Estadão
Estadão

Queda da inflação em 2016 pode ser a maior desde o 1º ano do governo Lula

O efeito de diminuição se dará por causa da base alta de comparação que será 2015, e não por um esforço do governo para colocar o índice nas rédeas

Célia Froufe, Agência Estado

12 Maio 2015 | 17h41

BRASÍLIA - A desaceleração da inflação esperada para o ano que vem será a maior desde o primeiro ano do governo Lula, em 2003. Nos dois casos, o feito de diminuição da pressão dos preços se dá mais por uma base alta de comparação do que por um esforço extra do governo de colocar os índices nas rédeas. 

A inflação deste ano deverá ser a maior em mais de uma década e isso já está na conta dos analistas financeiros. De acordo com o Relatório de Mercado Focus mais recente, o IPCA deve fechar 2015 em 8,29%, bem acima do teto perseguido pelo Banco Central de 6,5%. Vale lembrar que já há quem espere taxa superior a 9%. Para 2016, a projeção do mesmo boletim é de 5,51%. 

A diferença aguardada para o IPCA entre os dois anos é de 2,78 pontos porcentuais, degrau menor do que os 3,23 pp vistos de 2002 para 2003. Na ocasião, o índice oficial do País passou de 12,53% para 9,30%, estourando nos dois anos as metas determinadas para o período. Com o temor de que o PT levasse as eleições, o câmbio disparou até encostar em R$ 4,00, o que pressionou muito os preços na época.


O descumprimento da missão fez com que o BC escrevesse uma carta aberta ao ministro da Fazenda, justificando os motivos que levaram ao fracasso da tarefa e indicando os próximos passos para colocar a inflação nos eixos. Isso ocorreu em 2002, 2003 e 2004 e deve ser repetido agora, no início do ano que vem. O documento está previsto no arcabouço do sistema de metas de inflação, usado no Brasil desde 1999. 

Economistas consultados pelo Broadcast, serviço de informações da Agência Estado, lembram que a situação atual é bem diferente da de 13 anos atrás porque a maior influência negativa sobre a inflação hoje é o conjunto de preços administrados. "O dólar fez com que a inflação subisse muito naquela época. Agora é diferente, a pressão é sobre não tradeables e isso tem que ser combatido com política monetária", salientou o economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira. "Até porque não se espera uma depreciação cambial no ano que vem", continuou. 

Para ele, parte da desaceleração do ano que vem será derivada dos preços administrados, que não vão ter a "fortíssima" alta vista agora em 2015. Pelos cálculos do economista do Fibra, o IPCA deve fechar 2016 de 5,2% a 5,4%. "Vejo uma desaceleração significativa dos preços livres no ano que vem", afirmou. 

O economista da LCA Consultores, Fábio Romão, tem um raciocínio semelhante, com destaque para o grande diferencial dos administrados, de 13,80% em 2015 para 4,20% em 2016. "O impacto desse conjunto de preços não vai sair totalmente, mas o diferencial é importante. Outra coisa significativa é a fraqueza da economia, que deve influenciar os preços livres", destacou. 

Romão prevê que os preços livres passem de 6,60% este ano para 5,40% no ano que vem. "Administrados representam aumento de custos e, além disso, o câmbio também mostrou atualização importante. São focos fortes que não deixam ver claramente o movimento dos livres", considerou. O que pode ajudar bastante, segundo ele, é o comportamento do segmento de serviço, que tem ganhado destaque nas peças de comunicação do BC. Esses itens tiveram alta de 8,4% no ano passado e a expectativa da LCA é a de que diminuam para 7,7% este ano e para 7% no próximo. 

Apesar de ainda alta, já é uma taxa compatível com uma inflação na casa de 4,5%, meta perseguida pelo BC. O economista lembrou que em 2009, por exemplo, quando o IPCA ficou em 4,30%, o segmento de serviços teve alta de 6,76%.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.