Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Queda acelerada do emprego este ano depende de reformas, dizem analistas

Mesmo com aprovação da reforma da Previdência, recuperação do mercado de trabalho em 2019 ainda deve ser lenta

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

01 Fevereiro 2019 | 04h00

O desempenho do mercado de trabalho este ano vai depender da capacidade que o governo de Jair Bolsonaro tiver para avançar nas reformas estruturais necessárias para destravar investimentos. A avaliação de especialistas em mercado de trabalho ouvidos pelo Estado é de que, até que haja mais certezas e confiança nos novos rumos da economia do País a partir deste ano, os reflexos da recessão no mercado de trabalho ainda não serão completamente superados.

Nesta quinta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que a taxa de desemprego no quarto trimestre de 2018 foi de 11,6% — ante 11,9% nos três meses anteriores, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. Na média do ano, 2018 fechou com desemprego de 12,3%, ante 12,7% do ano anterior.

Para 2019, segundo os analistas, mesmo com a aprovação de reformas, como a da Previdência, a recuperação do mercado de trabalho deve continuar em ritmo lento. 

O economista da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) Eduardo Zylberstajn estima que vai levar um tempo para que o otimismo do mercado financeiro se reflita de forma expressiva na economia real, com o empresariado voltando a investir e contratar, sobretudo na indústria, mesmo com a aprovação das reformas.

“Este ano deve ser melhor do que 2018, mas ainda não vai ser um ano de retomada robusta do mercado. A reforma da Previdência, na melhor das hipóteses, deve ser aprovada no meio do ano. E o empresário leva um tempo para voltar a investir com mais afinco em maquinário e contratações.”

Zylberstajn também avalia que o País deve demorar a voltar ao baixo patamar de desemprego registrado antes da crise. Em 2014, a taxa média de desemprego ficou em 6,8%. “Em 2004, o desemprego estava na casa dos 11% e o Brasil precisou de quase uma década para chegar ao nível do pleno emprego. Agora, o País precisaria entrar em um ciclo de crescimento acelerado para que o desemprego baixe muito.”

Já o professor do Insper Renan de Pieri avalia que o mercado de trabalho este ano ainda não deve ser muito aquecido na indústria, mas deve continuar bom para o varejo. “O mercado este ano terá o desafio de não só absorver os desempregados, mas empregar os desalentados que em algum momento vão voltar a procurar por novas vagas.”

O professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Mauro Rochlin lamenta que os resultados do mercado de trabalho no último trimestre do ano passado tenham vindo piores do que se imaginava. “Isso demonstra o quanto a recessão foi dura para o emprego e o quanto a recuperação está sendo mais lenta do que se gostaria.”

Ele avalia que, além da aprovação de reformas, o governo deveria apostar em programas tanto de concessões. “O Brasil tem uma demanda reprimida por obras de infraestrutura. A retomada do investimento, em áreas como transporte e óleo e gás, via licitações por parte do setor público, ajudariam a destravar projetos e aquecer as contratações em setores que geram muitos empregos, como a construção civil.”

Rochlin, no entanto, reforça que o novo governo ainda precisa mostrar a que veio. “O discurso do governo está alinhado com o mercado, por isso ele ainda está otimista, mas quer ver o que sai do papel, quer que o governo entregue o que prometeu.” 

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