Que tiro foi esse

Ataque de Trump pode despertar o espírito protecionista no País

Cida Damasco, O Estado de S.Paulo

12 Março 2018 | 05h00

Não, não se trata de mais um debate sobre a banalização da violência, expressa no hit da funkeira Jojo Todynho. O tiro é outro. É aquele que veio lá dos EUA, onde o presidente Trump simplesmente cumpriu a promessa que fez durante toda a campanha e muitos preferiam esquecer: guerra aos inimigos de fora e apoio total à indústria americana, não importando se ela está ou não obsoleta, nem o quanto ela depende dos fornecedores externos.

A imposição de uma tarifa de 25% para importações de aço e de 10% para de alumínio, medida que parecia incompatível com a agenda das grandes economias, ameaça complicar a vida dos países e empresas que têm fortes relações comerciais com os EUA, como o Brasil, e, no extremo, pode até desencadear uma guerra comercial generalizada – ainda que essa hipótese, alardeada nos últimos dias, no momento não seja a mais provável.

A oficialização da nova política comercial de Trump ocorreu na quinta-feira, justamente um dia depois de o Banco Mundial divulgar estudo que destaca os benefícios da abertura comercial para a economia. No caso do Brasil, uma abertura coordenada com os outros parceiros do Mercosul poderia tirar 6 milhões de pessoas da pobreza. Cortar pela metade as tarifas de importação para compras procedentes de países de fora do bloco e acabar com os impostos de exportação poderia incorporar quase um ponto ao PIB e cerca de 400 mil novos postos de trabalho.

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Na contramão das teses do Banco Mundial, veio o ataque de Trump. Se as novas tarifas dos EUA atingirem de fato o Brasil – há sinais de que alguns países poderão ser poupados, além do Canadá e do México –, a indústria local pode ser praticamente expulsa de um mercado que representou negócios de US$ 2,6 bilhões no ano passado, quase um terço das exportações do setor. Fora a queda das ações nas bolsas que as empresas já estão amargando, e o risco de que outros países afetados pela medida, como a China, aumentem a competição com o Brasil em outros mercados.

O governo brasileiro ainda estuda o que fazer: tudo indica que a prioridade, por enquanto, é reagir no campo das relações bilaterais, inclusive em articulação com os compradores americanos dos produtos brasileiros. Até porque o visível enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC) não dá muitas esperanças de que uma solução para essa disputa venha num prazo razoável.

No Brasil, contudo, os efeitos potenciais da ofensiva de Trump não se restringem à siderurgia. Todo cuidado é pouco para não despertar o espírito protecionista que ainda mora em áreas do empresariado. Manifestações simplistas do tipo “se eles podem, por que nós não podemos?” e “o governo brasileiro é muito bonzinho, tem de ser mais duro” já começam a aflorar. Quem está e até quem não está sob pressão se sente tentado a defender mecanismos de proteção.

Claro que esse espírito não é exclusividade do Brasil nem surgiu com Trump. No agronegócio, por exemplo, onde os empresários americanos são protecionistas desde sempre, o Brasil já enfrentou embates desgastantes, como o do algodão, que se estendeu por mais de uma década. Mas aqui o momento é particularmente sensível, uma vez que, em campanha eleitoral, a busca de inimigos externos costuma contar pontos. Mesmo que, com algumas gradações, o apoio à abertura e à livre concorrência conste de programas econômicos dos pré-candidatos à Presidência.

Nas discussões acadêmicas e empresariais, o que se ouve nos últimos tempos é o diagnóstico de que a indústria brasileira precisa de um choque de inovação e produtividade para competir no cenário global. Nos bastidores, porém, a qualquer ameaça, chovem pedidos por mais proteção. Não dá para desprezar, é verdade, a frustração que às vezes se tem no Brasil com a chamada livre concorrência. Ou seja, sem os devidos contrapesos e os devidos monitoramentos, nem sempre ela funciona a favor do que e de quem deveria. Mas a resposta adequada não é mais fechamento, mas sim mais abertura, com instrumentos de combate a abusos, como os de defesa comercial.

O perigo, portanto, é que o tiro de Trump, por aqui, além de acertar no que viu, acerte também no que não viu.

* CIDA DAMASCO É JORNALISTA

 

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