DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
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Queda de 42% no comércio entre Brasil e Argentina desafia Serra

Chanceler brasileiro buscará uma forma de reativar a relação comercial entre os dois países e permitir acordos bilaterais de integrantes do Mercosul com outras nações

Rodrigo Cavalheiro, correspondente, O Estado de S. Paulo

23 de maio de 2016 | 11h42

BUENOS AIRES - O chanceler brasileiro, José Serra (PSDB-SP), discutirá hoje com a ministra das Relações Exteriores argentina, Susana Malcorra, uma forma de reativar a relação comercial entre os dois países e permitir acordos bilaterais de integrantes do Mercosul com outras nações sem enfraquecer o bloco regional. O encontro no Palácio San Martín, alvo de manifestantes contrários ao impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff, será o compromisso mais extenso da agenda do brasileiro em sua primeira viagem no comando do Itamaraty. 

Alternativas para reativar duas economias em recessão também serão o centro de reuniões de Serra com o ministro da Fazenda, Alfonso Prat-Gay, no início da tarde, e o presidente Mauricio Macri, às 16 horas. O intercâmbio comercial entre as nações caiu 42% entre 2011 e 2015, de US$ 39 bilhões para US$ 23 bilhões.

O governo de Macri, que reconheceu a legalidade da administração do presidente interino Michel Temer minutos depois de o Senado brasileiro abrir o processo de impeachment contra Dilma Rousseff e afastá-la por 180 dias, tem interesse direto na retomada da atividade no Brasil, parte de 40% do comércio internacional argentino. Nos primeiros quatro meses, o déficit bilateral argentino triplicou e chegou a US$ 1,4 bilhão, em razão da queda no consumo brasileiro, segundo a consultoria Abeceb.

Nos últimos meses, a crise política e econômica brasileira foi acompanhada de declarações moderadas do governo argentino, cujo gabinete mantinha boa relação com os ministros de Dilma. Em março, Malcorra informou que chanceleres do Mercosul esboçavam uma mobilização em defesa de Dilma, com a organização de uma reunião de emergência que o Itamaraty então desestimulou.

Entre as diretrizes da nova política externa, anunciadas em sua posse na semana passada, Serra colocou a relação com a Argentina. Crítico do entrave que Mercosul representaria a acordos bilaterais, citou "referências semelhantes, para reorganização da política e da economia" ao referir-se ao governo de Macri, eleito no ano passado por uma coalizão de centro-direita. No discurso inaugural, Serra salientou sua intenção de defender a despartidarização do Itamaraty. Em entrevista ao Estado publicada no domingo, afirmou que não pretende usar o posto como trampolim eleitoral para uma candidatura presidencial em 2018.

Serra também destacou como objetivo da diplomacia brasileira a defesa de direitos humanos, item interpretado como uma mensagem para a Venezuela. A situação do país governado por Nicolás Maduro, que criticou o processo de impeachment brasileiro e tem sido alvo frequente de críticas de Macri, também está na pauta de reuniões do chanceler brasileiro na Argentina. O presidente argentino pressiona pela libertação por Caracas de presos políticos e já ameaçou pedir a suspensão do país do Mercosul.

Serra chegou à Argentina já com a definição do novo embaixador brasileiro em Buenos Aires, Sérgio França Danese, cuja indicação foi aceita informalmente pelo governo argentino no sábado. Ele ocupava a função de secretário-geral do Itamaraty, o segundo posto na hierarquia da instituição, cargo que será exercido por Marcos Galvão.

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