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Que opinião vale?

As conversas que temos no cotidiano não refletem como pensa o País

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2016 | 05h00

No segundo turno das eleições presidenciais de 2014, Dilma Rousseff recebeu 36,2% dos votos dos eleitores paulistanos. Na mesma capital, Aécio Neves teve quase 64%. Já a cidade do Rio rachou ao meio: 50,8% dos cariocas votaram em Dilma, 49,2% em Aécio. Virtual empate. Todos compreendemos que cidades e Estados se comportam de formas distintas durante uma eleição. É natural. Seus anseios e experiências políticas são mesmo diferentes. Por algum motivo, nossa percepção das redes sociais é outra. Temos a impressão de que espelham politicamente o País.

O que lemos nas redes, porém, não dá qualquer pista de como pensa o Brasil. Um estudo do Pew Research, realizado nos EUA em 2012, mediu o tom das reações à vitória de Barack Obama para a presidência. As publicações positivos bateram em 77%. Mas o que as pesquisas de opinião revelaram é que apenas 52% dos americanos estavam satisfeitos. Quem acompanhou o noticiário pelo Twitter teve a impressão de um país em júbilo. Estava cindido.

Em 2015, no Reino Unido, o tom das conversas no mesmo Twitter parecia favorável ao Partido Trabalhista, segundo análise da Press Association. O SNP, partido nacionalista escocês, estava ainda melhor. Se a popularidade fosse medida pela rede social, o conservador David Cameron estaria em terceiro lugar na corrida dos líderes partidários para comandar o parlamento, mas tornou-se primeiro-ministro.

O Twitter é mais generoso com seus dados. Com as devidas permissões, é possível passar as conversas no ambiente por softwares capazes de interpretá-los. O Facebook não costuma permitir este tipo de análise. E é por isso que não há pesquisas similares com a maior rede social do mundo.

O Facebook nos entrega principalmente aquilo que demonstramos querer. O software discretamente acompanha nosso comportamento. Percebe com quem interagimos mais, a quem lemos com frequência, que tipo de assunto nos toca. E também que abordagem nos interessa. É possível configurar um pouco do que vemos. Mas a rede também faz sua seleção na hora de decidir o que aparece. O método pode ser visto como vantajoso. Mostra mais do que nos interessa. Porém, quer dizer que nossos gostos pessoais influenciam aquilo a que somos expostos.

Há outra questão: demográfica. Redes sociais são povoadas por pessoas em média mais jovens do que o mundo real. Isso interfere muito no conjunto de opiniões apresentadas. E nós mesmos criamos um ambiente que tende a nos ser familiar: pessoas de nossa classe social, que vivem próximas e são de profissões similares.

Não bastasse, as redes são passíveis de manipulação. Muito de sua natureza está no compartilhar, no retuitar. No passar adiante o que foi preparado por outros. Há vídeos engraçados e GIFs que surgem espontaneamente. Outros, não. São peças de propaganda política, criadas por agências publicitárias, mascaradas de reação espontânea. Há empresas que plantam boatos, constroem argumentos e trabalham slogans. Um trabalho que pode interferir em nossa percepção da conversa política.

As conversas que temos no cotidiano não necessariamente refletem como pensa o País. É uma observação que vale para as relações pessoais, assim como vale para as redes todas. Em tempos de alta tensão, às vezes é bom lembrar disso. Conversar é, e continuará sendo, a principal ferramenta da democracia. Mas é bom ficar atento. O tom que percebemos não reflete necessariamente as opiniões nas ruas.

No segundo turno das eleições presidenciais de 2014, Dilma Rousseff recebeu 36,2% dos votos dos eleitores paulistanos. Na mesma capital, Aécio Neves teve quase 64%. Já a cidade do Rio rachou ao meio: 50,8% dos cariocas votaram em Dilma, 49,2% em Aécio. Virtual empate. Todos compreendemos que cidades e Estados se comportam de formas distintas durante uma eleição. É natural. Seus anseios e experiências políticas são mesmo diferentes. Por algum motivo, nossa percepção das redes sociais é outra. Temos a impressão de que espelham politicamente o País.

O que lemos nas redes, porém, não dá qualquer pista de como pensa o Brasil. Um estudo do Pew Research, realizado nos EUA em 2012, mediu o tom das reações à vitória de Barack Obama para a presidência. As publicações positivos bateram em 77%. Mas o que as pesquisas de opinião revelaram é que apenas 52% dos americanos estavam satisfeitos. Quem acompanhou o noticiário pelo Twitter teve a impressão de um país em júbilo. Estava cindido.

Em 2015, no Reino Unido, o tom das conversas no mesmo Twitter parecia favorável ao Partido Trabalhista, segundo análise da Press Association. O SNP, partido nacionalista escocês, estava ainda melhor. Se a popularidade fosse medida pela rede social, o conservador David Cameron estaria em terceiro lugar na corrida dos líderes partidários para comandar o parlamento, mas tornou-se primeiro-ministro.

O Twitter é mais generoso com seus dados. Com as devidas permissões, é possível passar as conversas no ambiente por softwares capazes de interpretá-los. O Facebook não costuma permitir este tipo de análise. E é por isso que não há pesquisas similares com a maior rede social do mundo.

O Facebook nos entrega principalmente aquilo que demonstramos querer. O software discretamente acompanha nosso comportamento. Percebe com quem interagimos mais, a quem lemos com frequência, que tipo de assunto nos toca. E também que abordagem nos interessa. É possível configurar um pouco do que vemos. Mas a rede também faz sua seleção na hora de decidir o que aparece. O método pode ser visto como vantajoso. Mostra mais do que nos interessa. Porém, quer dizer que nossos gostos pessoais influenciam aquilo a que somos expostos.

Há outra questão: demográfica. Redes sociais são povoadas por pessoas em média mais jovens do que o mundo real. Isso interfere muito no conjunto de opiniões apresentadas. E nós mesmos criamos um ambiente que tende a nos ser familiar: pessoas de nossa classe social, que vivem próximas e são de profissões similares.

Não bastasse, as redes são passíveis de manipulação. Muito de sua natureza está no compartilhar, no retuitar. No passar adiante o que foi preparado por outros. Há vídeos engraçados e GIFs que surgem espontaneamente. Outros, não. São peças de propaganda política, criadas por agências publicitárias, mascaradas de reação espontânea. Há empresas que plantam boatos, constroem argumentos e trabalham slogans. Um trabalho que pode interferir em nossa percepção da conversa política.

As conversas que temos no cotidiano não necessariamente refletem como pensa o País. É uma observação que vale para as relações pessoais, assim como vale para as redes todas. Em tempos de alta tensão, às vezes é bom lembrar disso. Conversar é, e continuará sendo, a principal ferramenta da democracia. Mas é bom ficar atento. O tom que percebemos não reflete necessariamente as opiniões nas ruas.

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