo a reforma da ditadura (que criou o sistema de capitalização). A ex-presidente Michelle Bachelet já fez uma grande reforma em 2008 (que introduziu um pilar solidário). Entendo que o governo Bolsonaro pretende fazer privatizações. Há algumas empresas estratégicas que acho lamentável privatizar, como de energia elétrica e água. Mas há coisas que penso que o Estado não precisa fazer, como produzir macarrão ou estar em pequenas e médias empresas, porque isso distrai as autoridades das prioridades. O problema é que em vez de os recursos privados serem destinados a novas empresas ou à expansão das atuais, eles acabam indo para comprar o que já existe, através das privatizações. Além disso, não há um mercado de capitais de longo prazo e provavelmente as vendas das empresas vão ser feitas a preços baixos. Tudo isso ocorreu no Chile. Aqui foram vendidos pacotes de ações num capitalismo concentrador. Houve uma liberdade econômica que concentrou renda e criou muito pouca capacidade produtiva nova. Não repitam o mesmo acreditando que isso fez bem ao Chile, porque não fez.

Como foi para o sr. saber, em 2018, que um aluno de Chicago estava assumindo a Economia do País?

Inquietação, porque dava sinais de admiração pelas reformas neoliberais chilenas, incluindo o sistema previdenciário, que hoje passa por uma reforma profunda. Pensei que haveria privatizações e que se criaria poucas novas empresas, apenas compra do que já existe. A mensagem é que não vai haver incentivo ao investimento produtivo. É preciso incentivar a produção, a compra de máquinas e a criação de novas empresas privadas. Além disso, as empresas nas mãos do Estado têm de fazer um grande esforço de inovação e de desburocratização, ao invés de apenas vendê-las massivamente.

O sr. estudou em Chicago mas não concorda com a política liberal difundidas pela instituição. Já tinha essa posição antes de Chicago?

Sim, mas isso foi se aprofundando. Quanto mais aprendia e analisava economias reais, mais me afastava da posição de que o mercado sabe tudo. Claro que o mercado é muito importante. O problema é como os mercados operam: se o administramos ou eles nos administram. Tinha 23 anos quando fui a Chicago, não sabia muito, mas sabia que era a universidade de Friedman e de sua visão. Achava e continuo achando que Friedman acreditava demais no mercado. Era brilhante, um grande expositor, mas tinha essa visão extrema. Mas nem todos em Chicago eram iguais, havia professores pragmáticos e progressistas.

 

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Quem são os Chicago Boys

Apelido surgiu quando chilenos cujos estudos foram bancados por governo americano voltaram dos EUA

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2021 | 11h00

Os Chicago Boys surgiram com essa alcunha apenas após os primeiros estudantes chilenos retornarem dos Estados Unidos. Em 1955, durante a Guerra Fria, a PUC do Chile fechou uma parceria com o governo americano para que seus alunos pudessem estudar em Chicago com bolsas. O convênio durou até 1964 e teria formado cerca de 30 profissionais chilenos, segundo depoimento do professor americano Arnold Harberger registrado no filme Chicago Boys (2015).

Quando os primeiros estudantes chilenos voltaram a seu país de origem e assumiram o papel de professores, passaram a ser chamados de Chicago Boys pelos alunos. O apelido, no entanto, muitas vezes é usado para se referir apenas aos profissionais formados na instituição americana que fizeram parte da equipe econômica da ditadura de Augusto Pinochet.

Ao menos onze economistas chilenos que foram bolsistas do governo americano participaram do governo Pinochet. Rolf Lüders é um deles. Foi ministro da Economia em 1982 e da Fazendo em 1982 e 1983. Segundo ele, à época, as reformas liberais necessitavam de um governo autoritário para implementá-las.

“Entre os anos 1950 e 1970, os países em desenvolvimento tinham economias centralizadas, com resultados ruins. Apesar dos seus resultados medíocres, essas políticas tinham apoio da população. Foi necessária uma grande crise e um governo autoritário para quebrar o paradigma existente.”

