Queda de juro muda composição da Dívida Pública Federal

Cai o volume de títulos indexados à taxa Selic o que, na visão do governo, aumenta a força da política monetária do BC

O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2012 | 03h04

A queda dos juros promovida pelo Banco Central para patamares próximos do mínimo histórico reduziu o ganho de aplicações com correção vinculada à taxa Selic e já provoca mudanças mais sólidas na composição da Dívida Pública Federal (DPF). A parcela em títulos que rendem a variação do juro básico caiu para o menor nível desde 1997.

A DPF, que inclui as dívidas interna e externa, fechou março em R$ 1,85 trilhão. Desse total, 26,34% são títulos corrigidos pela taxa Selic. Essa fatia, que chegou a 60,8% na crise brasileira de 2002, começou a cair mais fortemente no ano passado, quando o BC iniciou o processo de corte de juros e o Tesouro Nacional diminuiu a oferta de Letras Financeiras do Tesouro (LFTs), os papéis corrigidos pela Selic.

A troca de R$ 61,2 bilhões de LFTs que estavam na carteira de fundos do governo, em fevereiro, ajudou a acelerar o processo de redução da dívida atrelada à Selic. Para o governo, esse movimento de redução das LFTs é fundamental para diminuir o risco de financiamento da dívida (o estoque fica menos vulnerável em casos de alta dos juros no futuro). A equipe econômica acredita que essa redução, conhecida como desindexação da Selic, aumenta a força da política monetária do BC.

A queda da Selic reduziu a rentabilidade das LFTs e, com isso, os investidores passaram a comprar mais títulos prefixados (com taxa de juro definida no momento da venda) e papéis vinculados à inflação. Para o coordenador-geral de Operações da Dívida Pública, Fernando Garrido, a tendência é de continuidade do cenário de redução da rentabilidade dos papéis atrelados à taxa Selic. Hoje, o ganho dos investidores que compram esse tipo de papel é bem menor do que o obtido com títulos que pagam a variação de índices de preços ou dos prefixados.

Garrido destacou que essa tendência vale não só para as LFTs, mas para outras aplicações semelhantes, como os Certificado de Depósito Interbancário (CDI). Segundo ele, neste ano a rentabilidade do CDI foi de 2,97%, e a de aplicações corrigidas pela inflação foi de 9,07% e para os prefixados de 4,95%. Em dois anos, a diferença é maior. A rentabilidade do CDI no período é de 23,05%. Para as aplicações corrigidas por índices de inflação é de 40,47% e de prefixados, de 30,28%.

Recuo. Dados divulgados ontem mostram recuo de R$ 10,41 bilhões no estoque da DPF no primeiro trimestre, que passou de R$ 1,86 trilhão para R$ 1,85 trilhão. Se por um lado o impacto da correção dos juros no estoque provocou aumento de R$ 49,08 bilhões na dívida, o Tesouro vendeu R$ 59,5 bilhões a menos de títulos do que os papéis que venceram no período.

Esse resgate líquido aumenta o dinheiro em circulação.

A parcela de aplicações de estrangeiros em títulos da dívida interna atingiu em março o maior patamar da série histórica para esse indicador, que teve início em 2005.

Os investidores estrangeiros detinham 12,12%, o equivalente a R$ 215,27 bilhões.

Segundo Fernando Garrido, o aumento se deve em parte à valorização do estoque, mas há também um pequeno aumento decorrente de novas aplicações, principalmente em títulos de longo prazo.

O investimento estrangeiro em títulos públicos havia perdido fôlego depois que o governo aumentou o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para essas aplicações./ A.F. e R.V.

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