Spotify/Divulgação - 2/9/2021
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Laura Karpuska
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Que possamos aprender a ouvir quem pensa diferente de nós

A incapacidade de aceitar o diferente parece ter tomado conta de todos nós, mas Mano Brown e Fernando Holiday mostraram que é possível fugir desta sina

Laura Karpuska*, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2021 | 04h00

Na última semana ouvi pela primeira vez o podcast Mano a Mano, do rapper paulistano Mano Brown. No episódio que ouvi, Mano entrevistou o vereador de São Paulo Fernando Holiday. Logo no começo da entrevista, que durou quase uma hora e meia, Mano diz: “Acompanho o seu trabalho, discordo de muitas coisas que você fala”. Ele continua dizendo que muitas pessoas “que ele respeita” não queriam que ele tivesse convidado Holiday para a entrevista, mas ele o chamou para ouvir coisas que “podem ser interessantes”.

Durante a entrevista de Holiday, Mano diz que acredita que o governo Lula tenha sido o que mais se preocupou e entregou em termos de distribuição de renda. Fernando Holiday fez parte do Movimento Brasil Livre (MBL), que surgiu e ganhou destaque durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Holiday já deixou o MBL, pois, como disse em entrevista ao portal de notícias UOL na época, “causas LGBTs e as pautas antiabortistas (…) não estavam na lista de prioridades do MBL”. Foi eleito vereador de São Paulo pelo Patriota e, atualmente, é filiado ao Partido Novo. Este resumo, ainda que limitado, explicita que, ideológica e politicamente, Mano e Holiday estão em lugares claramente diferentes.

Enquanto eu ouvia o podcast, fiquei pensando que não me lembro, não nos meus últimos anos, de ter participado de um ambiente de diálogo como o que foi criado por Mano Brown e Fernando Holiday nessa entrevista. A incapacidade de aceitar o diferente parece ter tomado conta de todos nós. Aparentemente, Mano Brown e Fernando Holiday fugiram desta sina durante 1 hora e 28 minutos.

Mas será que é importante dialogar com quem pensa de modo distinto de nós? A economia, a estatística, a psicologia e a neurociência dizem que sim. Quando interagimos somente com pessoas que pensam como nós, perdemos chances de identificar outras visões, outros modos de compreender o mundo, outras possibilidades para solucionar problemas. Além disso, quanto mais nos acostumamos a ficar em ambientes conformistas, mais custoso é para nós enfrentar o diferente. É, portanto, um círculo vicioso: o chamado eco chamber. Não me exponho ao diferente e quero cada vez menos me expor. Esta é uma possível razão fundamental para a polarização.

A polarização excessiva pode ser problemática. Digo excessiva, pois a discórdia é algo natural da vivência coletiva. Pessoas possuem bagagens, origens e culturas diferentes, o que é ótimo. O problema se dá quando a polarização é tal que ficamos à mercê dos extremismos. Não é uma polarização causada porque temos vontades diferentes, mas porque usamos nossas vontades para julgar questões que deveriam ser objetivas. Capacidade crítica é fundamental para o bem-estar individual e coletivo. Um exemplo é o caso da cloroquina. A escolha do uso da cloroquina como tratamento à covid-19 não deveria ser uma decisão ideológica, mas científica. Mas, na polarização excessiva, ideologia barata e pensamento crítico se confundem.

A democracia também sofre com a polarização excessiva. Ambientes polarizados instigam políticos extremistas e são instigados por eles. Fecham-se as portas para o diálogo, impossibilita-se a construção de projetos de governo fundamentados em plataformas verdadeiras, e agendas políticas ficam travadas – são os gridlocks. Não é possível construir nada democraticamente sem diálogo, sem barganhas e sem a expectativa de que a negociação levará a algum meio do caminho. A polarização mina nossa capacidade de passar por esse processo.

Mesmo entre as pessoas que defendem o diálogo abertamente, que dizem que é importante cada um estar aberto a críticas, a discórdia acaba acontecendo apenas numa direção – a de criticar o outro, sem aparente reflexão ou internalização do diferente. Durante a entrevista, Mano disse, explicitamente, que sabe que Holiday não concorda com o que ele “acharia certo”. Mas que ele queria conversar com Holiday porque acredita que o vereador “ainda pode mudar aquilo que ele pensa”.

Que possamos aprender com Mano Brown e com Fernando Holiday – especialmente agora que estamos a um ano das eleições presidenciais de 2022. Talvez exista mais espaço para um compromisso democrático entre muitos de nós, um verdadeiro projeto de país, do que acreditamos.

(*) Obrigada à Ana Paula Melo e à Talita Nascimento pelo debate e pelos comentários.

* PROFESSORA DO INSPER, PH.D. EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK EM STONY BROOK

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