Hoje, porém, Lüders já não vê a necessidade de um presidente autoritário para adotar um projeto semelhante ao chileno. “A profissão de economista mudou suas recomendações de política econômica, que antes favoreciam a planificação e o protecionismo e agora favorecem o funcionamento de mercados livres.”

O projeto chileno foi escrito por colegas de Lüders, antes mesmo do golpe instalar a ditadura. Reunidos, ex-alunos de Chicago elaboraram um plano econômico que seguia as diretrizes aprendidas na universidade americana e o batizaram de “El ladrillo”, o tijolo, em português, dado o tamanho dos manuscritos.

O projeto é até hoje motivo de debate, pois indicaria que os economistas sabiam que havia um golpe em curso e teriam colaborado com ele. No filme Chicago Boys, no entanto, eles negam qualquer participação e destacam que “El ladrillo” foi escrito para quem quisesse adotá-lo, sendo uma colaboração para tentar tirar o Chile da crise econômica que havia se instalado no governo de Salvador Allende

Por outro lado, alguns Chicago Boys não fizeram parte do governo ditatorial de Pinochet, mas tiveram papel de destaque na economia chilena posteriormente. É o caso de Ricardo Ffrench-Davis, que foi economista-chefe do Banco Central do Chile entre 1964 e 1970 e entre 1990 e 1992. Para quem, o sucesso econômico do Chile nada tem a ver com a cartilha de Chicago.

“O salto (na economia) se deu na democracia, principalmente nos anos 90. Na ditadura, houve grandes quedas e grandes recuperações, com um crescimento médio anual do PIB. No Chile, com a ditadura, a média de investimento foi de 17% do PIB. Na democracia, a taxa de investimento cresceu para 25%, nos anos 90.”  

As posições divergentes mostram que, apesar de a maioria dos Chicago Boys ter sido liberal, os economistas chilenos não eram um grupo completamente coeso - ao contrário dos Chicago Oldies, como Paulo Guedes apelidou parte de sua equipe econômica que também passou pela universidade americana difusora do pensamento neoliberal.

 

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Promessas de Guedes não se concretizarão, dizem analistas, e papel do Estado é alvo de discussão

Especialistas concordam sobre a falta de rumo do governo e dizem que, mesmo antes da pandemia, ministro da Economia já não conseguia avançar em seu projeto liberal

Luciana Dyniewicz e Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2021 | 11h00

Analistas brasileiros divergem nas avaliações sobre os rumos do liberalismo econômico no País, principalmente após a pandemia da covid-19. Mas todos concordam em um ponto: a promessa do ministro da Economia, Paulo Guedes, de adotar um choque liberal no País, privatizar “tudo” e levantar R$ 1 trilhão aos cofres do governo - feita há mais de dois anos, no período de campanha presidencial - não se concretizará.

A visão é que, no caso brasileiro, a pandemia não foi a única responsável pela mudança de rota da política econômica. Antes, o próprio ministro já não conseguia avançar com seu projeto liberal à Escola de Chicago, dizem economistas de diferentes vertentes.

Presidente da Associação Keynesiana Brasileira, Fábio Terra destaca que o liberalismo vinha com força no Brasil antes da pandemia, mas, no mundo, já havia uma tendência de maior intervenção na economia desde a crise de 2008, quando Estados tiveram de salvar dezenas de bancos e nunca voltaram ao patamar anterior à recessão. “Depois da pandemia, deve haver algo parecido”, diz.

Segundo ele, no Brasil, o fato de a população reconhecer, durante a pandemia, a importância de um serviço público de saúde também pode dificultar o enxugamento do Estado.

Para a diretora de privatizações do BNDES entre 1994 e 1996, Elena Landau, no entanto, os Estados não cresceram durante a pandemia, pois não aumentaram os serviços prestados. Eles apenas elevaram a liquidez e os desembolsos, diz. “Isso não vai se manter, porque não há nem aqui nem no mundo capacidade financeira.” 

