Queda de investimento direto pode piorar ainda mais

A trajetória de queda do fluxo de investimentos diretos estrangeiros (FDI, na sigla em inglês) pode se acentuar ainda mais. O pessimismo do mercado é ainda maior do que o do Banco Central que revisou sua projeção de US$ 13 bilhões para US$ 10 bilhões neste ano. O HSBC Bank do Brasil tem a pior previsão e estima um fluxo de US$ 6 bilhões, enquanto outros bancos apostam em volumes de US$ 8 bilhões a US$ 9 bilhões. "Não vejo perspectiva de recuperação no segundo semestre", disse Alexandre Bassoli, economista-chefe do HSBC, ao justificar o pessimismo. A questão dominante para o fluxo mais baixo, segundo ele, é o cenário de crescimento muito baixo nas principais economias mundiais. Mas ele afirma que também pesa na decisão dos investidores a incerteza em relação às questões regulatórias. Bassoli cita o setor elétrico, como exemplo, de alvo potencial de novos investimentos, cuja atração depende de algumas definições. O economista Ricardo Amorim, chefe de análise para a América Latina da IdeaGlobal, citou, como exemplo da incerteza regulatória, o episódio do reajuste das tarifas de telefones fixos. Ao anunciar um aumento médio de 28,75%, a Anatel, que é uma agência regulatória autônoma, foi duramente contestada pelo ministro das Comunicações, Miro Teixeira, que anunciou apoio a ações judiciais que contestassem o reajuste negociado entre as duas partes. De janeiro a maio deste ano, o total de investimentos diretos foi de apenas US$ 3,3 bilhões, ante US$ 8 bilhões no mesmo período de 2002. Foi uma queda forte, mas a desaceleração já vem ocorrendo há dois anos. No ano passado, o volume de FDI somou US$ 16,6, mas foi de US$ US$ 22,7 bilhões em 2001. No ano de 2000, quando o processo de privatização ainda era forte, o fluxo chegou a US$ 33,1 bilhões. Naquele ano, a venda de estatais respondeu por cerca de US$ 7 bilhões do total dos investimentos estrangeiros. Em 1999, a importância das privatizações também foi forte, respondendo por US$ 8,7 bilhões do fluxo de US$ 31,3 bilhões. Razões para a queda Na mesma linha de avaliação do HSBC, está o JP Morgan, que anunciou ontem a revisão de sua projeção de investimentos de US$ 10 bilhões para US$ 7,5 bilhões. Para o banco de investimento norte-americano, além de um ambiente externo negativo, a decisão reflete a persistência das incertezas no ambiente macroeconômico. "As causas que levaram à desaceleração ainda não são claras", afirma Alexandre Schwartsman, economista-chefe do Unibanco, que lista três razões para a queda: as perdas nos mercados de ativos sobretudo nos EUA; a queda forte dos fluxos nestes primeiros cinco meses do ano que refletiria ainda a crise de desconfiança que cercou a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002; e a redução do processo de privatização das estatais. O Unibanco prevê que o fluxo fique entre US$ 8 bilhões e US$ 9 bilhões neste ano, com uma aposta maior para o piso da projeção. O economista-chefe do Citibank, Carlos Kawall, trabalha com a mesma projeção da equipe econômica, de um fluxo de US$ 10 bilhões neste ano. A expectativa é de que "a melhor perspectiva para a economia brasileira e a reativação do mercado doméstico no segundo semestre deste ano possam estimular o apetite das empresas estrangeiras pelas possibilidades de longo prazo no Brasil". Mudança de patamar Mesmo que houvesse uma recuperação significativa da economia mundial neste segundo semestre, notadamente dos Estados Unidos, o fluxo de investimentos diretos de estrangeiros para o Brasil não voltaria aos níveis de 1999 e 2000, quando ultrapassaram os US$ 30 bilhões. A advertência é de Bassoli, ponderando que aquele desempenho foi episódico, ligado ao processo de privatização. Na melhor das hipóteses, o País voltaria a atrair de US$ 10 bilhões a US$ 15 bilhões ao ano. Um exemplo dessa mudança de patamar: de janeiro a abril deste ano, os investimentos em "correio e telecomunicações", de acordo com dados do governo, somaram US$ 290 milhões, contra US$ 1.692 bilhão no mesmo período do ano passado. A projeção da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet) de um fluxo de US$ 14 bilhões em investimentos diretos em 2004 confirma essa nova tendência.

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