Marco Maia
Marco Maia

Quatro cirurgias no crânio e uma nova carreira

Ex-presidente de Cannes Lions trilhou novo caminho profissional depois de um ano lutando pela vida

Douglas Vieira, especial para o Estadão

05 de novembro de 2021 | 05h00

Tocar o cérebro com as próprias mãos é uma sensação que poucos podem dizer que já tiveram. Mas foi o que aconteceu com o empresário brasileiro José Papa Neto, de 46 anos, que comanda desde 2019 a Trace Brasil, braço brasileiro de um grupo de mídia francês dedicado à cultura afro urbana. Papa Neto, que é conhecido como Zizo no mercado e foi presidente do Cannes Lions – Festival Internacional de Criatividade por dois anos, se viu obrigado a fazer uma série de cirurgias no crânio após um desmaio que ele atribui a um burnout

“Saí de Cannes em julho de 2018 estressado e precisando descomprimir. De férias no Brasil, fui conversar com um amigo sobre meu desejo de, no dia que voltasse para cá – estava fora havia seis anos –, fazer projetos que fizessem sentido”, lembra. “Voltei do jantar e à noite me senti mal, com muita dor de cabeça. Na madrugada, me levantei para ir à cozinha, mas desmaiei e bati a cabeça muito forte.” 

Zizo acordou achando estar melhor e tentou dormir. Não conseguiu. “Tinha uma dor de cabeça indescritível, os médicos chamam de suicidal headache. Comecei a vomitar e fui para o hospital. Fiz uma ressonância e uma tomografia e fui direto para a cirurgia.”

Cabeça rachada

Não havia sinal exterior, mas ele havia fraturado o crânio de ponta a ponta, o que gerou um hematoma epidural e uma hemorragia subaracnóidea, condições que exigiam uma craniotomia. “Eles retiram um pedaço do crânio para drenar. É uma operação das mais emergenciais”, diz. “Acordei na UTI, mas a dor de cabeça tinha cessado e eu sentia um senso de renovação, estava leve.”

Passados 30 dias da cirurgia, o empresário foi autorizado a retornar para Londres. Mas, poucos dias após o desembarque, Zizo sentiu de novo “uma dor de cabeça indescritível” e começou uma corrida por indicações de médicos, mas imaginando que não seria algo grave. “Eu tinha feito uma ressonância dias antes, que me liberou para a viagem.” Mas a conversa foi rapidamente do consultório à sala de cirurgia. “Voltei da tomografia e ele estava com uma neurocirurgiã, que falou: ‘Você precisa operar agora, pois está com algo muito grave, uma osteomielite’.”

Caso raro

“A infecção que tive afeta só 2% das pessoas que fazem essa cirurgia, eu caí nessa estatística infeliz”, diz. “O pedaço do crânio que haviam tirado para drenar havia infeccionado. Então, eles retiraram de novo, mas dessa vez jogaram o pedaço fora.” 

Não foi suficiente. Zizo passou uma semana na UTI e, na noite que voltou ao quarto, sentiu dor de cabeça. “A médica explicou que tive um problema ainda mais grave, um empiema subdural, que é o acúmulo de pus entre o tecido que cobre o cérebro e o crânio. A infecção evolui rápido e a única forma de drenar é abrindo.”

Nos dias seguintes à cirurgia, os exames mostravam a infecção ainda aumentando, mesmo testando vários antibióticos. E, após duas semanas, a médica disse que tentaria um último antibiótico, muito mais potente, que gerava receio sobre o efeito no organismo. Se não funcionasse, faria outra operação. No dia seguinte, ele começou a melhorar.

Era hora da alta e de se preparar para viver um ano sem um pedaço do crânio. Ele conta sorrindo que sentia sua “pulsação no cérebro ao tocá-lo com os dedos”. E lembra de como brincava com os filhos. “Colocava um sabonete e brincava que era uma saboneteira”, diz, estabelecendo a comparação também para mostrar o quão grande era o “buraco”.

Propósito

Durante a internação em 2018, Zizo diz ter experimentado mais do que só o medo de morrer. “Na verdade, a consciência da morte me deixou tranquilo, e não angustiado. Entendia que precisava viver o presente.” Assim, no hospital, ele fez dois gestos que considera importantes para sua recuperação: se inscreveu na maratona de Chicago, marcada para outubro de 2019, e no Singularity Executive Program, evento que ocorreria em fevereiro de 2019, na Califórnia, para discutir como a tecnologia pode transformar o mundo. Lá, Zizo conheceu o franco-martinicano Olivier Laouchez, fundador da Trace, que distribui conteúdo para mais de 100 países e tentava entrar no Brasil havia 15 anos. 

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Na verdade, a consciência da morte me deixou tranquilo e não angustiado. Eu entendia que precisava viver o presente.
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José Papa Neto

Olivier decidiu por uma nova investida no mercado brasileiro, com Zizo como sócio. Em novembro de 2019, estreou o programa Trace Trends, exibido na Rede TV. Em julho de 2020, veio o canal proprietário Trace Brazuca nas TVs por assinatura e, em junho deste ano, a parceria migrou para a Rede Globo, que veicula o conteúdo via Globoplay e semanalmente na grade do Multishow. 

Em fevereiro de 2020, pouco antes do início da pandemia, Zizo fez a quarta cirurgia – a primeira não emergencial. Dessa vez, o procedimento era para instalar uma prótese e encerrar a fase em que ele foi capaz de tocar o cérebro com os dedos. 

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