Landau afirma ainda que a covid-19 “coloca uma responsabilidade grande no liberalismo”, para que haja maior justiça social. “O liberalismo não é contra a atuação do Estado na área social. Faz parte da agenda liberal até pensar em renda mínima. Mas o Estado não pode ser capturado pelo corporativismo e pelo populismo”, acrescenta.

O economista Eduardo Giannetti se limita a dizer que não será possível que o gasto público continue avançando nos próximos anos na mesma velocidade de 2020, mas destaca que o liberalismo tem mais de 250 anos e vem sobrevivendo a crises e guerras por ser “capaz de dar respostas às questões”. 

“Não tenho a menor dúvida de que esse campo de pensamento que privilegia a liberdade e as regras do jogo de uma economia competitiva de mercado continuará sendo uma força muito relevante no debate público e na orientação das políticas econômicas”, frisa. “Agora, não vamos confundir o liberalismo ao longo de dois séculos e meio de história com essa versão muito empobrecida representada no Brasil pelo Paulo Guedes, que é o neoliberalismo de Chicago”, acrescenta o economista.

Giannetti destaca ainda que discutir “determinado rótulo ou ideologia não resolverá os problemas”. “O importante é identificar o problema e comparar os caminhos propostos para solucioná-los”, acrescenta.

O economista critica também a falta de avanços econômicos do governo Bolsonaro e diz não ver nenhum empenho da equipe de Guedes para cumprir as promessas. Giannetti também vê com preocupação o aumento dos gastos que foram impulsionados com a pandemia.

“Não tem desculpa para terminar dois anos de governo sem sequer ter apresentado uma proposta de reforma tributária. É absolutamente injustificável esse grau de omissão. No entanto, paira hoje no Brasil um risco muito sério de guinada populista fiscal, abrindo mão de qualquer compromisso com o controle do gasto público e usando o poder de gasto para fins de viabilizar reeleição.”

Landau afirma que Guedes “fracassou completamente” em sua reforma liberal. Diz que ele poderia, por exemplo, ter feito a abertura da economia do País, dado que, para isso, não é necessária aprovação do Congresso. “Era só enfrentar o lobby do empresariado.”

Crítica antiga do governo Bolsonaro, Landau também ataca a falta de avanço nas privatizações. “Só há uma obsessão com a agenda fiscal, como se ela resolvesse os problemas do Brasil. Tem de ter agenda de produtividade: privatização, abertura comercial, reforma administrativa. O Estado continua do tamanho que estava antes ou até maior, porque tem estatais prontas para serem criadas.”

Fábio Terra, por sua vez, diz que, até o fim do mandato de Bolsonaro, o País continuará com sua economia desgovernada. “Paulo Guedes faz um discurso insistentemente liberal, mas é preciso que saia da fala para construir isso politicamente, o que duvido que vá acontecer em 2021”, diz. “O Estado vai precisar permanecer em ação. As condições da crise não vão mudar e minha sensação é que a realidade será o limite da ideologia. Em 2020, já foi o Estado que impediu o setor privado de afundar”, acrescenta.

No mercado financeiro, o ceticismo em relação às grandes reformas no atual mandato também impera. Fontes consultadas pelo Estadão colocam que a corda está esticada. Apesar disso, não existe a percepção de que Guedes sairá antes do fim do mandato de Bolsonaro. A leitura é que o ministro seguirá à frente do Ministério da Economia mesmo que não consiga implementar nem uma parcela da sua agenda liberal vendida ao longo da campanha e no início do governo.

“O ano será de pressão do mercado em torno desses pontos, mas não existe a leitura de que Guedes poderá sair do governo”, diz uma fonte do alto escalão de um banco brasileiro.

Por outro lado, há um certo pedido de urgência na sinalização de que o governo, ao menos, garantirá o controle de gastos, mantendo a responsabilidade fiscal, após um ano em que teve de abrir a torneira em meio à pandemia para irrigar famílias que perderam as receitas na crise, por meio do auxílio-emergencial.

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