Quatro pré-candidatos já se articulam na sucessão da Fiesp

A sucessão de Horacio Lafer Piva, presidente da mais importante representação industrial do País, o sistema Federação e Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp/Ciesp), é tema mais do que recorrente nas conversas mantidas nos corredores da sede da entidade, na Avenida Paulista. A eleição acontecerá apenas em 25 de agosto de 2004, mas quatro postulantes já tentam consolidar suas candidaturas, o que tem tirado o bom humor de Piva, hoje preocupado em restabelecer o poder de pressão política da entidade, esvaziado desde o início dos anos 90.Paulo Antonio Skaf, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), e Synésio Batista da Costa, presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), da oposição, Carlos Roberto Liboni, 1º vice-presidente da Fiesp, e Cláudio Vaz, diretor-superintendente do Sesi (que pertence ao sistema Fiesp/Ciesp), da situação, são até agora os candidatos a candidatos.Eles aspiram à liderança de um sistema que conta com 10 mil empresas filiadas, correspondente a aproximadamente 30% da produção industrial do País e 14% do PIB. E que, superavitário, conta com um orçamento de R$ 42,1 milhões em 2003.Os quatro iniciaram as articulações no final do ano passado e intensificam dia a dia a arregimentação de correligionários, por meio de jantares, telefonemas a empresários e jornalistas, conversas na sede, nos sindicatos e em algumas das 45 regionais do Ciesp. Acabaram por disparar o processo à revelia de Piva.O atual presidente está ciente de que tem a perder com a precocidade da sucessão: a atuação política que tenta imprimir neste segundo mandato tende a esvaziar à medida em que a campanha ganhar corpo. Piva prefere visitar ministros, secretários estaduais, senadores e deputados, fazer parte do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), a se envolver na discussão pré-eleitoral. Por isso, ainda não tomou partido, o que só deve fazer, segundo avaliação dos postulantes e de outros industriais, quando o registro de chapa (maio de 2004) estiver próximo.Ao falar da sucessão na Fiesp, o discurso dos quatro pré-candidatos é muito parecido. Apesar de garantirem que são a melhor opção para conduzir os representados, eles afirmam que ainda é cedo para abrir a disputa pelo gabinete do 14º andar, sala mais importante do setor industrial do País, por onde passaram no ano passado os principais candidatos à Presidência da República e por onde transitam ministros, secretários, embaixadores e negociadores de blocos internacionais, como Pascal Lamy, representante da União Européia (UE).Ao declararem que o processo eleitoral é prematuro, os postulantes procuram não criar atritos com Piva, que terá peso decisivo na sua sucessão, onde será o maior cabo eleitoral. Apesar de colecionar alguns críticos entre os industriais, alguns ferrenhos, o herdeiro do grupo Klabin ainda conta com o apoio da maioria dos representantes dos sindicatos arregimentados nas duas eleições. Na primeira, em 1998, recebeu 90% dos votos contra Joseph Couri, do Sindicato das Micro e Pequenas Empresas do Estado de Sã o Paulo, e em 2001, foi reeleito para mais três anos com 98% dos votos, em disputa de chapa única."A articulação é um mal menor, não vejo nenhum prejuízo em relação à condução da casa", resume Carlos Roberto Liboni. "Mas o limite é esse, não podemos deixar entrar na pauta da Fiesp. Nenhum dos postulantes pode colocar essa dificuldade para o Horácio, ele não pode se desviar agora", complementa ele. Cláudio Vaz afirma que "quem está tratando como campanha adotou a estratégia errada". "É muito saudável conversar. E as conversas só surtirão efeito no segundo semestre", prevê Vaz. Paulo Skaf acredita que a campanha formal ainda demorará a acontecer. "Agora temos todos que trabalhar em prol da indústria de São Paulo", afirma.Boris Tabacof, presidente do conselho de administração da Companhia Suzano de Papel e Celulose, importante líder do setor e sempre presente na Fiesp, admite que o processo já começou, mas julga que é precoce. "Há muitos candidatos a candidatos. E o processo saindo cedo pode atrapalhar o trabalho do Horacio, que está se adaptando bem à nova realidade do governo. Tem muitas oportunidades pela frente a serem exploradas e a entidade não pode se desgastar com um processo eleitoral", afirma."O processo iniciado agora é intempestivo, fora de hora, e enfraquece a indústria paulista e o presidente atual", diz Luiz Carlos Delben Leite, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).CenárioO cenário que pode ser