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Que horas o dólar volta?

Não fosse o ruído político, há quem apostasse em correção do dólar frente ao real

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2016 | 05h00

Na esteira da vitória de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos, o real foi uma das moedas que mais desvalorizaram frente ao dólar, que passou de R$ 3,17 no dia da eleição presidencial americana (8 de novembro) para mais de R$ 3,50 nos momentos de maior estresse no mercado.

Esse nervosismo refletiu o temor de que Trump adote estímulos fiscais para acelerar a recuperação da economia americana, o que alimentaria a alta da inflação e, por tabela, dos juros. Nesse cenário, o dólar ficaria mais caro ao redor do mundo. Nos últimos dias, a pressão sobre o câmbio perdeu um pouco de fôlego, com auxílio também de intervenções pontuais do Banco Central. Na segunda-feira, a moeda americana encerrou o dia de negócios a R$ 3,4250. E a pergunta que começava a circular no mercado é: poderia o dólar devolver os ganhos recentes e voltar para um nível mais baixo frente ao real no curto prazo?

Parte dessa resposta depende do cenário externo, em especial em relação ao número de elevações da taxa de juros ao longo de 2017 pelo Federal Reserve (Fed). Os investidores, conforme os preços dos contratos de juros futuros, apostam em duas altas no ano que vem, além da elevação de 0,25 ponto porcentual esperada para este mês. Já os analistas estimam entre duas e três altas dos juros americanos em 2017. Se o mercado passar a achar que o Fed subirá menos os juros, o dólar perde força. Se a aposta for de um aperto monetário maior nos Estados Unidos, a moeda americana se valoriza mais. Se as apostas para as próximas decisões do Fed seguirem como estão hoje, os cenários político e econômico no Brasil passam a ter maior influência sobre a direção do câmbio.

E os acontecimentos dos últimos dias, no Brasil, voltaram a turvar o horizonte para os investidores. A crise política atingiu novos decibéis com a liminar do ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinando o afastamento de Renan Calheiros da presidência do Senado. No seu lugar assumiria interinamente o senador Jorge Viana (PT-AC), que ameaça adiar a votação em segundo turno da proposta de emenda constitucional (PEC) fixando o crescimento dos gastos públicos à inflação do ano anterior. A votação no Senado está programada para terça-feira, 13. O barulho político causado com a liminar do STF e a possibilidade de adiamento da votação da PEC do teto de gastos ofuscou a apresentação da proposta de reforma da Previdência e até a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, divulgada ontem, sinalizando que o corte da taxa Selic poderá ser acelerado de 0,25 ponto para 0,50 ponto porcentual em 2017.

Não fosse o ruído político, há quem apostasse numa correção do dólar frente ao real, cedendo abaixo de R$ 3,40. Os mais otimistas – especialmente com a perspectiva de aprovação da PEC do Teto e o início da tramitação da reforma da Previdência no Congresso – chegaram a prever a moeda americana caminhando de volta para R$ 3,30 ou até abaixo disso. Na última pesquisa Focus, do BC, que captou o sentimento dos analistas antes da recente instabilidade política, a projeção para o dólar no fim deste ano permaneceu em R$ 3,35, mas subiu para R$ 3,45 no fim do ano que vem.

Diante de tantas incertezas, o mais provável é que o dólar oscile numa faixa entre R$ 3,30 e R$ 3,60 no curto prazo. Em um cenário em que a votação da PEC do Teto no Senado aconteça na data prevista e a crise política arrefeça, a moeda americana perde fôlego e sua cotação fica mais próxima de R$ 3,30. Mas, se o ruído político aumentar por algum motivo, como fatos novos na Lava Jato atingindo o governo Temer ou sua base aliada, ou se, no cenário externo, Trump voltar a afetar o humor dos investidores, ficará difícil segurar o dólar, uma vez que a moeda americana é o refúgio mais procurado em tempos de crise. Mais perto de R$ 3,60, menos provável o BC acelerar o corte da Selic.

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