Reuters
Reuters

Que venham as poltronas do futuro!

É possível que, em breve, os móveis comecem a fazer coisas por conta própria

O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2015 | 02h01

Na versão para o cinema de Mary Poppins, produzida por Walt Disney em 1964, há uma cena em que, obedecendo a um estalar de dedos da protagonista, uma série de armários, gavetas, criados-mudos e baús se abrem sozinhos, e então as roupas e os brinquedos das crianças de que ela está cuidando encaminham-se magicamente para os lugares onde devem ser guardados. Infelizmente, roupas e brinquedos que se arrumam por conta própria ainda pertencem ao mundo da fantasia. Mas os móveis que colaboram com seus donos, como que comandados pela magia de Mary Poppins, não estão tão longe assim de virar realidade.

Se as equipes de pesquisadores que trabalham no desenvolvimento dessa ideia nos Estados Unidos e na Europa forem bem-sucedidas, não deve demorar para que as pessoas, ao chegar em casa ao fim de um longo dia de trabalho, possam chamar um pufe-robô para descansar seus pés; ou, estando às voltas com algum conserto doméstico no fim de semana, possam fazer uso de uma caixa de ferramentas robótica; e, cansadas de pôr em ordem o quarto das crianças, instalem lá uma caixa de brinquedos que as incentiva a arrumar a bagunça após a brincadeira.

Seus inventores esperam que esses e outros aparelhos semelhantes cheguem ao mercado para ocupar um espaço intermediário, entre os dispositivos robóticos básicos, como o Roomba, um aspirador autônomo fabricado pela iRobot, e os androides multitarefas, como o Pepper, uma empregada doméstica humanoide recentemente lançada pela Softbank. O segredo do sucesso, acreditam eles, é não somente criar móveis que executem comandos, mas dotá-los de personalidade, convencendo seus donos de que a comunicação entre eles é uma via de mão dupla. Atualmente, só há alguns protótipos disponíveis - e, por razões de segurança, eles ainda não são completamente automáticos, permanecendo sob o controle de supervisores humanos. Mas as pesquisas indicam que o mercado está mais do que pronto para acolher móveis robóticos como esses.

Um dispositivo com potencial comercial óbvio é uma lixeira-robô que é colocada para circular em determinados locais, como uma lanchonete, por exemplo, oferecendo-se para coletar o lixo dos clientes. O aparelho foi inventado pelos professores Wendy Ju e David Sirkin, da Universidade Stanford. Os testes já realizados mostram que a invenção é bem recebida. O robô se aproxima de uma mesa e se agita sem sair do lugar, a fim de atrair a atenção dos clientes. As pessoas rapidamente entendem o que devem fazer - chegando mesmo a procurar ao redor por mais lixo para alimentar o robô.

Francesco Mondada, da École Polytechnique Fédérale de Lausanne, na Suíça, adotou estratégia parecida para estimular crianças a guardar seus brinquedos. Sua caixa de brinquedos móvel é um engradado com rodas, equipado com um par de olhos rotatórios e luzes coloridas. A caixa percorre o ambiente até localizar um brinquedo no chão. Então para, dá a impressão de olhar para o brinquedo com seus olhos e começa a se agitar e a piscar as luzes, a fim de induzir o pestinha que largou o brinquedo ali a guardá-lo na caixa.

Outro móvel-robô - neste caso, um brinquedo, e não um organizador de brinquedos - está sendo desenvolvido por Aaron Steinfeld e seus colegas na Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, em colaboração com a Disney. Trata-se de uma cômoda móvel e falante, de um metro de altura, chamada Chester. Uma de suas gavetas tem um rosto animado que entretém grupos de crianças, contando-lhes histórias. Outras gavetas se abrem nos momentos apropriados para exibir ao público mirim as ilustrações e fotos que acompanham a história.

A Chester é claramente um brinquedo. Se um aparelho parecido com ela, que a professora Ju está desenvolvendo na Universidade de Stanford, também se encaixa nessa categoria é algo que depende do modo como cada um vê atividades do tipo "faça você mesmo". O armário de Ju não fala, mas ajuda o faz-tudo da casa a executar com mais facilidade seus serviços. Seu auxílio consiste em abrir a gaveta que contém a ferramenta apropriada no momento certo. As gavetas são motorizadas e operam sob o controle de um computador, de modo que abrem e fecham de modo sugestivo. Uma gaveta pode, por exemplo, entreabrir-se e executar um pequeno movimento de vaivém, a fim de indicar que talvez ela contenha um utensílio apropriado para a tarefa que está sendo realizada. A intenção é que, com determinados gestos, o usuário instrua a gaveta a se abrir completamente, caso as ferramentas de que ele precisa de fato estejam em seu interior; ou, do contrário, a se fechar de vez. Quando o usuário conclui a "obra-prima", brinca Ju, o armário pode até ovacioná-lo com uma "ola" mexicana, fazendo com que suas gavetas se abram e fechem em sequência.

Os programas que permitirão a esse armário de ferramentas acompanhar o progresso na execução de cada serviço ainda têm de ser escritos. Mas, em princípio, a ideia parece plausível. Os softwares de reconhecimento de objetos e movimentos, incluindo alguns capazes de compreender emoções, vêm se desenvolvendo em ritmo acelerado. Dotado de uma câmera e devidamente programado, um móvel-robô seria capaz de identificar as diversas etapas envolvidas na tarefa de, por exemplo, fazer uma moldura para fotografias - e até calcular a angústia sentida pelo "artesão" enquanto trabalha.

Não é certo que pedreiros, marceneiros, encanadores e artistas de fim de semana gostem da ideia de serem observados por uma caixa de ferramentas robótica enquanto trabalham. Mas a acolhida das pièces de résistance do conjunto de móveis-robôs da professora Ju, um sofá e um pufe para apoiar os pés, deve ser favorável.

Talvez leve algum tempo até as pessoas se acostumarem com a ideia de uma poltrona que pode ser movimentada por comandos - e que também sai automaticamente do caminho quando o Roomba aparece à noite para aspirar a sujeira e o pó acumulados durante o dia. Mas quem vai resistir à ideia de, uma vez instalado nessa poltrona, chamar com um assobio um pufe e vê-lo sair de seu canto para vir se colocar no lugar perfeito, pronto para receber um par de pés cansados e doloridos?

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

Tudo o que sabemos sobre:
theeconomist

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.