traçado hoje, segundo o que a reportagem ouviu de 12 influentes interlocutores da Fiesp, mostra que Paulo Skaf desponta como um forte postulante. Ele teria boa influência nos dois colégios eleitorais do sistema: os 129 sindicatos da Fiesp e as quase 10 mil empresas do Ciesp. Além da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), que tem cerca de 4 mil empresas, a maioria filiada ao Ciesp.Skaf batalhará para que um importante aliado atue firmemente a seu favor: o vice-presidente da República José Alencar (PL), industrial dono da Coteminas, uma das maiores tecelagens do País. Alencar foi vice-presidente de Skaf no primeiro mandato à frente da Abit e hoje seu filho, Josué Gomes da Silva, é o 1º vice-presidente da entidade. A avaliação é de que, para Alencar, seria interessante ter um amigo na presidência da Fiesp.Apesar de se colocar como opositor a Horacio, Skaf já pediu a amigos que façam a ponte para um possível apoio de Piva. As relações entre os dois são nada mais do que cordiais, depois do desentendimento que tiveram quando da criação do Núcleo de Ação Política da Fiesp, em 1999. Piva havia prometido a chefia do conselho à Skaf, mas o preteriu em favor de José Eduardo Bandeira de Mello, então presidente da Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica (Abifarma). Bandeira de Mello é amigo de Piva e foi um dos principais responsáveis pelo lançamento de sua candidatura à presidência da Fiesp/Ciesp.Porém, o apoio de Piva a Skaf não pode ser, a um ano e meio do pleito, descartado. Membros influentes da Fiesp, e até mesmo os candidatos, sabem que uma disputa eleitoral fatalmente provocará um racha na entidade, algo impensável na tradicional organização. "Ninguém quer isso", garante Skaf. Para evitar o racha, a saída seria uma chapa única. "Não é tão impossível fechar uma chapa só", diz Cláudio Vaz. O que só acontecerá, porém, se o candidato da situação não decolar.Segundo fontes do setor industrial, mesmo com Cláudio Vaz e Carlos Roberto Liboni pleiteando o cargo, o mais provável é que a situação tenha apenas um candidato. De acordo com eles, há a questão prática, que é a montagem da enorme chapa de 287 nomes, e a política, que é a divisão da força de Piva. Com dois nomes da situação, o apoio de Piva seria dividido. Um dos candidatos acabaria na oposição. O mais sensato, e no que apostam as fontes, é que um dos dois abrirá mão de concorrer, a pedido do atual presidente.Vaz é o grande responsável pela reestruturação administrativa da casa, que, antes da gestão Piva, era deficitária e considerada inchada e de pouca eficiência por empresários do setor. Com um estilo empreendedor, conquistou admiradores, mas amealhou diversos desafetos. Quando foi diretor-executivo, Vaz era chamado de "homem de ferro", "primeiro-ministro" e só tinha menos poder do que o próprio Piva. Como ficou fora da casa por algum tempo e conta com inimizades, pode não se fortalecer.Liboni é forte no interior paulista e tem bom trânsito no Ciesp, mas, apesar de ser o 1º vice-presidente desde a primeira gestão Piva, causa nos diretores da casa a impressão de ter pouca representatividade na Fiesp.Se um dos dois abrir mão até maio de 2004, o que sobrasse poderia compor uma chapa única com o mais forte da oposição e evitar o tão temido racha. "O Synésio colocou o nome dele para se cacifar e conseguir uma boa colocação na chapa ganhadora, talvez a 1ª vice-presidência", argumenta um vice-presidente da Fiesp, que pede anonimato."Essa é uma tentativa de desqualificação. Se fosse um jogador de caráter duvidoso, eu faria o mesmo. Estou urdindo uma candidatura forte de mudança", diz Costa. "Essa será uma eleição limpa e cordial na superfície, e muito suja por trás", adianta o presidente da Abrinq.RachaO presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), Arthur Quaresma Filho, avalia que o pior dos mundos para a Fiesp é um racha entre candidatos à sucessão do atual presidente, Horacio Lafer Piva. "A Fiesp tem muito trabalho a fazer, tem que ter uma ótima interlocução com o novo governo e não pode se deixar dividir em um momento desses", afirma. Quaresma julga que o principal cabo eleitoral será o próprio Piva e que o candidato que tiver o apoio dele sairá na frente, tanto para evitar o racha quanto em uma eventual disputa entre duas chapas. O presidente do Sinduscon-SP, um dos 15 vice-presidentes da Fiesp, afirma que o setor da construção civil, que tem um voto entre os 129 dos sindicatos da casa, votará de acordo com o consenso obtido no setor na época da eleição.

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